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terça-feira, 26 de maio de 2020

Santo Inácio


Eu tenho um texto aqui no blog sobre meu colégio. Este é o do meu pai. 

SANTO INÁCIO


Sou uma anta no campo das ciências exatas. Fiz o Clássico, não estudei física, química ou descritiva. Costumo dizer que o meu limite tecnológico é o liquidificador Walita de três velocidades. Mas sei o suficiente para ter certeza de que os relógios, a partir de uma certa etapa de nossas vidas, passam a caminhar mais rápido.

Não posso acreditar que já faz dez anos que escrevi a página de abertura do Anuário que editamos para comemorar quarenta anos de formatura no Santo Inácio. Mas acabo de repetir a proeza, produzindo o texto que abriu nosso livro dos cinquenta anos. Prevenido que sou, e ciente da rapidez dos acontecimentos, estou escrevendo os textos que vão comemorar nossos sessenta, setenta, oitenta, noventa e cem anos de formados.
A turma de 1967, a que pertenço, inaugurou o primário do colégio, em 1956. Doze anos depois, não mais do que vinte alunos alcançaram a proeza de ter estudado no Santo Inácio do primeiro ano primário até o terceiro ano do colegial.

Não tive esse privilégio. A escolha do colégio em que eu deveria estudar colocou minha mãe e meu pai em campos opostos. A bem da verdade, até se separarem, eles sempre estiveram em campos opostos. Todos os varões da família de Paulo Fortes estudaram no Colégio São Bento. Desde Cândido Barata Ribeiro, médico que foi o primeiro prefeito do Distrito Federal. Me ver com o terninho cinza do Santo Inácio era o sonho de consumo de minha mãe, sonho que somente se concretizou em 1958, no terceiro ano primário. Um ano antes eu fizera uma prova para ingressar no colégio. Estava bem preparado. Concorreram noventa meninos, eu fiquei em sexto lugar. As vagas eram apenas quatro...

No seu intento de me tornar um jesuíta, minha mãe contou com a ajuda de Oscar Gabriel, amigo de meu pai, dono das Óticas Brasil. Oscarzinho, seu filho, era aluno do Santo Inácio. Oscar era muito amigo do Padre Barreto. Mas seu empenho não foi suficiente. Fui chamado quase ao final de 1958. Imagino que duas vagas tenham surgido ao longo do ano. Sei que minha trajetória Inaciana começou no dia 28 de outubro de 1958. Meu primeiro dia de aula, na classe de Dona Lilian. Tenso, em trajes civis, eu tentava me enturmar com um bando de meninos que ostentavam seu garboso paletó cinza. Foi quando um colega, vindo não sei de onde, irrompeu na sala anunciando : "Viva o novo Papa ! Viva João XXIII ! ". O Google confirma a data : 28 de outubro de 1958.

Adaptado, fui atraído pela tradição futebolística do Santo Inácio. Colégio de grandes craques, com destaque para os expoentes Raphael de Almeida Magalhães, Gugu e Mosquito, os dois últimos estrelas do futebol de praia do Lagoa e do Juventus, respectivamente. Fui sempre um ponto fora dessa curva. Mas participava, animadíssimo, de um esporte que chamávamos de futebol, mas se assemelhava à movimentação das tropas que invadiram a Normandia. Tudo sob o olhar atento da Diretora Dona Gilda e da Maria, sua auxiliar, encarregada da tarefa superior de abrir nossas garrafas de Coca-Cola.

De repente nos vimos homens. Tempo de Admissão, de professores engravatados e disciplina rígida. Homenzinhos frequentam bares. E desde cedo começam a beber coisas que não fazem bem. No bar do recreio vendia-se uma tal de Ginja-Cola, capaz de enfrentar desafios de uma pia entupida.

Algumas tradições ficaram pelo caminho: a missa dominical, a folga nas quartas-feiras, o uniforme de gala... Mas não faltavam novidades: as campanhas missionárias, os retiros na Fazenda Santa Bárbara, o cinema à noite no colégio...

Em seguida, quatro anos de ginásio, com uma rotina pouco alterada. Disciplina rígida, que não nos impediu de acumular "causos" que até hoje animam nossas mesas de conversas. Chegávamos, também, à época de definições importantes. Clássico ou Científico ? Enfrentar o rigor Inaciano tornava-se cada vez mais complicado. A cada ano perdíamos bons amigos, que não conseguiam acompanhar o ritmo de um colégio campeão nos vestibulares.

Em seguida vieram as festas, os primeiros namoros. As desilusões com um país que nossa geração acreditava poder melhorar. Afinal, éramos tão preparados, tão aguerridos... Uma avaliação errada que fizemos.

Noventa e três colegas compareceram ao almoço que promovemos no Clube Paissandú, comemorando os cinquenta anos de nossa formatura no Santo Inácio. Lembramos a bela solenidade que aconteceu no final de 1967, no esplêndido teatro do colégio que, lamentavelmente, não existe mais. Lembramos do auditório repleto, ocupado por nossos pais. Orgulhosos e emocionados, imbuídos de um sentimento de missão cumprida, eles dividiam com nossos avós, irmãos e amigos aquele momento inesquecível de nossas vidas.


