Pesquisar este blog

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Me bate Cocão, me bate

 Me bate Cocão, me Bate

Marcelo iria levar duas meninas para a minha casa para fazermos um “aquece” antes de irmos ao Rock in Rio Café, famosa boate dos anos 90, 2000 do Rio de Janeiro. Uma delas me interessava bastante, a Vivian. Vivian não era uma modelo, mas eu somente via beleza e charme nela. Nunca tinha tido a coragem ou oportunidade de abordá-la, mas àquele dia seria O DIA D.
Ansioso por recebê-la na minha casa, eu fiz tudo certo. Comprei algumas comidas básicas, batata rufles, amendoim, alguns queijos, salame, essas coisas. O principal, claro, eram as bebidas. Uma pequena discussão se deu entre mim e o Marcelo sobre qual a mais apropriada. Ele manda de forma educada.
- Compra batida do Oswaldo porra!!
Eu sempre fui duro e a batida do Oswaldo não era baratinha. Além de tudo era longe pra caramba, Flamengo minha casa, Barra Tijuca as batidas. Marcelo, incisivo, me convence.
- Quer impressionar ou não cabeção?
No dia combinado tudo estava perfeito. Meu apartamento, enorme, fruto do tempo passado de bonança do meu pai era um bom cartão de visitas. A comida não impressionava, mas não comprometia. Somente para forrar. O principal eram as bebidas e as batidas estavam lá, aos montes. Todos se embebedando naquele Rio de Janeiro irresponsável dos anos 90, inclusive eu. Ocorre que cometi um engano, na verdade dois.
A batida do Oswaldo era uma bebida demoníaca. Muito doce, o açúcar em excesso mascarava o teor alcóolico exacerbado. Experientes caminhariam devagar, como se estivessem num pântano cheio de areia movediça.
Eu não era experiente e me atirei.
Em casa já fiquei muito louco, mas procurava disfarçar. Porém, havia um terceiro elemento para se aproveitar da minha bebedeira.
Araujo é um dos meus melhores amigos. Bom papo, inteligente, parecia o Pagliuca da seleção italiana de Futebol. Se ele abre a boca ele domina o ambiente, e ele sempre abre. Eu cansei de avisar que o negócio estava armado, que eu brilharia com ela, e o Marcelo com a outra menina que não me recordo o nome.
- Tá certo Cocão, você acha que vou furar seu olho?
Depois de um aquece no qual eu fui o mais prejudicado, fomos para o Rock in Rio Café. Chegando lá emendei com outra bebida satânica, era uma mistura de Malibu com sei lá o quê; O que lembro é que na minha cabeça juvenil seria o gole de coragem para eu consumar meu casamento.
Naquele teor alcóolico em que eu poderia ser um dos protagonistas do filme “Se beber, não case” resolvo chegar na Vivian.
Eu já a imaginava cantando para mim na Boate:
Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério
Uh eu quero você
Como eu quero
Uh eu quero você
Como eu quero
Evidente que naquele pileque absurdo minha imaginação não se consumou e ela me deu um toco fenomenal. Que toco meus senhores, que toco. Com os sentimentos aflorados pela bebida ouvindo o sino tocar e o nocaute consumado, me recolho a um dos belos sofás do Rock in Rio Café para me recuperar de tamanha decepção.
Depois de algumas horas resolvo levantar, soldado bom não se esconde na trincheira; se não foi a Vivian outras irão querer o bom Cocão. Dirijo-me do segundo andar para o primeiro onde está a pista de dança, ambiente de batalha, e aí vejo a cena que encerra a minha triste noite.
“Como é que uma coisa assim machuca tanto
E toma conta de todo o meu ser
É uma saudade imensa que partiu meu coração
É a dor mais funda que a pessoa pode ter”
Araujo e Vivian se beijam como dois apaixonados, como uma novela das 8 dos saudosos anos 80. Beijos apaixonados, melados, abraços, afagos, que dor, que dor.
Um escuro deserto do céu se transforma a minha mente. Lágrimas descem e eu me sinto no final de o Último Americano Virgem. Não há mais nada a fazer; Pago minha conta, pego um táxi que sairá uma fortuna e pela madrugada adentro faço o trajeto Barra da Tijuca – Flamengo com lágrimas teimosas presas nas minhas sardas. Nunca mais falarei com aquele canalha do Araújo.
Aí eu me afogo num copo de cerveja
Que nela esteja minha solução
Então eu chego em casa todo dia embriagado
Vou enfrentar o quarto e dormir com a solidão
O nunca mais durou duas semanas. Fomos ao Rock in Rio Café novamente como era praxe no nosso grupo de amigos, mas eu não dirigi a palavra a ele. Ele insistia, tentava, se justificava e de fato estava certo. Eu cheguei muito mal, levei toco e ele foi naquela de amigo bonachão, um canalha, mas fazia parte do jogo.
Mesmo que no meu íntimo eu concordasse com ele, não daria o braço a torcer. Foi muito orgulho ferido, muita dor e muitas expectativas frustradas.
