No sul os botões normalmente são escavados. Aqui também se valoriza o galalite, o verdadeiro.
Futebol de botão (mesa), memórias, divã, minha caminhada neste planeta. Compro botões antigos, tratar 51 98130 - 9227.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Salgema
Arrumei um no rio. Meu amigo tinha mais 6, mas é daqueles apegados, que leva pro além. Inclusive ele sacramentou que o botao é por causa da Salgema. Seu pai trabalhava no bndes e ganhou da empresa como um brinde.
brasileiro de dadinho
Leve e vamos pra mais
Confesso que fui sem nenhuma expectativa para o brasileiro de dadinho por várias razões (na realidade eu não queria ficar em último). Nos últimos 3 meses joguei umas 8 vezes no máximo (difícil conciliar as regras), no brasileiro do ano passado fui um dos últimos e na quinta feira brincando de jiu jitsu num bar no Rio me machuquei feio e na sexta mal andava.
Então, o meu resultado (fui pro mata mata da prata e saí na primeira) foi motivo de singela comemoração interior e a certeza que dá pra ir um pouco mais longe. Joguei bem leve, sem preocupação e acho que isso ajudou.
Gostei muito do campeonato. Achei o local muito bom, apesar de algumas reclamações entre o espaço das mesas. Para quem joga a brasileira como regra principal achei bem tranquilo esta questão de espaço. Contudo, faltou café, todo campeonato tem que ter café no local. Pra mim o ponto negativo mais forte.
As mesas pra quem transita entre as regras como eu sabe que são sempre a mesma coisa. Elas vão ser díspares e pra mim faz parte do bom botonista se adaptar a elas. Eu, por exemplo, tive tremenda dificuldade nas novas, nas antigas joguei bem melhor.
A organização achei muito boa. Não tenho nada a reclamar (somente do café), elogios aos montes, quem se mete na organização sempre perde boas colocações nos torneios. É muito cansativo.
Uma cena que me chamou a atenção foi de um rapaz que tinha um último chute contra o João Carlos Da Silva Nunes. Achei a cena muito parecida com a que vi no brasileiro de cavado quando um menino teve um último chute contra outro menino. Em ambos eles perderam, mas sem dúvida a emoção depois do lance foi espetacular. Mudamos de endereços e regras, mas não de sentimentos.
Por falar em regra achei interessante os estilos de jogo. Tem o da jogada programada, tem o da reza (passou,rezou e chutou), tem os que realmente chutam bem de longe, enfim, uma infinidade.
Ainda acho falha a questão de não ter juiz nos mata mata (nada a ver com meu jogo) e acho a regra meio obscura em alguns pontos. Mas, opinião de um iniciante.
Algumas pessoas me conheciam pelo face, leem as besteiras que escrevo, e vieram me cumprimentar. Pelo botonismo vamos fazendo amizades e conhecendo cidades pelo Brasil.
Aparte, tive um primo que morou em Juiz de Fora durante uns 10 anos e nunca fui visitá-lo. Isso que eu morava no Rio. Agora que moro em Porto Alegre encarei avião e carro para um campeonato de futebol de mesa. Espero que ele não leia isto.
Algo que me chamou bastante a atenção, é empírico porque não tenho os resultados, é como a média de gols diminui conforme as fases avançam. Emocional conta muito.
Tive excelentes companhias na viagem. Três pessoas que não tinha contato quase e que foram divertidíssimas na viagem mesmo com a minha ressaca de sexta e as dores no joelho e o Gustavo, amigo meu e que digo que foi o principal cara para colocar a regra no Rio Grande do Sul. Gustavo, não precisa mais me chamar de Senhor Fortes, pode ser Cocão já.
Enfim, vamos por mais, caminhando contra o vento e a favor.
Ah, o tal do torresmo é muito bom mesmo.
O texto tá uma zona, mas escrevi conforme me lembrei.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
A vida é um cadarço
Texto mais antigo. outro dia disseram que este blog é uma zona, olha, é por aí mesmo. É um blog de memórias, de um administrador concurseiro que está cursando história, de um futuro antiquário e assim vamos.
A VIDA É UM CADARÇO
Meu cadarço está invariavelmente desamarrado. Estou sempre abaixando para amarrá-lo e nesse curto intervalo de tempo em que dou o nó penso: minha vida é um cadarço desamarrado.
Por mais que eu tente, capriche, mude as técnicas, a postura, o jeito, ele vai desamarrar. Desamarrado ele me fará tropeçar; E assim caminho e tropeço, abaixo e penso, mas todo dia sei que terei de amarrar meu cadarço.
O cadarço é como a vida. Algumas pessoas, nas quais me incluo, estão sempre tentando dar o nó definitivo. Aquele que não desatará. Que não o fará mais abaixar, repensar e rememorar.
Outras pessoas caminham longos períodos com os mesmos nós. Suas vidas são sem percalços, uma função linear com poucas curvaturas. Existem ainda as pessoas que nem cadarço tem. Não querem emoções, alegrias ou tristezas. Querem o óbvio. Não querem iguarias, surpresas ou imprevistos. Querem o gosto conhecido. Uma maneira de viver morrendo ou de morrer vivendo.
Olho para meu cadarço com rabo de olho. Feio, lambuzado, com marcas, nós mal dados e pedaços faltando. Estou sempre num abaixar e levantar. Até o dia em que não levantarei mais. Cansarei disso. Deixarei assim, como aquelas doenças que não tratamos. Um dia ela aumenta, evolui e nos mata. Farei assim, não mais o amarrarei. Chega de decepções e de tropeços. Meu nó nunca será perfeito, pois a vida é imperfeita demais. Se eu souber que está desamarrado, tudo será mais fácil. Acabarei com o imprevisível.
É ele que nos mata. Vou para a turma dos sem cadarço. Não mais me curvarei, pois abaixar pressupõe poder levantar.
Tomo essa decisão amarrando meu cadarço. Desvio meu olhar e meus olhos vão ao encontro de uma criança. Reparo em seus pequeninos tênis também desamarrados e no sorriso do seu rosto. Ela tenta amarrar de forma atabalhoada e sorri para mim. Eu retribuo, olho para o cadarço e penso. Ainda posso levantar mais vezes.
Amigos
Amigos que vamos cultivando ao longo da vida. Foto de Teresópolis, há uns 15 anos. O saudoso pernil, confia em mim, não está mais entre nós.
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Ah, Há vida aos 40
Há vida aos 40
Os 40 são emblemáticos. Um ponto de inflexão que contemplamos quando temos nossos 15, 16, 21, 30.
Normalmente cremos que estaremos ricos. O sucesso financeiro é inevitável, basta caminhar até os 40. E além de ricos estaremos resolvidos, seja lá o que isso signifique.
Lembro que há muitos anos conversando com um colega do Santo Inácio, Gustavo Simões, manifestava meu inconformismo de faltarem incríveis dois anos para nos formarmos. A noção de tempo é algo que muda com a idade. Um ano letivo parecia uma eternidade nos meus tempos de colégio; hoje estamos em junho e eu penso que o ano novo foi ontem.
Não sei o quanto mudamos também. Outro dia numa dessas discussões de WhatsApp lembramos de um amigo tremendamente pão duro quando tinha seus 15 anos. Eu defendi a tese de que ele pode ter mudado, porém fui voto vencido. Meus amigos do grupo crêem que esta parte do caráter dele era irrevogável, estava formada e consolidada. Eu não acredito nisso. Evidente que não sei o quanto as pessoas mudam e isto é algo completamente pessoal, mas acredito em mudanças radicais para o bem e para o mal.
As vezes penso que pessoas tidas por mim como insuportáveis, enquanto mais novo, podem ser extremamente agradáveis hoje; sinceramente, não sei.
Este não sei é algo estranho também, meus 40 deveriam ter trazido uma sabedoria incontestável, pelo menos achava isto. E hoje vejo que minhas interrogações são maiores que antes. Não interrogações que perturbem meu sono, mas pequenas perguntas intermináveis cujas respostas sei que não acharei. Sou da linha que o Universo não é perfeito, não é uma equação matemática maravilhosa altamente complexa e interligada. Se o universo tem um milhão de acasos, eu também os tenho.
