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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eu estou aqui

 Eu estou aqui

Há muitos anos fui numa festa de um ex namorado da minha irmã. Mesmo já tendo acabado com ela fez questão de me chamar e mais alguns amigos meus, gostava de mim ou queria um revival, não sei.
Ele era bem rico e resolveu fazer um festão numa casa no Joá. Comida e bebida da melhor qualidade liberadas, DJ, Blitz era a banda, casa espetacular e centenas de convidados. De fato eu me diverti, bebi bem, mas não o suficiente para não reparar que o aniversariante e atração principal do evento parecia deslocado na sua própria festa. Várias vezes dirigi meus olhos a ele e reparei que ele caminhava sozinho, sorriso amarelado, imagino que mais da metade dos “amigos” dele naquele evento ele não deveria ter nenhum contato. Claro, foi uma impressão, mas me deu pena, achei a solidão na multidão que todos nós já sentimos.
Esta solidão me lembrou de uma história que me avô contava. Seu sobrinho, meu primo de segundo grau, não passava no Vestibular. Rapaz inteligente, estudou em um dos melhores colégios do Rio, provavelmente o melhor. Estava mais do que preparado, mas quando indagado sobre as razões de não passar ele respondeu;
- Eu me sinto só na prova.
Sim, uma alegação muito pouco convencional. A prova era feita no Maracanã quando o estádio não era esse pigmeu que o transformaram. Era um estádio para 200 mil pessoas, para multidões e claro que se no Vestibular o número era muito menor por razões óbvias ainda assim era muita gente.
- Sim, eu sei que tem muita gente, mas não conheço ninguém, não adianta. Eu me sinto só.
Paulo Fortes, meu avô, pensou:
“Preciso ajudá-lo. Sobrinho e também afilhado, algo preciso fazer, mas o quê?”
A ideia foi pouco convencional, mas era uma bela tentativa. Meu avô tinha como um dos seus grandes amigos Joacir Ribeiro, um dos responsáveis pelo som do Maracanã. Não hesitou.
- Joacir, preciso de um grande favor seu. Meio esquisito, mas é pra minha família, por família fazemos tudo.
- Não sei o que é Paulinho, mas se é pedido seu já tá feito.
Joacir estranhou claro quando soube, não era tão trivial, mas deu seu jeito. Existem amizades que fazemos qualquer coisa um pelo outro.
Foi a primeira vez que meu avô pisou no gramado. Ele que assistiu a final da copa de 50 e chorou, que viu seu América tantas vezes fazê-lo sofrer agora ia ao estádio não na condição de torcedor, jogador ou algo ligado ao Futebol.
Do alto dos seus 140 kilos, mas ainda jovem, caminha lentamente para o centro do gramado. As lembranças são inevitáveis. O gol de Ghiggia na final, os feitos de Pelé e seu preferido Garrincha. O palco sem dúvida é propício para uma ária, nunca cantou para tanta gente. A multidão absorta em suas provas e sonhos estranha aquela figura, mas tempo é algo que eles não tem naquele Vestibular tão difícil e retomam rápido para suas questões e problemas.
Meu avó ciente do que foi fazer apenas levanta o braço naquele corpo avantajado que o estádio enorme torna pequeno. Na voz mais baixa que já saiu daquele vozeirão ele fala:
- Eu estou aqui!
- Eu estou aqui!
“Haverá além da noite silenciosa, um dia eterno? Será sua morte uma porta que leva à luz? Isso nós jamais saberemos”.