A lua inteira agora é um manto negro, ô-ô
O fim das vozes no meu rádio, ô-ô
São quatro ciclos no escuro deserto do céu
Na volta de um Rock In Rio bem diferente do que estávamos acostumados a larica da bebida me retorce o estômago. Começo a entoar o grito de guerra que fazíamos para o Marcelo, que sempre dirigia pois era o único que não bebia.
- OLIVEIRAAAAAAAAAAAAA!!!!OLIVEIRAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!
Oliveira era um famoso cachorro quente que ficava em frente ao Ballroom, outra boate dos anos 90 do Rio. Marcelo me deixa lá e Araujo salta também.
- Sai fora Araujo, não vou falar contigo nunca mais. Deixa eu comer sozinho!
Ele insiste, argumenta, mas rapidamente é absorvido pelo cachorro quente e lambuza o rosto com aquela maionese verde de orelha a orelha.
Depois daquele cachorro quente maravilhoso pego o primeiro táxi que encontro, mas como numa cena de filme sou seguido pelo Araujo. Salto na aristocrática Avenida Rui Barbosa, minha casa, e ele não desiste.
- Porra Cocão. Você vai matar a nossa amizade por uma menina? Nossa amizade de tantos anos? Tantas guerras?
- Quem matou foi você Araujo!!! Sai fora, vou pra casa dormir.
Acuado, sem convencer pelas palavras, inebriado por mais um porre dentre tantos Araujo dá sua última cartada. Os primeiros raios solares atravessam as árvores daquela Avenida cheia de ricos que não estão acostumados a gritos, esbórnia ou agitação. Os raios iluminam aquela figura folclórica e parecem lhe dar uma ideia, louca é verdade, mas uma última cartada, um blefe talvez.
- Tá bom Cocão. Você pediu!
Araujo caminha para o meio da Avenida que comporta tranquilamente 3 carros lado a lado. Penso que ele vai para a loja de conveniência do posto nos bons tempos que ele era 24 horas. Mas não, no meio da Avenida ele se deita e começa a gritar.
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu vejo aquela cena estupefato. Seria apenas bebida, um blefe juvenil, ou aquela amizade valia mesmo a linha tênue entre a vida e a morte? Até que ponto vamos por um amigo?
Os gritos chamam a atenção dos porteiros daquela avenida e alguns deles abandonam seus postos para conferir o que está acontecendo. Um deles, o Joel, amigo meu, me faz a inevitável pergunta.
- É seu amigo?
- Nunca vi na vida!!
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Vem um carro afastado, mas eu não pago para ver. Arrasto o Araujo para a calçada.
- Você me perdoa Cocão?
- Claro que não, vai pra casa porra!!!! Para de passar vergonha!!!
Chora, não vou ligar
Não vou ligar
Chegou a hora, vais me pagar
Pode chorar, pode chorar
Mas chora!
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Mas chora
Araujo retorna para a o meio da Avenida, mas eu penso, já fomos longe demais. Um pequeno grupo se forma, já com os primeiros moradores acordados, nos olham com desdém como se dissessem, quem são esses?
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu o arrasto dessa vez de forma definitiva, dou lhe um belo de um esporro e grito.
- Chega Araujo! Acabou! Vamos para nossas casas dormir.
- Você me perdoou então? Somos amigos novamente?
Eu sempre gostei de me fazer de difícil e disse que não. Na verdade era só charme, a bebedeira descendo ainda, a anestesia do acontecido, o sol da manhã tomando força na Avenida Rui Barbosa. Araujo lança mão de um último artifício.
- Tá bom Cocão. Toma então, me bate porra. Me bate!!!!!!!!!!
Ele me entrega o cinto e fico sem saber o que fazer. As figuras que acordaram cedo para caminhar no Aterro do Flamengo nos olham de soslaio. Joel, o meu amigo porteiro, ri escandalosamente. Uma certa expectativa é criada, aquela tensão de brigas de colégio que são repletas de juras de morte e pouca ação. Não posso me furtar....penso. Ergo o braço e consumo:
- Toma FDP, aprende a não roubar a mulher dos outros. Toma canalha!!!!
Foram poucas as chicotadas, mas foram como uma chuva de verão que refresca e limpa a cidade depois de um calor de 40 graus. Ao fim nos abraçamos chorando e finalmente tomamos o rumo de nossas casas. Eu, do lado da minha, caminho lentamente exaurido pela noite de idas e vindas e paro para observar a figura do meu amigo. O Araújo, mais longe da sua casa, caminha ainda mais pausadamente e se afasta de mim aos poucos. Quase na esquina olha para trás e se despede com aquele sorriso discreto e um aceno. Eu aceno de volta sabendo que retomei umas das coisas mais importantes das nossas vidas.
Que morram todos os meus amores, mas enlouquecerei se morrerem os meus amigos, pois não há nada mais precioso do que uma amizade verdadeira.
Vinicius de Moraes