Acho engraçada a transição da idade. Em alguns lugares, taxi, uber, trabalho, começo a ser chamado de senhor. Olho para o espelho e me acho um jovem esplendoroso, mas o senhor está cada vez mais presente na minha vida. Senhor para cá, senhor para lá, e começo a me acostumar, não gosto, mas parece que os 40 trazem as marcas inexoráveis do tempo. Eu vejo cabelos brancos, uns kilos a mais, e um rosto de galã; parece que não.
Recordações, sim, já tenho muitas: Costumava perguntar para meu pai - como era na sua época, Pai? Assuntos diversos, futebol, colégio (estudamos no mesmo), Brasil, a cidade Rio de Janeiro, economia. Um dia, ele se virou para mim e disse.
- Minha época é agora.
Sim, ele deveria ser mais novo que eu quando eu fazia esta pergunta. E hoje, vejo que minha época é agora.
Não cabe colocar na vida pontos de inflexão, idades temerárias ou algo do tipo.
Vejam, não falo de um levar a vida de uma forma prosaica, excessivamente tranquila, sem planos, mas eis que estou quase no final de um texto que não planejei. Escrevi, sem pensar, refletindo apenas devagar e pondo palavras desajeitadas ao longo de um papel. Não tenho a menor ideia da onde quero chegar. Não planejei um final surpreendente, algo para chamar atenção, uma reviravolta súbita. Apenas escrevo como vivo, mais lentamente, sem planos de outrora de conquistar o mundo.
Tenho mais perguntas do que respostas, mas tenho ciência hoje que não existe um ponto definitivo, uma linha que separa o sucesso do fracasso.
Tenho 40, que venham os 50.
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Pai, é o novo Pelé?
Todos concordam que Pelé foi um grande jogador. Existem discussões se foi o melhor, se no período em que atuou era mais fácil, e até o fato de ter jogado para sempre no Brasil (desconsidero o Cosmos) denigre parte de sua carreira.
OK, considero todas as discussões válidas. Mas Pelé para mim significa muito mais que isso. Significa um projeto de nação.
Nasci em 1976. Começo a ter memórias do futebol em 82 como escrevi em outro texto, mas 86 é o marco em que começo a acompanhar a seleção. Um time de ressaca é como defino àquele escrete, ressaca de 82. Um bom time, muito melhor do que vários que tivemos, mas parece que era uma geração fadada à derrota. Pois bem, eu com meus dez anos começo a perguntar ao meu pai a cada bom jogador que surge:
- Pai, é o novo Pelé?
Lembro de um campeonato de aspirantes que a TV bandeirantes transmitia. A cada jogada mais elaborada, gol bonito, eu repetia a pergunta.
- Pai, é o novo Pelé?
E lembro de um jogo em que Elivélton, aquele atacante que caía pela esquerda no São Paulo e jogou muito bem um amistoso na seleção me fez vir com o questionamento de Juquinha de novo.
- Pai, é o novo Pelé?
Pois bem, agora, bem mais velho, surge a pergunta. O que eu queria dizer com isso?
Era apenas um jogador excepcional que eu queria ver surgindo novamente nos gramados brasileiros e que eu não tive a oportunidade de ver?
Não, claro que não.
Pelé pra mim é o que poderíamos ser e não somos. É o Brasil que deu certo. Ora, façam-me o favor os mimimi de plantão que já invocam manchas do passado, filhas não reconhecidas ou filho traficantes, casos amplamente divulgados pela mídia. Não trato disso aqui. Trato do que ele representou para o país. Uma nação vira lata em 50 passa a Rottweiler em 58. Um menino, sim, um menino de 17 anos mostra o caminho do sucesso. Suas vitórias, a raça, os gols nas duas finais que participou, o soco no ar, o revide da porrada (Uruguai 70), tudo isso transcende aquelas 4 linhas do gramado. É muito mais que isso.
Pelé surgiu na época em que este país crescia. Brasília, milagre econômico, saiu da faculdade tinha emprego. Por alguma razão naquela simplicidade de quando se é juvenil associei Pelé ao Brasil, ao crescimento, a uma nova era. Sim, pois se estou me delimitando no tempo aos anos 80 estamos tratando aqui da década perdida, do plano cruzado que fracassou (alguém lembra dos fiscais do Sarney? ). Estou falando do crescimento da violência e claro das copas perdidas de 82, 86 e 90.
Nos meus questionamentos da imaturidade o surgimento de um novo rei mataria as duas equações. Meus pensamentos estavam errados, mas não de todo. Um novo Pelé não irá automaticamente nos mostrar o caminho como nação. Mas, tenho certeza, sua excelência, sua gana pela vitória serão para sempre um balizador de como devemos ser nos mergulhos profissionais e pessoais que fazemos na vida.
Recentemente ele apareceu na TV. De cadeira de rodas, em nada lembra aquele que dava o soco no ar. O tempo é implacável para todos, mesmo para quem vai existir sem mais viver aqui.
Eu te agradeço em vida
“Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”, Nelson Rodrigues.
OK, considero todas as discussões válidas. Mas Pelé para mim significa muito mais que isso. Significa um projeto de nação.
Nasci em 1976. Começo a ter memórias do futebol em 82 como escrevi em outro texto, mas 86 é o marco em que começo a acompanhar a seleção. Um time de ressaca é como defino àquele escrete, ressaca de 82. Um bom time, muito melhor do que vários que tivemos, mas parece que era uma geração fadada à derrota. Pois bem, eu com meus dez anos começo a perguntar ao meu pai a cada bom jogador que surge:
- Pai, é o novo Pelé?
Lembro de um campeonato de aspirantes que a TV bandeirantes transmitia. A cada jogada mais elaborada, gol bonito, eu repetia a pergunta.
- Pai, é o novo Pelé?
E lembro de um jogo em que Elivélton, aquele atacante que caía pela esquerda no São Paulo e jogou muito bem um amistoso na seleção me fez vir com o questionamento de Juquinha de novo.
- Pai, é o novo Pelé?
Pois bem, agora, bem mais velho, surge a pergunta. O que eu queria dizer com isso?
Era apenas um jogador excepcional que eu queria ver surgindo novamente nos gramados brasileiros e que eu não tive a oportunidade de ver?
Não, claro que não.
Pelé pra mim é o que poderíamos ser e não somos. É o Brasil que deu certo. Ora, façam-me o favor os mimimi de plantão que já invocam manchas do passado, filhas não reconhecidas ou filho traficantes, casos amplamente divulgados pela mídia. Não trato disso aqui. Trato do que ele representou para o país. Uma nação vira lata em 50 passa a Rottweiler em 58. Um menino, sim, um menino de 17 anos mostra o caminho do sucesso. Suas vitórias, a raça, os gols nas duas finais que participou, o soco no ar, o revide da porrada (Uruguai 70), tudo isso transcende aquelas 4 linhas do gramado. É muito mais que isso.
Pelé surgiu na época em que este país crescia. Brasília, milagre econômico, saiu da faculdade tinha emprego. Por alguma razão naquela simplicidade de quando se é juvenil associei Pelé ao Brasil, ao crescimento, a uma nova era. Sim, pois se estou me delimitando no tempo aos anos 80 estamos tratando aqui da década perdida, do plano cruzado que fracassou (alguém lembra dos fiscais do Sarney? ). Estou falando do crescimento da violência e claro das copas perdidas de 82, 86 e 90.
Nos meus questionamentos da imaturidade o surgimento de um novo rei mataria as duas equações. Meus pensamentos estavam errados, mas não de todo. Um novo Pelé não irá automaticamente nos mostrar o caminho como nação. Mas, tenho certeza, sua excelência, sua gana pela vitória serão para sempre um balizador de como devemos ser nos mergulhos profissionais e pessoais que fazemos na vida.
Recentemente ele apareceu na TV. De cadeira de rodas, em nada lembra aquele que dava o soco no ar. O tempo é implacável para todos, mesmo para quem vai existir sem mais viver aqui.
Eu te agradeço em vida
“Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”, Nelson Rodrigues.
