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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Coaching e verdades

 Coaching, o melhor conselho que recebi na vida e meu amigo Humberto Guerreiro

Novembro de 2003, primeiro dia de aula no curso Gabarito, Rio de Janeiro. Eu, bem metido. entro numa sala lotada, mais de 100 alunos, para assistir Direito Constitucional com a Cristina Luna, famosa professora na época. Penso, será breve. Estudei no Colégio Santo Inácio, um dos melhores do Rio, tenho uma boa base, meus adversários não irão me acompanhar. Foi meu primeiro período de estudos.
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Março de 2007, meu retorno ao Curso Gabarito. Eu, bem metido, entro numa sala com 40 pessoas no máximo. Os cursos começam a sofrer a concorrência dos cursos on-line e a frequência despenca. Penso, será breve. Estudei muito durante dois anos, não passei na Receita Federal por uma questão, já estou num bom emprego e rapidamente lembrarei do que estudei. O sucesso é uma questão de tempo, curto claro. Foi meu segundo período de estudos.
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Onde eu aprendi a gostar de estudar foi no Curso Gabarito. Não foi um processo natural, estudar para vagabundo não é uma chave de ligar um carro. Fiz um bom Colégio que percebi inúmeras deficiências depois. Faculdade eu fiz Administração, sempre me alertaram que era um curso fraquíssimo, eu só acreditei depois. Não serve para nada!! Desculpas dadas, eu fui num crescente, tive o maior incentivo que uma pessoa poderia ter para estudar. Falta de grana. Duro como uma pedra alternava meus estudos na Biblioteca da PUC do Rio onde conseguia me concentrar e o curso Gabarito. Eu amava aquele curso. Amava porque sentia o objetivo claramente, sentia que aprendia, aprendi muito mais em dois anos que na Faculdade inteira. Gostava do estilo dos professores, xingamentos, palavrões aos montes, informalidade com conteúdo. Amava até o café preto que era horrível, o pior da minha vida, era um doping maravilhoso para quem precisava estudar. Até hoje tenho gastrite por causa daquele café.
O melhor do Gabarito, porém, não eram os professores, o café ou alguma metodologia de ensino maravilhosa. Era o Humberto.
Se hoje temos um Coaching em cada esquina, no Gabarito já existia o melhor coaching de todos os tempos. Humberto, ou Guerreiro para os íntimos. O dono do Curso.
Humberto tinha uma sala que o dia inteiro havia movimento.
Muitas reuniões, encontros com os professores, mas o principal era receber os alunos para conselhos, dicas ou coisas semelhantes.
Concurseiros são candidatos enormes a uma boa psicanálise. Não sei onde Humberto aprendeu, mas ele tem o dom. Educado, aquele moreno bem moreno magrinho, de camisa invariavelmente branca e sorriso largo dizia poucas palavras, mas precisas. Antes de cada palavra ele mexia em uns cristais na sua mesa, parecia que formulava o que ia dizer. Não eram dicas, caminhos para passar, era um algo a mais que não sei cravar, mas se fosse arriscar diria que Humberto falava da vida, usava metáforas, apontava caminhos a trilhar sem dizer exatamente como, mas deixava a entender numa frase não dita:
- O caminho está lá Guerreiro, quer percorrer?
Bom tempo depois descobri por que ele chamava a todos de Guerreiro. Como o curso tinha muito movimento, muita gente diferente, para não parecer mal educado por ter esquecido o nome de algum aluno ele chamava a todos por Guerreiro. Não, não sei como ele chamava as meninas. Sei que aconteceu o inverso e muitos alunos como eu passaram a chamá-lo de Guerreiro também.
Eu só “usei” o Humberto na minha segunda passagem pelo Curso. Na primeira não sei, acho que bem metido, mais que na segunda, eu achava que não precisava. Na segunda vez me rendi, preciso de ajuda.
Ele me conhecia obviamente, mesmo que de vista, eu fazia muito curso lá, mas a conversa só fluiu quando descobrimos que amávamos tênis e éramos fãs do Roger Federer. Daí foi um passo para jogar tênis que ele sempre ganhava e da mutação ao meu olhar de dono do meu curso favorito para meu amigo.
Com a amizade vieram as conversas mais longas. Conselhos, enigmas, algo Mestre dos Magos. Ele raramente me falava diretamente o que eu queria saber, mas deixava no ar.
Contudo, um dia ele foi bem direto. Eu fazia muitas aulas à noite, já trabalhava, e saía um pouco antes do término da aula para aproveitar a carona do ônibus do condomínio dele. Eu morava no Recreio, ele na Barra. Estamos lá naquele trânsito colossal do Rio de Janeiro e eu reclamando na altura de São Conrado.
- Pois é Guerreiro, eu poderia ter passado na Receita Federal e encerrado já esse capítulo da minha vida. Não tive apoio, não tinha grana, vivia nervoso. Até na Biblioteca da Puc eu desmaiei. Enumerei um monte de culpados e concluí...
- Eu achando que tinha virado uma pagina da minha vida e na verdade o livro está no começo. Se eu tivesse tido ajuda...
Humberto dá uma pausa que me lembra a velocidade do ônibus, bem devagar, um suspiro um pouco maior. Parece procurar as palavras, não há os cristais para ajuda-lo, mas ele não precisa. De forma educada, mas incisiva, ele fala.
- Guerreiro! Foi você quem não passou na prova. Não foi mais ninguém.
O ônibus continua a “viagem” e eu e o Humberto entramos num silêncio profundo. A lentidão do trânsito me incomoda mais, a poltrona grande do ônibus de turismo subitamente me parece desconfortável e minha mão parece molhada, mesmo com aquele ar gelado.
Foi a última lição que o Guerreiro me deu, e foi a melhor de todas.
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Este texto não saiu como eu queria e na verdade nunca sairá. É impossível colocar em palavras o quanto sou agradecido ao Humberto pelas palavras, pela amizade e pela companhia mesmo que num pequeno período da minha vida. Se hoje acho uma besteira a cabeça que tinha na época, um endeusamento de concursos públicos, achar que quem passa é um gênio etc, tenho pra mim que me tornei melhor nesta caminhada e boa parte foi pelos conselhos e amizade do Guerreiro.
Em breve te darei um abraço meu amigo e agradecerei pessoalmente.