Cinquenta anos depois acontece nossa confraternização no Paissandú. Oportunidade em que refletimos sobre a dedicação e a excelência dos nossos professores e dos padres jesuítas que nos propiciaram uma excepcional formação. Em que reafirmamos nosso orgulho de ter sido alunos do Santo Inácio, nossa certeza de que mais Inacianos à frente do pais teriam edificado algo muito melhor do que aquilo que nos é dado conhecer nos dias de hoje. E, o mais importante, em que choramos a ausência de muitos colegas queridos, que não estão mais entre nós para participar de nossa grande festa.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Ficou lá atrás

FICOU LÁ ATRÁS

Preciso me certificar que minha foto está lá, no quadro de formandos. Todo aluno que se forma no Santo Inácio tem sua foto num quadro, local em que digamos se imortaliza na alma da instituição. Eu tenho certeza que não, que minha foto nunca esteve. Há semanas sonho que não consegui me formar, algo ficou para trás, uma vida que é um engodo.  Não poderia ter feito faculdade, não poderia ter feito concurso para a Petrobras, não poderia ter feito concurso para a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul. Já começo a fazer contas de quanto devo, pelo menos 11 anos de salários. Se estou negativo hoje, como pagarei 11 anos de salários? Minhas mãos tremem, suo frio, como se fosse pegar uma nota de física do Professor Zarur.

A suspeita na minha cabeça já é certeza conforme os sonhos acumulam. Pego o primeiro avião que consigo para o Rio de Janeiro para visitar meu antigo colégio, Santo Inácio, Santo Inácio de Loiolaaaa...Vem um ritmo de música na cabeça, a letra não. O que lembro, o que esqueci?  Nunca me formei em 1994, ano em que o Senna morreu, ano do Plano Real, ano da Copa do Mundo. Quero apenas me certificar de que a mentira que vivo é verdade. Quantas mentiras mais tenho?
De fora parece o mesmo colégio. Entrada discreta, grades as mesmas. Um novo baleiro sem a cara simpática do falecido Madura.
 - Você vende uvinha?
 - Uvinha? O que é isso?
 - Deixa pra lá;

Entrar no colégio é surpreendentemente fácil. Um paletó azul marinho me dá um ar professoral, livros diversos nas mãos são um álibi óbvio e eficiente. Cabelo grisalho e ninguém me interrompe. Entro pelo metrô, como chamavam na minha época. Já chamo tempos passados de minha época. Não sei por que se chama metrô, não acho parecido. Antigamente as notas eram pregadas aqui, parece que foi ontem que fiquei de recuperação em física e catei meu nome como um doido para ver se eu tinha passado. Será que as notas são por whatsapp hoje em dia? Se minha foto não está no quadro em que matéria repeti? Alguma de exatas com certeza. Sempre fui uma besta matemática. Amigos riam das minhas dificuldades, da falta de talento em desenho  geométrico…Mediatriz? Nunca consegui fazer uma.

Caminho pensando como farei para pagar a matéria que devo. Um homem de 40 anos sentado ao lado de meninos de 17. Será que os padres aceitam suborno? Há padres ainda?
Não sei por onde começar a procurar. Na frente do colégio ficam os quadros mais recentes, era assim antigamente. Percorro os andares nervoso, a sensação de desconforto de um adolescente tímido volta com mais força. Olho para o banheiro onde me escondia, mas agora não quero mais me esconder. Quero achar uma vida, talvez a que não devesse estar vivendo.

Lá está ele, o quadro. Brega como imaginava que era. Uma cor que não sei precisar, salmão acho. Minhas pernas tremem mais ainda, como antigamente. O quadro está alto, já não enxergo tão bem, cacete, cadê minha foto?
Vejo professores que já morreram, amigos que nunca mais vi, adolescentes populares, adolescentes tímidos loucos por sexo, uma playboy que fosse. Ah Luciana Vendramini!!!  Mas não me vejo. Cadê minha foto? Meu olhar percorre o quadro salmão brega na maior velocidade que consigo. Não está na ordem isso, Bernardo Langoni, Bruno Wong, , Eduardo...?

 - Bom dia, tudo bem contigo? Posso te ajudar?
Um professor, padre, não sei como se vestem hoje em dia, fala comigo com olhar desconfiado. Me dou conta que estou suado, tremendo todo, não sei o que responder sem despertar suspeitas.
 - Procuro uma fraude.
Ele me olha meio assustado, mas não se alonga. Segue seu rumo, qualquer que seja.

Mais nervoso ainda, procuro a bendita foto, a prova de que existo na sociedade. Minhas mãos geladas prenunciam que irei ter um troço se não achá-la, mas a encontro.
Como as notas de antigamente nas provas de matemática olho uma, duas vezes, três para ter certeza que passei. Passei de ano. E agora, passei do quê?

Um cabelo escorrido, lambido, sorriso forçado, discreto. Ela está lá. Fabio Fortes, sim, meu nome. Cabelo castanho, hoje grisalho. Está lá.  Das mentiras que sou e carrego, esta não faz parte. Olho mais uma, duas, dez vezes. Mais relaxado, vejo os colegas, muitos dos quais não lembrava. São lembranças, boas ou indiferentes. A idade te ensina a não guardar mágoas.

Mais calmo desço as escadas e reparo como elas continuam afundadas nas pontas.  Bebo a água do bebedouro mais forte, o da ponta e, como antigamente, ele esguicha forte no meu rosto me molhando todo. Continua gelada, penso. Na cantina com o apelo clean da modernidade peço um cheeseburger. O queijo não vem derretido e escorrido como antigamente. Sento na arquibancada para ver o jogo e reparo que poucos prestam atenção. Entretidos com seus celulares postam felicidades virtuais sem viver o presente. Terão lembranças como eu?  O campo de futebol me parece ainda menor do que da última vez que estive no colégio. Cabiam 20 times quando criança achava, hoje mal cabem 2.
Minha foto está lá, mas continuo achando que algo ficou para trás.