Praça XV
PRAÇA XV
Hoje me ofereceram um relógio em troca de um time de botão. Ora, eu não uso relógio há uns 10 anos. Claro, a pessoa não sabe disso. Foi educada, ofereceu, eu recusei, beleza. Uma tentativa rápida de escambo permitida pelas redes sociais, já que encontros não mais são necessários.
Porém, existem os chatos. Tem um que sempre diz que tem uma proposta irrecusável. Ora, se fosse irrecusável já teria negociado com alguém. Cara chatíssimo, esse se eu tiver que jogar um dia dou o WO. Não tem como jogar com uma figura dessas. Bloqueado nos dois perfis me achou no whats. Amaldiçoo quem deu meu contato.
O escambo antigamente era ao vivo. Muito mais interessante eu acho. Gosto de conversar, quando a pessoa tem conteúdo. Quando não tem eu mudo o assunto, e depois vou embora. Dizem que tenho déficit de atenção; Pode ser.
Meu pai costumava ir a Praça XV e me levava. Se eu soubesse que iria gostar tanto de botão ia chorar que nem um doido pra ele comprar naquela época. Eu achava um porre a Praça; Um calor senegalês e só coisa velha. Mas tinha preciosidades. Hoje, pelo que sei, a praça é cara, o calor continua, e está muito maior.
Meu pai gosta de escrever, como eu.
Neste pequeno texto abaixo ele conta sobre os achados na Praça XV. Quando havia algo lá para achar.
CELSO LARA BARBERIS
Comparecer nos sábados à feira de antiguidades da Praça XV qualifica o visitante a disputar o troféu "Cocar de Ouro". Programa de índio da mais alta categoria. A feira perdeu qualidade, tornou-se gigantesca no tamanho e proibitiva nos preços. Foi-se o tempo em que os membros da ACCCDPBS(Associação dos Compradores Compulsivos de Coisas Desprezadas pelas Pessoas de Bom Senso) para lá acorriam na expectativa de encontrar raridades irresistíveis, a preços convidativos. Ninguém mais faz referência à lenda urbana, propagada em tempos remotos, de que ali alguém teria comprado um belíssimo quadro de Di Cavalcanti pelo preço de um Eski-Bon.
Durante muito tempo integrei a associação dos compradores compulsivos, mesmo ciente de que estava perdendo tempo e contrariando a lógica. Achava que iria encontrar mais uma Parker 51, estalando de nova. Possivelmente na cor verde musgo, difícil de encontrar. Ou um punhado de Dinky Toys novos em folha, acondicionados em caixas originais. Uma coleção completa e encadernada da "Revista de Automóveis"...Tudo barato. Muito barato.
Pessoas com juízo sabem que nada mais disso acontece. Nos bons tempos, em que um número menor de barracas sofisticadas ficavam dispostas em volta do restaurante Albamar, fui agraciado com algumas compras realmente interessantes. A começar por um programa oficial do Circuito da Gávea de 1954, último realizado, vencido pelo Barão de Graffenried. Novinho. Um achado.
Destaque, também, para um Rolex Submariner. Alguém imagina encontrar hoje uma preciosidade dessas na Praça XV ? Pois eu encontrei. Na barraca de um senhor muito simpático e a um preço convidativo. Tomei coragem e perguntei se poderia pagar em três parcelas. O vendedor disse que sim. Me dei conta, no entanto, que só um maluco entregaria um Rolex em troca de três cheques assinados por um sujeito desconhecido.
Me antecipei às preocupações do vendedor e sugeri que levasse o relógio na segunda-feira seguinte ao meu trabalho, na Rua do Ouvidor. Isso foi feito. No dia aprazado, um terno azul marinho e uma porção de Gumex conferiram-me a devida credibilidade para concretizar o negócio.
Bem depois, descobri que a compra do relógio havia sido um negócio ainda mais proveitoso do que eu havia suposto. Meu Rolex era um "Red Submariner". Alguns dizeres que constam do seu mostrador estão gravados em letras vermelhas, ao invés das brancas usuais. Trata-se de uma raríssima variação, que mexe com a libido dos apreciadores da marca.
O ponto alto de minhas incursões à Praça XV ainda estava por acontecer. Anos mais tarde, num sábado nublado, estávamos eu e minha mulher empenhados em nossa pesquisa quando ela se aproximou de uma barraca a ser, a meu juízo, solenemente ignorada. Dezenas de xicrinhas, perinhas de prata, tacinhas de cristal, e por aí vai. "Coisa de viado...", diriam certamente meus amigos. Indócil para afastar a Beth daquele valhacouto de inutilidades, deparei-me com um prato bonitão, de prata, com algo incrustado no meio da peça.
O "algo dourado" era uma baratinha dos anos 50, semelhante a uma Maserati 250 F. Uma beleza.
Nervoso, peguei o prato e li o que estava nele gravado: "III 500 Quilômetros de Interlagos. Patrocínio da Metal Leve e Folha de São Paulo. 7 de setembro de 1960. Campeão".
Definitivamente tenso, dei-me conta de que havia encontrado, em plena Praça XV, o troféu ganho pelo vencedor da mais importante prova automobilística disputada no Brasil no ano de 1960. Quem seria ele? Camilo Christófaro? Chico Landi? Roberto Galucci? Celso Lara Barberis? Ciro Cayres? Caí na real e concluí que aquela era uma dúvida a ser esclarecida em casa. Importante, naquele momento, era comprar o troféu. O que faria se o dono da barraca me pedisse um preço absurdo, sabedor da preciosidade que tinha em mãos? "Quanto? 250 reais? Tô achando o preço um pouco pesado. Não dá para fazer por 150? 200? O.K., eu fico com ele". Negócio fechado, prato embrulhado, só aí me dei conta do olhar de impaciência da Beth, ávida por encontrar mais xicrinhas.
Cheguei em casa exultante. Procura daqui, pesquisa dali, mato a charada no excelente livro "Chico Landi de ponta a ponta", do meu amigo Paulo Scali. No capítulo que trata das proezas do grande Chico Landi no ano de 1960 consta: "Vice-campeão dos 500 Km de Interlagos"
O vencedor? Celso Lara Barberis.
Dúvida esclarecida, dediquei-me a pesquisar a carreira de Barberis. Recorri à "Revista Brasileira de Automóveis" e à Internet, especialmente o site do Jan Balder.
Celso nasceu em São Manuel, nas proximidades de Botucatu, em 28 de fevereiro de 1916. Filho do médico e fazendeiro de café Joaquim Orestes Barberis, italiano que chegou ao Brasil em 1914, e de Dona Maria Augusta Lara. Grande desportista, nadou e remou no Clube de Regatas Tietê e no Floresta. Campeão brasileiro no single skiff, foi convocado para representar o país nos jogos olímpicos de 1936. Uma intoxicação levou-o ao hospital e ele não pôde viajar.
Foi, também, um destemido lutador de boxe. Em 1949, julgando-se "velho" para remar, iniciou suas atividades automobilísticas. Primeiro, com um Alfa Romeo Sport. Depois, com um Cisitalia 1300, que comprou para disputar o campeonato paulista de 1952. Com esse carro venceu o Circuito da Quinta da Boa Vista na categoria "Sport-Adaptados até 1500 cc".
Destacou-se numa série de provas em Interlagos, guiando inicialmente uma Ferrari de 2 litros e, posteriormente, uma de 3000 cc. Venceu as "Duas Horas de Velocidade de São Paulo", chegando em segundo lugar na prova que comemorou o IV Centenário da cidade. Em 1957, disputou o "Triângulo Sul Americano", enfrentando de igual para igual adversários do porte de José Froilan Gonzalez. Participou em três ocasiões dos "1000 Kilômetros de Buenos Aires". Seu melhor resultado aconteceu em 1960. Um quarto lugar, conduzindo uma Maserati 300 S em dupla com Christian Heins. Vale registrar a concorrência: a prova foi vencida por Phil Hill e Cliff Allison. Em segundo lugar, chegaram Richie Ginther e Wolfgang von Trips. Em terceiro, Jo Bonnier e Graham Hill. Nada mal, não é mesmo?