domingo, 7 de fevereiro de 2021

Coaching e verdades

 Coaching, o melhor conselho que recebi na vida e meu amigo Humberto Guerreiro

Novembro de 2003, primeiro dia de aula no curso Gabarito, Rio de Janeiro. Eu, bem metido. entro numa sala lotada, mais de 100 alunos, para assistir Direito Constitucional com a Cristina Luna, famosa professora na época. Penso, será breve. Estudei no Colégio Santo Inácio, um dos melhores do Rio, tenho uma boa base, meus adversários não irão me acompanhar. Foi meu primeiro período de estudos.
.....
Março de 2007, meu retorno ao Curso Gabarito. Eu, bem metido, entro numa sala com 40 pessoas no máximo. Os cursos começam a sofrer a concorrência dos cursos on-line e a frequência despenca. Penso, será breve. Estudei muito durante dois anos, não passei na Receita Federal por uma questão, já estou num bom emprego e rapidamente lembrarei do que estudei. O sucesso é uma questão de tempo, curto claro. Foi meu segundo período de estudos.
.....
Onde eu aprendi a gostar de estudar foi no Curso Gabarito. Não foi um processo natural, estudar para vagabundo não é uma chave de ligar um carro. Fiz um bom Colégio que percebi inúmeras deficiências depois. Faculdade eu fiz Administração, sempre me alertaram que era um curso fraquíssimo, eu só acreditei depois. Não serve para nada!! Desculpas dadas, eu fui num crescente, tive o maior incentivo que uma pessoa poderia ter para estudar. Falta de grana. Duro como uma pedra alternava meus estudos na Biblioteca da PUC do Rio onde conseguia me concentrar e o curso Gabarito. Eu amava aquele curso. Amava porque sentia o objetivo claramente, sentia que aprendia, aprendi muito mais em dois anos que na Faculdade inteira. Gostava do estilo dos professores, xingamentos, palavrões aos montes, informalidade com conteúdo. Amava até o café preto que era horrível, o pior da minha vida, era um doping maravilhoso para quem precisava estudar. Até hoje tenho gastrite por causa daquele café.
O melhor do Gabarito, porém, não eram os professores, o café ou alguma metodologia de ensino maravilhosa. Era o Humberto.
Se hoje temos um Coaching em cada esquina, no Gabarito já existia o melhor coaching de todos os tempos. Humberto, ou Guerreiro para os íntimos. O dono do Curso.
Humberto tinha uma sala que o dia inteiro havia movimento.
Muitas reuniões, encontros com os professores, mas o principal era receber os alunos para conselhos, dicas ou coisas semelhantes.
Concurseiros são candidatos enormes a uma boa psicanálise. Não sei onde Humberto aprendeu, mas ele tem o dom. Educado, aquele moreno bem moreno magrinho, de camisa invariavelmente branca e sorriso largo dizia poucas palavras, mas precisas. Antes de cada palavra ele mexia em uns cristais na sua mesa, parecia que formulava o que ia dizer. Não eram dicas, caminhos para passar, era um algo a mais que não sei cravar, mas se fosse arriscar diria que Humberto falava da vida, usava metáforas, apontava caminhos a trilhar sem dizer exatamente como, mas deixava a entender numa frase não dita:
