O portão da garagem me salvou na Copa de 2002
Minha maior alegria no Futebol foi ver o Brasil ser campeão em 1994. Mas a que mais comemorei disparado foi a vitória na Copa de 2002.
Em 1994 eu mais novo era bem mais tímido, estranhei aquela comemoração no Leblon repleta de bebedeiras e conclui rapidamente que àquele não era meu ambiente. Tomei o rumo de casa esperando encontrar paz e resenhas esportivas, porém o carro da minha mãe foi roubado naquele dia, logo depois da vitória do Brasil, um belo de um Tempra. Ela tinha que descontar em alguém e encheu meu saco até dizer chega dizendo que eu tinha bebido na comemoração quando naquela época a bebida que mais me fazia mal era Grapette. Enfim, foi uma alegria absurda aquela vitória, mas a comemoração deixou a desejar
Em 2002 fui à forra. Um grupo de amigos se reuniu lá em casa naqueles horários esquisitos daquela Copa do Mundo. Creio que era bem cedo, umas 8:30 da manhã eu chutaria. Aquele grupo de umas 20 pessoas foi ao êxtase com os gols de Ronaldo e uma atuação primorosa de Rivaldo depois de um primeiro tempo no qual minha lembrança precária diz que fomos dominados. Não faço ideia de quem assistiu lá em casa, lembro de umas 4, 5 pessoas. O que me recordo é que logo depois do jogo fomos à casa do Araujo, amigo meu famoso pelas histórias na noite carioca e por ter uma cobertura repleta de bebidas no Bairro Flamengo.
Naquela época eu não bebia por prazer. Por exemplo, hoje eu gosto de parar num bar num dia de sol, tomar um chopp gelado, conjecturar se o Universo é um equilíbrio perfeito ou fruto de um acaso maquiavélico no qual somos marionetes. Antigamente não, eu bebia pra ficar doidão e minhas conjecturas eram outras.
Dito isso, comecei a beber o que via pela frente na casa do Araujo. Vodka, Malibu, sei lá o quê bebi mais. Sei que novamente fui para o Leblon, no mesmo local no qual me senti de cueca numa festa a rigor em 1994.
Confesso que lembro muito pouco do que fiz no Leblon. Tenho flashes apenas, lembro daquela comemoração começando pelo final da manhã, de um amigo ou outro, de uma amiga ou outra, e eu lembro do Mingau.
Mingau é um amigo meu antigo do Colégio Santo Inácio. Branco, cabelo castanho tendendo para um loiro, tem um sorriso com dentes semicerrados constante. Uma cara de bobo, para os mais antigos ele parece ter saído do filme Pork´s. Creio que seu apelido de Mingau é pela cara de bobão, meio infantil mesmo depois dos 40, mas ele tem uma tese diferente que não vou desenrolar aqui.
Como disse, não me recordo de muita coisa naquele dia, mas o ocorrido principal, tirando a vitória do Brasil claro, está bem vivo na minha cabeça.
Lá pelas 18 horas já bem inebriado pela bebida eu começo a procurar umas meninas e me deparo com uma conhecida americana/mexicana, Edith.
Eu conhecia a Edith de festas, ela era amiga de uma grande amiga minha também americana. Bonita e interessante, contudo havia um detalhe; ela ficava com o Mingau e ele era louco por ela.
Cheio de cachaça nas ideias eu não liguei para isso e comecei a conversar, dar uma ideia como se dizia. Imagino que ela não estivesse na plenitude das condições também, afinal ela fazia parte de um grupo grande de americanas que estava fazendo um intercâmbio no Brasil e adoravam o país, torciam para o Brasil como se fossem sua pátria real.
Sei que a abordagem estava bem clara para quem via aquela cena, mas eu não contava que uma certa pessoa estivesse vendo.
Enumerei já algumas de suas características, mas esqueci da principal. Mingau é um possesso. Mingau é um possesso ao natural, não precisa de bebidas, de subterfúgios, de nada para se transformar, para suas bochechas brancas ficarem vermelhas, para gritar e promover grandes escândalos dignos de uma Heleninha Roitman.
Naquele momento meu amigo possesso vendo aquela cena chumbado pela bebida aflorando suas decisões sacramentou:
- Eu vou matar esse cabeçudo filho da puta!!!
Decidido, Mingau não queria uma morte simples para mim. Não seria uma facada simplória no Leblon, um tiro ou algo singelo desses. Ele resolveu me matar com um Tchaco. Não me perguntem por que alguém tem um Tchaco dentro de casa, estamos falando do Mingau, pessoa bem peculiar.
Do alto da sua juventude ele correu do Leblon à Gávea, sua casa, para pegar o Tchaco e consumar sua ira. Na corrida ele elaborou espertamente que não deveria me matar no Leblon, no meio da multidão, poderia ser preso.
“Farei de forma mais discreta”, Mingau pensou.
Calculou que dentro em breve eu estaria em casa e assim meu amigo resolveu ir até a minha residência no Flamengo gritar por mim, morador do quarto andar, rodando seu tchaco como Bruce Lee para eu descer; assim que eu pusesse minha cabeça avantajada do lado de fora me mataria manuseando sua arma como um legítimo ninja. Mais discreto impossível...
Eu, inocentemente, não fazia ideia dos planos do meu amigo. Mal sabia que sentiria saudades daquela comemoração da Copa de 94 na qual não comemorei como esperava, mas pelo menos vivi.
Porém, Deus estava do meu lado.
Como eu disse Mingau é um possesso. Entrou em casa como um furacão, pegou seu tchaco, as chaves do carro e aprontou tudo para sair. Cego pelo ódio e pela raiva, ou quem sabe numa intercessão divina por mim, ele bateu o carro na garagem manobrando, saindo, algo do tipo.
Não conseguiu sair um metro da garagem, arrebentou o portão e chamou a atenção do porteiro, do seu Pai e dos vizinhos.
Seu pai ao ouvir aquele barulho desceu rapidamente e conforme se aproximou viu uma cena que até hoje não entendeu.
O filho com aquele rosto de criança, o carro amassado, segurava as duas mãos no volante chorando copiosamente e balbuciando palavras que lhe pareceram desconexas até hoje, mas algumas ele conseguiu apreender.
Ele lembra apenas dessas:
- Eu quero matar aquele CABEÇUDO!!! Eu quero matar o Cocão!!!
Quando eu era pequeno
Eu achava a vida chata
Como não devia ser
Os garotos da escola
Só a fim de jogar bola
E eu queria ir tocar guitarra na TV
Ai veio a adolescência
E pintou a diferença
Foi difícil de esquecer
A garota mais bonita
Também era a mais rica
Me fazia de escravo do seu belprazer
Quando eu sai de casa
Minha mãe me disse
Baby, você vai se arrepender
Pois o mundo lá fora
Num segundo te devora
Dito e feito
Mas eu não dei o braço a torcer
Hoje eu vendo sonhos
Ilusões de romance
Te toco, minha vida
Por um troco qualquer
É o que chamam de destino
E eu não vou lutar com isso
Que seja assim enquanto é