Em 1957 o Automóvel Club de São Paulo resolveu comemorar os primeiros passos da indústria automobilística nacional e ao mesmo tempo saudar o 7 de setembro. Para isso promoveu os "500 Kilômetros de Interlagos", disputados nos 3.460 metros do anel externo do antigo e saudoso autódromo. Celso Lara Barberis venceu esta primeira edição, com Maserati - Corvette, depois da quebra de Ciro Cayres. Voltou a vencer os "500 Kilômetros" em 1960 e 1961, com Maserati 300 S e Maserati - Corvette, respectivamente.
Em 1963, seu projeto era correr essa prova em dupla com Chico Landi. O carro era um monoposto construído por Toni Bianco e Landi, equipado com motor JK 2000. A confiança na vitória era grande. Tanto assim que chegaram a combinar que Barberis daria a largada e Landi, possivelmente como vencedor, receberia a bandeira quadriculada.
Mas ainda na primeira volta, Barberis foi abalroado pela Maserati- Corvette de Amaral Junior, na curva que antecede o retão de Interlagos. Seu carro foi de encontro a um barranco, capotando várias vezes. O piloto foi projetado à distância, teve fratura de crânio e esmagamento de tórax. Ninguém teve dúvidas sobre a culpa de Amaral Junior no episódio. Ele nunca mais foi visto sequer nas proximidades de uma pista de corridas.
Estou sempre limpando e dando polimento no troféu do grande campeão. Faço mil conjecturas, mas não consigo imaginar de que maneira ele veio parar no Rio de Janeiro, na feira de antiguidades da Praça XV. Mariozinho de Oliveira, grande amigo de Barberis, vibrou com a minha aquisição. mas não teve como colaborar para a elucidação desse mistério.
Hoje me ofereceram um relógio em troca de um time de botão. Ora, eu não uso relógio há uns 10 anos. Claro, a pessoa não sabe disso. Foi educada, ofereceu, eu recusei, beleza. Uma tentativa rápida de escambo permitida pelas redes sociais, já que encontros não mais são necessários.
Porém, existem os chatos. Tem um que sempre diz que tem uma proposta irrecusável. Ora, se fosse irrecusável já teria negociado com alguém. Cara chatíssimo, esse se eu tiver que jogar um dia dou o WO. Não tem como jogar com uma figura dessas. Bloqueado nos dois perfis me achou no whats. Amaldiçoo quem deu meu contato.
O escambo antigamente era ao vivo. Muito mais interessante eu acho. Gosto de conversar, quando a pessoa tem conteúdo. Quando não tem eu mudo o assunto, e depois vou embora. Dizem que tenho déficit de atenção; Pode ser.
Meu pai costumava ir a Praça XV e me levava. Se eu soubesse que iria gostar tanto de botão ia chorar que nem um doido pra ele comprar naquela época. Eu achava um porre a Praça; Um calor senegalês e só coisa velha. Mas tinha preciosidades. Hoje, pelo que sei, a praça é cara, o calor continua, e está muito maior.
Meu pai gosta de escrever, como eu.
Neste pequeno texto abaixo ele conta sobre os achados na Praça XV. Quando havia algo lá para achar.
CELSO LARA BARBERIS
Comparecer nos sábados à feira de antiguidades da Praça XV qualifica o visitante a disputar o troféu "Cocar de Ouro". Programa de índio da mais alta categoria. A feira perdeu qualidade, tornou-se gigantesca no tamanho e proibitiva nos preços. Foi-se o tempo em que os membros da ACCCDPBS(Associação dos Compradores Compulsivos de Coisas Desprezadas pelas Pessoas de Bom Senso) para lá acorriam na expectativa de encontrar raridades irresistíveis, a preços convidativos. Ninguém mais faz referência à lenda urbana, propagada em tempos remotos, de que ali alguém teria comprado um belíssimo quadro de Di Cavalcanti pelo preço de um Eski-Bon.
Durante muito tempo integrei a associação dos compradores compulsivos, mesmo ciente de que estava perdendo tempo e contrariando a lógica. Achava que iria encontrar mais uma Parker 51, estalando de nova. Possivelmente na cor verde musgo, difícil de encontrar. Ou um punhado de Dinky Toys novos em folha, acondicionados em caixas originais. Uma coleção completa e encadernada da "Revista de Automóveis"...Tudo barato. Muito barato.
Pessoas com juízo sabem que nada mais disso acontece. Nos bons tempos, em que um número menor de barracas sofisticadas ficavam dispostas em volta do restaurante Albamar, fui agraciado com algumas compras realmente interessantes. A começar por um programa oficial do Circuito da Gávea de 1954, último realizado, vencido pelo Barão de Graffenried. Novinho. Um achado.
Destaque, também, para um Rolex Submariner. Alguém imagina encontrar hoje uma preciosidade dessas na Praça XV ? Pois eu encontrei. Na barraca de um senhor muito simpático e a um preço convidativo. Tomei coragem e perguntei se poderia pagar em três parcelas. O vendedor disse que sim. Me dei conta, no entanto, que só um maluco entregaria um Rolex em troca de três cheques assinados por um sujeito desconhecido.
Me antecipei às preocupações do vendedor e sugeri que levasse o relógio na segunda-feira seguinte ao meu trabalho, na Rua do Ouvidor. Isso foi feito. No dia aprazado, um terno azul marinho e uma porção de Gumex conferiram-me a devida credibilidade para concretizar o negócio.
Bem depois, descobri que a compra do relógio havia sido um negócio ainda mais proveitoso do que eu havia suposto. Meu Rolex era um "Red Submariner". Alguns dizeres que constam do seu mostrador estão gravados em letras vermelhas, ao invés das brancas usuais. Trata-se de uma raríssima variação, que mexe com a libido dos apreciadores da marca.
O ponto alto de minhas incursões à Praça XV ainda estava por acontecer. Anos mais tarde, num sábado nublado, estávamos eu e minha mulher empenhados em nossa pesquisa quando ela se aproximou de uma barraca a ser, a meu juízo, solenemente ignorada. Dezenas de xicrinhas, perinhas de prata, tacinhas de cristal, e por aí vai. "Coisa de viado...", diriam certamente meus amigos. Indócil para afastar a Beth daquele valhacouto de inutilidades, deparei-me com um prato bonitão, de prata, com algo incrustado no meio da peça.
O "algo dourado" era uma baratinha dos anos 50, semelhante a uma Maserati 250 F. Uma beleza.
Nervoso, peguei o prato e li o que estava nele gravado: "III 500 Quilômetros de Interlagos. Patrocínio da Metal Leve e Folha de São Paulo. 7 de setembro de 1960. Campeão".
Definitivamente tenso, dei-me conta de que havia encontrado, em plena Praça XV, o troféu ganho pelo vencedor da mais importante prova automobilística disputada no Brasil no ano de 1960. Quem seria ele? Camilo Christófaro? Chico Landi? Roberto Galucci? Celso Lara Barberis? Ciro Cayres? Caí na real e concluí que aquela era uma dúvida a ser esclarecida em casa. Importante, naquele momento, era comprar o troféu. O que faria se o dono da barraca me pedisse um preço absurdo, sabedor da preciosidade que tinha em mãos? "Quanto? 250 reais? Tô achando o preço um pouco pesado. Não dá para fazer por 150? 200? O.K., eu fico com ele". Negócio fechado, prato embrulhado, só aí me dei conta do olhar de impaciência da Beth, ávida por encontrar mais xicrinhas.
Cheguei em casa exultante. Procura daqui, pesquisa dali, mato a charada no excelente livro "Chico Landi de ponta a ponta", do meu amigo Paulo Scali. No capítulo que trata das proezas do grande Chico Landi no ano de 1960 consta: "Vice-campeão dos 500 Km de Interlagos"
O vencedor? Celso Lara Barberis.
Dúvida esclarecida, dediquei-me a pesquisar a carreira de Barberis. Recorri à "Revista Brasileira de Automóveis" e à Internet, especialmente o site do Jan Balder.
Celso nasceu em São Manuel, nas proximidades de Botucatu, em 28 de fevereiro de 1916. Filho do médico e fazendeiro de café Joaquim Orestes Barberis, italiano que chegou ao Brasil em 1914, e de Dona Maria Augusta Lara. Grande desportista, nadou e remou no Clube de Regatas Tietê e no Floresta. Campeão brasileiro no single skiff, foi convocado para representar o país nos jogos olímpicos de 1936. Uma intoxicação levou-o ao hospital e ele não pôde viajar.