- O caminho está lá Guerreiro, quer percorrer?
Bom tempo depois descobri por que ele chamava a todos de Guerreiro. Como o curso tinha muito movimento, muita gente diferente, para não parecer mal educado por ter esquecido o nome de algum aluno ele chamava a todos por Guerreiro. Não, não sei como ele chamava as meninas. Sei que aconteceu o inverso e muitos alunos como eu passaram a chamá-lo de Guerreiro também.
Eu só “usei” o Humberto na minha segunda passagem pelo Curso. Na primeira não sei, acho que bem metido, mais que na segunda, eu achava que não precisava. Na segunda vez me rendi, preciso de ajuda.
Ele me conhecia obviamente, mesmo que de vista, eu fazia muito curso lá, mas a conversa só fluiu quando descobrimos que amávamos tênis e éramos fãs do Roger Federer. Daí foi um passo para jogar tênis que ele sempre ganhava e da mutação ao meu olhar de dono do meu curso favorito para meu amigo.
Com a amizade vieram as conversas mais longas. Conselhos, enigmas, algo Mestre dos Magos. Ele raramente me falava diretamente o que eu queria saber, mas deixava no ar.
Contudo, um dia ele foi bem direto. Eu fazia muitas aulas à noite, já trabalhava, e saía um pouco antes do término da aula para aproveitar a carona do ônibus do condomínio dele. Eu morava no Recreio, ele na Barra. Estamos lá naquele trânsito colossal do Rio de Janeiro e eu reclamando na altura de São Conrado.
- Pois é Guerreiro, eu poderia ter passado na Receita Federal e encerrado já esse capítulo da minha vida. Não tive apoio, não tinha grana, vivia nervoso. Até na Biblioteca da Puc eu desmaiei. Enumerei um monte de culpados e concluí...
- Eu achando que tinha virado uma pagina da minha vida e na verdade o livro está no começo. Se eu tivesse tido ajuda...
Humberto dá uma pausa que me lembra a velocidade do ônibus, bem devagar, um suspiro um pouco maior. Parece procurar as palavras, não há os cristais para ajuda-lo, mas ele não precisa. De forma educada, mas incisiva, ele fala.
- Guerreiro! Foi você quem não passou na prova. Não foi mais ninguém.
O ônibus continua a “viagem” e eu e o Humberto entramos num silêncio profundo. A lentidão do trânsito me incomoda mais, a poltrona grande do ônibus de turismo subitamente me parece desconfortável e minha mão parece molhada, mesmo com aquele ar gelado.
Foi a última lição que o Guerreiro me deu, e foi a melhor de todas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Este texto não saiu como eu queria e na verdade nunca sairá. É impossível colocar em palavras o quanto sou agradecido ao Humberto pelas palavras, pela amizade e pela companhia mesmo que num pequeno período da minha vida. Se hoje acho uma besteira a cabeça que tinha na época, um endeusamento de concursos públicos, achar que quem passa é um gênio etc, tenho pra mim que me tornei melhor nesta caminhada e boa parte foi pelos conselhos e amizade do Guerreiro.
Em breve te darei um abraço meu amigo e agradecerei pessoalmente.