Foi, também, um destemido lutador de boxe. Em 1949, julgando-se "velho" para remar, iniciou suas atividades automobilísticas. Primeiro, com um Alfa Romeo Sport. Depois, com um Cisitalia 1300, que comprou para disputar o campeonato paulista de 1952. Com esse carro venceu o Circuito da Quinta da Boa Vista na categoria "Sport-Adaptados até 1500 cc".
Destacou-se numa série de provas em Interlagos, guiando inicialmente uma Ferrari de 2 litros e, posteriormente, uma de 3000 cc. Venceu as "Duas Horas de Velocidade de São Paulo", chegando em segundo lugar na prova que comemorou o IV Centenário da cidade. Em 1957, disputou o "Triângulo Sul Americano", enfrentando de igual para igual adversários do porte de José Froilan Gonzalez. Participou em três ocasiões dos "1000 Kilômetros de Buenos Aires". Seu melhor resultado aconteceu em 1960. Um quarto lugar, conduzindo uma Maserati 300 S em dupla com Christian Heins. Vale registrar a concorrência: a prova foi vencida por Phil Hill e Cliff Allison. Em segundo lugar, chegaram Richie Ginther e Wolfgang von Trips. Em terceiro, Jo Bonnier e Graham Hill. Nada mal, não é mesmo?
Em 1957 o Automóvel Club de São Paulo resolveu comemorar os primeiros passos da indústria automobilística nacional e ao mesmo tempo saudar o 7 de setembro. Para isso promoveu os "500 Kilômetros de Interlagos", disputados nos 3.460 metros do anel externo do antigo e saudoso autódromo. Celso Lara Barberis venceu esta primeira edição, com Maserati - Corvette, depois da quebra de Ciro Cayres. Voltou a vencer os "500 Kilômetros" em 1960 e 1961, com Maserati 300 S e Maserati - Corvette, respectivamente.
Em 1963, seu projeto era correr essa prova em dupla com Chico Landi. O carro era um monoposto construído por Toni Bianco e Landi, equipado com motor JK 2000. A confiança na vitória era grande. Tanto assim que chegaram a combinar que Barberis daria a largada e Landi, possivelmente como vencedor, receberia a bandeira quadriculada.
Mas ainda na primeira volta, Barberis foi abalroado pela Maserati- Corvette de Amaral Junior, na curva que antecede o retão de Interlagos. Seu carro foi de encontro a um barranco, capotando várias vezes. O piloto foi projetado à distância, teve fratura de crânio e esmagamento de tórax. Ninguém teve dúvidas sobre a culpa de Amaral Junior no episódio. Ele nunca mais foi visto sequer nas proximidades de uma pista de corridas.
Estou sempre limpando e dando polimento no troféu do grande campeão. Faço mil conjecturas, mas não consigo imaginar de que maneira ele veio parar no Rio de Janeiro, na feira de antiguidades da Praça XV. Mariozinho de Oliveira, grande amigo de Barberis, vibrou com a minha aquisição. mas não teve como colaborar para a elucidação desse mistério.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Há um Rocky Balboa dentro de nós
Há um Rocky Balboa dentro de nós
Antes de ver o filme pensei, devo escrever algo sobre ele.
Planejei, comecei a escrever e nada. A grande verdade é que não saiu nada. Gostei do filme, retomei o passado, me lembrei de meus 6 anos de idade rebobinando a fita de vídeo cassete para ouvir a Adrian dizendo win Rocky, win, mas realmente não consegui escrever nada sobre o filme, pelo menos de imediato.
Hoje, depois de refletir um pouco, saiu algo, simples, mas digamos que sincero.
Rocky para mim foi um marco na infância. Claro que minhas concepções do filme mudaram com o tempo. Se antes eu via a luta como o principal, os treinos, a música, hoje vejo que a história de um homem querendo uma chance, lutando para se levantar mais uma vez e tendo dúvida sobre suas condições, seu potencial e seu lugar no mundo me soam muito mais familiares.
Rocky e suas inúmeras sequencias, e agora com o spin off Creed, é a história do se levantar. Sim, a vida de facebook todos nós sabemos que não existe, ou pelo menos deveríamos saber. Viagens, restaurantes, sorrisos constantes, isto é parte da nossa história, mas não somente. Inúmeras vezes a vida nos apunhala, dá reviravoltas e por vezes pensamos o que devemos fazer.
Aí entra a grande lição do filme.
One more round, disse o personagem no Rocky V.
A lição do filme, óbvia e linda, é essa. Mais um round. Lutar enquanto podemos, enquanto temos força, e continuar a caminhada mesmo que por vezes o caminho pareça extremamente nebuloso e sem sentido, injusto até.
Hoje mesmo tenho um amigo meu, daqueles quase irmão, que está passando por uma situação daquelas literalmente de nos deixar na lona. Um dia liguei para ele e pensei, não vou chorar, vou apenas dar força e dizer que estou ao lado dele mesmo que há 1.500 km.
Chorei.
Num outro dia, eu mais calmo, liguei para ele e foi ele que chorou. Cada um estava à sua maneira e guardadas as proporções na lona naquele dia. Ouvindo a contagem e ela se aproximando perigosamente do 10.
Mas, nós dois sabíamos que era passageiro e temos que nos levantar.
Em Creed 2 Rocky pergunta ao seu pupilo;
- Por que você luta?
Ele não sabe. Acha que sabe, mas não;
E aqui está, talvez, a grande lição desse filme. Saber as razões pelas quais caminhamos, tentamos e por que lutamos é tão importante quanto lutar.
Uma vez eu disse para uma tia minha, estou deixando a vida me levar.
Ela respondeu, ok, mas não deixa muito. E vejam, claro que não temos controle sobre muitas coisas que nos acontecem, e muitas coisas nos fazem totalmente perder a fé, mas esta passividade do deixa a vida me levar é das maiores idiotices que existem. Mesmo que muitas coisas estejam foram do nosso alcance sempre há um resquício que está, e aí devemos lutar como aquele lutador da Filadélfia que em algum momento teve a grande chance da vida dele. Temeu, treinou, duvidou e lutou.
E aproveitou.
One more round, Rocky.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Fluminense
Alguns dos botões que fui comprando ao longo dos anos. Fluminense é fácil de achar, então tenho muitos.
87 passos
87 PASSOS
Era uma criança daquelas silenciosas, mais introspectiva, sem tantos amigos. Porém, tinha uma alegria que supria qualquer lacuna sentimental.
Acordava e escovava os dentes correndo, já pensando nos passos. Eram 87, contados todos os dias, até a banca inscrição modelo B, número 45, quarta inspetoria, ou simplesmente a banca do seu Hugo. Um caminho feliz, com cumprimentos aos porteiros e abelhas verdes a minha volta.
Seu Hugo era um senhor baixo e de sorriso largo. Não tirava aquele sorriso do rosto. Sua banca, simples como ele, era o sustento de sua família. Não dava muito dinheiro, imagino, pois ficava numa rua de ricos e ricos não andam a pé. Acho que ricos nem gostam de banca e as assinaturas começavam a crescer.
Eu era rico, mas amava aquela banca. Meu primeiro contato com a leitura, hoje uma obsessão, foi com os quadrinhos. E o seu Hugo, longe de ser um entusiasta, sabia tudo que eu gostava, quais revistas saíram e os lançamentos que poderiam me interessar. Comecei com os quadrinhos chamados infantis. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tio Patinhas. Cresci e fui para os heróis. Homem Aranha e seus problemas existenciais, Batman, Super Homem e a solidão característica do ser diferente. E havia a conversa com meu amigo. Falávamos muito de futebol e política. Duas paixões em comum, numa época em que o Brasil se abria politicamente e não ganhava uma Copa há tempos. Aquela banca foi meu primeiro emprego também, durava meia hora no máximo, é verdade, mas era eu quem cuidava dela quando seu Hugo ia ao banheiro.
Com o tempo comecei a desviar os olhos dos quadrinhos para as mulheres peladas, mas faltava-me coragem para pedir pelas “revistas proibidas”. Seu Hugo, contudo, não era bobo.
- Coisa boa, né – mostrando a capa da revista.
- Sim – respondi completamente sem graça.
- Pode levar se quiser.
- Tem minha mãe...
- Compra o jornal e faz assim, oh...
Mostrou-me o óbvio. Colocar a Playboy dentro do jornal. E assim o fiz. Levei a Mara Maravilha para casa e me acabei. Ainda posei de garoto intelectualmente precoce, comprando o Jornal do Brasil, um jornal mais intelectual do que O Globo.
E assim os anos passaram. Eu nunca deixei de fazer os 87 passos. A frequência não era mais a mesma, é verdade, a caminhada ao encontro do meu amigo e das minhas fantasias deixou de ser diária, virou semanal, às vezes nem isso. Os estudos aumentaram, fiz amigos, ampliei meu mundo. Os passos aumentaram e começaram a ir para outras direções. O hábito diminuiu, contudo não morreu, até uma manhã de 1994.
Um dia cheguei à banca e ele não estava lá. Sua esposa o substituía, algo que acontecia com alguma frequência, mas acontecia, então não me preocupei. Uma semana depois, ao voltar à banca, a vi fechada. Isso nunca tinha acontecido e me preocupou. Voltei ao passado e o trajeto de novo virou minha rotina diária. Os 87 passos. Dessa vez de forma rápida, preocupada, não para comprar revistas, mas para ter notícias do meu amigo, meu primeiro amigo. Todos os dias esperava ver a banca reaberta e conversar com seu Hugo, como antes, sem pressa. Dar detalhes da minha vida e saber detalhes da dele.
Esse dia nunca chegou. A notícia, que de certa forma esperava, veio. Seu Hugo morreu. Um protagonista da minha vida, um amigo se foi. Nunca me despedi. Nunca disse um tchau. Nunca o agradeci pelas conversas e jamais disse que ele foi importante para mim. Nunca soube da vida dele na verdade, dos sonhos, tristezas e alegrias.
A banca ficou fechada por uns dois meses e reabriu. Com a mesma cara, mas sem aquele sorriso largo. Minhas idas diminuíram cada vez mais. Passei a assinar muita coisa, comecei a trabalhar, namorar e ter amigos. Cresci, casei e mudei. Minha mãe, contudo, nunca saiu da rua dos 87 passos.
Em um desses almoços familiares, resolvi visitar a banca, depois de muitos anos. O trajeto familiar, os porteiros alguns os mesmos, as abelhas verdes não mais. De longe já vejo a mudança. Lataria maior, a inscrição não mais existe, uma propaganda gigante ocupa a parte de trás da banca. Chego e vejo uma variedade de revistas enorme, geladeira, cigarros, balas. Os quadrinhos em um canto, escondidos. Entro constrangido, como que procurando seu Hugo, para uma última conversa. Quero contar a minha vida, quanto as coisas mudaram e como acabamos sempre no mesmo lugar. Como a criança não nos deixa. Pensamentos me dominam e meu olhar perdido dentro da banca talvez incomode o dono. Com um sotaque italiano me pergunta:
- O senhor está procurando alguma coisa?
- Sim, procuro, mas não está mais aqui.
Era uma criança daquelas silenciosas, mais introspectiva, sem tantos amigos. Porém, tinha uma alegria que supria qualquer lacuna sentimental.
Acordava e escovava os dentes correndo, já pensando nos passos. Eram 87, contados todos os dias, até a banca inscrição modelo B, número 45, quarta inspetoria, ou simplesmente a banca do seu Hugo. Um caminho feliz, com cumprimentos aos porteiros e abelhas verdes a minha volta.
Seu Hugo era um senhor baixo e de sorriso largo. Não tirava aquele sorriso do rosto. Sua banca, simples como ele, era o sustento de sua família. Não dava muito dinheiro, imagino, pois ficava numa rua de ricos e ricos não andam a pé. Acho que ricos nem gostam de banca e as assinaturas começavam a crescer.
Eu era rico, mas amava aquela banca. Meu primeiro contato com a leitura, hoje uma obsessão, foi com os quadrinhos. E o seu Hugo, longe de ser um entusiasta, sabia tudo que eu gostava, quais revistas saíram e os lançamentos que poderiam me interessar. Comecei com os quadrinhos chamados infantis. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tio Patinhas. Cresci e fui para os heróis. Homem Aranha e seus problemas existenciais, Batman, Super Homem e a solidão característica do ser diferente. E havia a conversa com meu amigo. Falávamos muito de futebol e política. Duas paixões em comum, numa época em que o Brasil se abria politicamente e não ganhava uma Copa há tempos. Aquela banca foi meu primeiro emprego também, durava meia hora no máximo, é verdade, mas era eu quem cuidava dela quando seu Hugo ia ao banheiro.
Com o tempo comecei a desviar os olhos dos quadrinhos para as mulheres peladas, mas faltava-me coragem para pedir pelas “revistas proibidas”. Seu Hugo, contudo, não era bobo.
- Coisa boa, né – mostrando a capa da revista.
- Sim – respondi completamente sem graça.
- Pode levar se quiser.
- Tem minha mãe...
- Compra o jornal e faz assim, oh...
Mostrou-me o óbvio. Colocar a Playboy dentro do jornal. E assim o fiz. Levei a Mara Maravilha para casa e me acabei. Ainda posei de garoto intelectualmente precoce, comprando o Jornal do Brasil, um jornal mais intelectual do que O Globo.
E assim os anos passaram. Eu nunca deixei de fazer os 87 passos. A frequência não era mais a mesma, é verdade, a caminhada ao encontro do meu amigo e das minhas fantasias deixou de ser diária, virou semanal, às vezes nem isso. Os estudos aumentaram, fiz amigos, ampliei meu mundo. Os passos aumentaram e começaram a ir para outras direções. O hábito diminuiu, contudo não morreu, até uma manhã de 1994.
Um dia cheguei à banca e ele não estava lá. Sua esposa o substituía, algo que acontecia com alguma frequência, mas acontecia, então não me preocupei. Uma semana depois, ao voltar à banca, a vi fechada. Isso nunca tinha acontecido e me preocupou. Voltei ao passado e o trajeto de novo virou minha rotina diária. Os 87 passos. Dessa vez de forma rápida, preocupada, não para comprar revistas, mas para ter notícias do meu amigo, meu primeiro amigo. Todos os dias esperava ver a banca reaberta e conversar com seu Hugo, como antes, sem pressa. Dar detalhes da minha vida e saber detalhes da dele.
Esse dia nunca chegou. A notícia, que de certa forma esperava, veio. Seu Hugo morreu. Um protagonista da minha vida, um amigo se foi. Nunca me despedi. Nunca disse um tchau. Nunca o agradeci pelas conversas e jamais disse que ele foi importante para mim. Nunca soube da vida dele na verdade, dos sonhos, tristezas e alegrias.
A banca ficou fechada por uns dois meses e reabriu. Com a mesma cara, mas sem aquele sorriso largo. Minhas idas diminuíram cada vez mais. Passei a assinar muita coisa, comecei a trabalhar, namorar e ter amigos. Cresci, casei e mudei. Minha mãe, contudo, nunca saiu da rua dos 87 passos.
Em um desses almoços familiares, resolvi visitar a banca, depois de muitos anos. O trajeto familiar, os porteiros alguns os mesmos, as abelhas verdes não mais. De longe já vejo a mudança. Lataria maior, a inscrição não mais existe, uma propaganda gigante ocupa a parte de trás da banca. Chego e vejo uma variedade de revistas enorme, geladeira, cigarros, balas. Os quadrinhos em um canto, escondidos. Entro constrangido, como que procurando seu Hugo, para uma última conversa. Quero contar a minha vida, quanto as coisas mudaram e como acabamos sempre no mesmo lugar. Como a criança não nos deixa. Pensamentos me dominam e meu olhar perdido dentro da banca talvez incomode o dono. Com um sotaque italiano me pergunta:
- O senhor está procurando alguma coisa?
- Sim, procuro, mas não está mais aqui.
Vai que cola.
Vai que cola
2002 – 2003
2002 – 2003
Resolvi fazer concurso depois de ser demitido do hospício onde trabalhava. Ainda soa meio estranho ser demitido de um hospício, mas foi o que ocorreu. Logo depois parecia que eu tinha arrumado um emprego, numa clínica de oncologia. Fiz uma entrevista e o dono disse que eu estava contratado, mas ainda iríamos apurar umas arestas. Fiz mais uma entrevista, depois mais uma, até que na quarta entrevista, num sábado pela manhã, ele não me recebeu. Fiquei lá esperando umas duas horas, fui dispensado pela secretária e depois nunca mais ele entrou em contato comigo.
Nunca soube o que aconteceu.
Depois da decepção a ideia de fazer concurso que já estava bem amadurecida foi enraizada de vez. Resolvi, vou fazer e não importa o que acontecer só paro quando passar.
Eu era bem metido. Estudei num colégio bom e fiz uma faculdade fraca, de administração. Quem estuda administração sabe que você vê tudo e não aprende nada. Foi assim comigo.
Mas, eu lia bastante e achei que isso era suficiente. Com dois meses de estudo no curso gabarito do Rio tendo visto algo de direito constitucional, administrativo e outras matérias fui fazer concurso pra CGU, Controladoria Geral da União.
- Pensei, vai que cola.
Era um sábado de sol daqueles terríveis do Rio de Janeiro - eu tinha um churrasco no mesmo dia me tentando -, contudo realmente acreditava que tinha chances no certame e meu "esforço" seria coroado. Sentei minha bunda naquela carteira apertada de estudantes de 12 anos de idade e abri a prova.
Não sabia fazer nenhuma questão. Nenhuma. Não sabia começar nenhuma questão. Eu lia chinês na minha frente.
Naquele dia a minha casa caiu e parte da minha empáfia sumiu, vi que teria que fazer diferente para ter sucesso.
Não digo que foi um processo natural, não comecei a estudar 10 horas no dia seguinte. Fui aos poucos adquirindo uma mentalidade de um tarado, de um possesso, de um sanguinário pelos estudos.
A adversidade é a melhor amiga nestas horas. Lembro que tinha conta no Unibanco e toda vez que ligava para o banco minha pressão subia, minha mão palpitava, suores escorriam e eu ouvia do outro lado da linha aquela voz metálica com uma dose de contento expressar as palavras:
- Seu saldo é mil reais negativo.
Fiquei dois anos nessa. Minha vida era acordar, tomar café e ir para a biblioteca estudar. Virei um tremendo de um chato, só falava de concurso, só queria saber de concursos, fiz mais de cem na vida. Brinco que sou o pior concurseiro da história, dado meu baixo aproveitamento. Não ligo para isso. Na verdade, até me orgulho, porque nunca desisti e depois de muitos insucessos consegui um, dois, mais uns dois ou três e vim parar onde estou.
2018
Cerca de 15 anos depois no mesmo dia do brasileiro de Caxias aparece uma prova de um dos únicos concursos que me interessa ainda. Não estudo mais, mas penso, nunca deixei de dar uma olhada na matéria, sei mais português, mais matemática e se eu der uma olhada na matéria...
- Vai que cola.
Em Caxias, véspera da prova, joguei, bebi, conversei, e os livros que havia levado na mochila permaneceram lá, na mochila. Na sexta pela manhã tomei o rumo de Criciúma para fazer o que era minha rotina há uns 15 anos, concurso.
Pois, meu avô já dizia, burro é o que faz a mesma merda duas vezes. Não digo que não sabia fazer nada da prova, fiquei em 372, mas sabia que o vai que cola não existe.
Não existe em nenhuma área, em nenhum trabalho, em nenhum concurso e em nenhum esporte.
Desconfio de forma extremamente forte dos que dizem que não treinam no futebol de mesa. Sim, finalmente cheguei aonde meus 6 leitores querem ler. Existem vários por aí com a ladainha, eu não treino, estou há seis meses sem jogar, vim para participar, e de repente estão lá, nas finais.
Quando vejo estes nas finais penso, será que tudo que aprendi ao longo destes anos é mentira então?
Desconfio de forma extremamente forte dos que dizem que não treinam no futebol de mesa. Sim, finalmente cheguei aonde meus 6 leitores querem ler. Existem vários por aí com a ladainha, eu não treino, estou há seis meses sem jogar, vim para participar, e de repente estão lá, nas finais.
Quando vejo estes nas finais penso, será que tudo que aprendi ao longo destes anos é mentira então?
Creio que não!
Pode ser que existam atalhos e talvez muitos de nós queremos nos reconhecer nestes atalhos, pois acreditamos que somos diferentes, melhores, iluminados. Eu não sou, em nenhum deles, nem nas provas, nem no futebol de mesa.
Caminhemos, portanto.
É o que todos dizem
É O QUE TODOS DIZEM
Quando estudei administração de empresas havia a cadeira recursos humanos. Depois, com a mudança do mundo para o politicamente correto passou a ser chamada de gestão de pessoas.
Eu detestei a matéria, não importa se RH ou gestão de pessoas. Acho uma besteirada só e não posso me alongar sobre os motivos, pois patrulhas há aos montes mesmo entre meus cinco leitores.
Sempre achei mais fácil o convívio com um pastor malinois do que com outros, mas nas dinâmicas de grupo eu mentia, claro, e dizia que adorava o trabalho em equipe.
Em uma delas me pediram para dizer com qual herói eu me identificava. Claro que se eu fosse o dono daquela empresa eu demitiria na hora a pessoa que planejou aquele processo de seleção, porém, desempregado, eu disse que queria ser o homem aranha.
A "doutora" do rh quis se alongar, saber por quê, e eu não podia falar que queria ser o homem aranha porque eu tinha uns 500 gibis dele e me identificava com o personagem, Só que não pelas razões corretas, por ele ser herói etc, mas sim porque ele era todo errado, devia dinheiro, enrolado nos estudos e outras coisas mais.
Bem, eu não fui selecionado para a empresa, nunca fui, acabou que fui trabalhar num hospício e sei, você está pensando na piadinha boba que eu era paciente.
Não, trabalhei na parte administrativa, seis meses somente.
Mas há uma história curiosa sobre minha primeira semana na clínica.
Eu era corredor na época, corria mole uns 15 kilometros, e voltava correndo da Gávea, onde era a clínica, até o Flamengo, meu bairro.
Primeira semana de trabalho, troco de roupa, deixo os sapatos lá, coloco a calça social na mochila e com meu short rosa me dirijo ao portão. Uma camiseta de metaleiro, sei lá;
Não falo nada e o segurança se dirige a mim.
- Onde o senhor está indo?
- Estou indo embora, eu trabalho aqui!
- É o que todos dizem!
E assim, em minha primeira semana na Clínica da Gávea fui impedido de sair pois fui tido como louco. E quer saber, prefiro loucos e malinois.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
O dois lances da vida
O dois lances da vida
Agenor tinha duas paixões na vida.
Futebol de mesa e mulheres.
Era um mulherengo inveterado. Já com seus quase 50 pensou que estava curado. Terceiro casamento, filhos pequenos, o chamado pai avô, tinha para si que agora mais experiente não faria as besteiras que destruíram os dois primeiros casamentos.
Com hábitos mais simples e sem as bebedeiras de longas noites de outrora, Agenor resolveu retomar sua paixão da infância e adolescência.
Com hábitos mais simples e sem as bebedeiras de longas noites de outrora, Agenor resolveu retomar sua paixão da infância e adolescência.
O futebol de mesa!
Não tardou e a habilidade do passado foi retomada. Sim, Agenor sempre foi craque. Jogava fácil, a régua uma extensão do corpo. Dizia que a tática do passado era a mesma do presente, bastava retomar “a mão” e a velha forma naturalmente iria aparecer.
Assim Foi! Agenor ganhava tudo e de todos, era completo, confiante, na categoria dele o maior do Brasil, dizia que era invencível. Quer dizer, havia um jogador que rivalizava com Agenor.
Modesto.
Modesto e Agenor eram opostos. Um falastrão, outro só falava quando respondia algo, um Lula, outro Bolsonaro. Agenor engraçado, daqueles que todas as mesas ouviam os berros, gritos de gols e sua fanfarronice, Modesto sempre quieto, fazia o gol e sua cara parecia transparecer um pedido de desculpas. Na verdade, seu rosto sempre tinha a mesma expressão, triste, podia levar 3 gols em um tempo e seu comportamento era o mesmo. Lembrava o Didi da copa de 58, pegava a bolinha e caminhava lentamente para dar a saída.
Conhecidos há mais de 30 anos nunca se cruzaram. Havia muitas histórias claro, botonistas são fofoqueiros, quase todos. Uns diziam que era mulher no passado, outros atribuíam às diferenças de temperamento e havia mais uma tese que remontava a um Brasileiro muito antigo no qual Modesto ganhou no último lance e gritou pela primeira e única vez.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
Dizem que era mentira, que ele jamais faria isso, mas é o que os mais antigos diziam.
Pouco importa. Essa rivalidade tem novo capítulo na Ilha do Boi, no brasileiro de 2017. Como esperado os dois fazem a final e o jogo é como todo jogo decisivo, truncado, meio nervoso, sem ninguém querendo expor muito.
Agenor joga pelo empate e sabe que Modesto não tem seu vasto repertório de jogadas, é só ficar tranquilo e comemorar.
O segundo tempo percorre como o primeiro, sem grandes emoções. Tapas, cavadas fáceis, Modesto só começa a apressar o jogo faltando 5 minutos. Numa dessas apressadas a régua escapa faltando um minuto e ele cede dois lances para Agenor.
O segundo tempo percorre como o primeiro, sem grandes emoções. Tapas, cavadas fáceis, Modesto só começa a apressar o jogo faltando 5 minutos. Numa dessas apressadas a régua escapa faltando um minuto e ele cede dois lances para Agenor.
Agenor pensa, pensa e fala baixo.
- Ora, vou fazer o óbvio, vou chutar para fora bem longe e que se foda.
Contudo, o ódio por Modesto falou mais alto.
- Eu nunca erro dois lances, vou humilhar esse filho da puta, gritar na cara, berrar é campeão bem alto.
O chute de corte sua especialidade. Régua firmada, envergada, só largar. Agenor só pensava no grito na cara de Modesto para encerrar em grande estilo o campeonato.
Solta o botão que bate na bola e ela por um golpe do destino bate no travessão e volta para o campo de Agenor. A partir daí, deste momento, Agenor não lembra de nada. Não lembra se arrumou o goleiro, não lembra do que fez.
Lembra apenas de um grito.
Lembra apenas de um grito.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
O invencível agora é um homem em pé sem sentidos, sem chão e tem apenas um caminho a percorrer com aquele grito ecoando até seu último fio de cabelo.
- Vou beber!!
Agenor não se assusta com o preço da Heineken na ilha do boi. Dez reais uma long neck;
- Quero 10 em caráter de urgência!
E ele começa a beber no sofá perto do grande salão onde deveria ter acontecido sua glória maior. O espaço outrora recheado de jogadores, de negociantes e familiares de todo o Brasil assume um ar cada vez mais decadente. Só quem vivenciou os torneios sabe a tristeza que dá olhar para um salão vazio depois de uma tempestade de jogos e emoções.
Agenor, já bêbado, resolve terminar sua bebedeira no triângulo das bermudas. Rapidamente se arruma com uma prostituta e acorda no dia seguinte com uma tremenda ressaca e 39 ligações perdidas.
Agenor, já bêbado, resolve terminar sua bebedeira no triângulo das bermudas. Rapidamente se arruma com uma prostituta e acorda no dia seguinte com uma tremenda ressaca e 39 ligações perdidas.
Depois de pegar o voo de volta pra casa num estado lastimável, as explicações pelo sumiço são urgentes.
Sua esposa o recebe furiosa e grita, esperneia, mas esperta que é pega o celular e vê a última corrida do UBER para o motel coelho feliz.
Sua esposa o recebe furiosa e grita, esperneia, mas esperta que é pega o celular e vê a última corrida do UBER para o motel coelho feliz.
Não tem explicação e Agenor nem tem condições de dar. Um fiapo de homem.
Brigas, choros e finalmente a condição para o casamento continuar foi largar o futebol de mesa. Agenor aceitou, nem pensou na verdade, o quarto casamento seria demais.
Desde aquele fatídico brasileiro parado hoje ele acompanha os jogos pela internet, quando toda vez sente uma lágrima escorrer pelo olho. Nem se dá ao trabalho de limpar tamanha é a dor que sente em não mais jogar. Ela desce bem devagar, sorrateiramente, percorrendo uma estrada cheia de curvas no corpo cansado de Agenor e se aloja no peito dele, que só então a enxuga.
E todas as vezes ele repete.
- Meu Deus, o que foi que eu fiz?! O que foi que eu fiz?!
Como comecei a jogar
Como comecei
De vez em quando me perguntam onde eu jogava no Rio de Janeiro. Respondo, eu não jogava. Minha retomada com o futebol de botão foi completamente por acaso. Havia me separado há pouco tempo e procurava o que fazer. Aulas de piano, xadrez, oficinas de escrita e eis que um dia, caminhando pela Rua Fernando Machado no centro de Porto Alegre me deparo com o Bazar Mimo, uma loja de botão.
As lembranças foram inevitáveis. No rio havia uma loja que eu frequentava, a adidas no Flamengo , que não existe há muitos anos. Desconhecia que ainda poderia existir uma loja de botão em tempos de celulares e vídeo games tão modernos, mas havia um foco de resistência.
Bobo que sou fiquei todo feliz. Não fui dos que mais jogou na infância, tampouco era colecionador, mas gostei de reviver aquele elo com meus tempos de criança. Óbvio que comprei alguns botões, nada a ver com nada, bolas da regra brasileira, gaúcha, botões grandes, pequenos, cavadores, uma salada.
Também na loja havia um cartaz de um pessoal que jogava a toque toque. Fiz contato e comecei a jogar com eles, um grupo bem louco, brigas memoráveis, mas tinha cerveja, salgadinho, havia umas estatísticas que eu figurava em último pra variar, enfim, bem legal.
Comecei a me “profissionalizar”, descobri que existe uma confederação, que o pessoal joga várias regras, que botão não tem nada de criança e saem brigas homéricas, enfim, revivi os tempos de criança e ampliei para um novo mundo, um hobby que virou uma paixão.
Ainda por cima, sendo um eterno forasteiro no sul foi através do botão que fiz amigos em Porto Alegre. Um grupo pra lá de especial, brigões como eu, politicamente incorretos ao extremo, amantes do álcool e acima de tudo grandes amigos.
O botão nos dá isso, amizades, hobby, gastos, lazer e acima de tudo momentos que mesmo nos anos distantes guardaremos.
As lembranças foram inevitáveis. No rio havia uma loja que eu frequentava, a adidas no Flamengo , que não existe há muitos anos. Desconhecia que ainda poderia existir uma loja de botão em tempos de celulares e vídeo games tão modernos, mas havia um foco de resistência.
Bobo que sou fiquei todo feliz. Não fui dos que mais jogou na infância, tampouco era colecionador, mas gostei de reviver aquele elo com meus tempos de criança. Óbvio que comprei alguns botões, nada a ver com nada, bolas da regra brasileira, gaúcha, botões grandes, pequenos, cavadores, uma salada.
Também na loja havia um cartaz de um pessoal que jogava a toque toque. Fiz contato e comecei a jogar com eles, um grupo bem louco, brigas memoráveis, mas tinha cerveja, salgadinho, havia umas estatísticas que eu figurava em último pra variar, enfim, bem legal.
Comecei a me “profissionalizar”, descobri que existe uma confederação, que o pessoal joga várias regras, que botão não tem nada de criança e saem brigas homéricas, enfim, revivi os tempos de criança e ampliei para um novo mundo, um hobby que virou uma paixão.
Ainda por cima, sendo um eterno forasteiro no sul foi através do botão que fiz amigos em Porto Alegre. Um grupo pra lá de especial, brigões como eu, politicamente incorretos ao extremo, amantes do álcool e acima de tudo grandes amigos.
O botão nos dá isso, amizades, hobby, gastos, lazer e acima de tudo momentos que mesmo nos anos distantes guardaremos.
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