Fracasso/s e o tempo
Já fiquei desempregado algumas vezes. A primeira foi quando fui demitido do Sebrae, empresa na qual eu era operador de telemarketing. Nesta não tive culpa, eles queriam reduzir salários, força de trabalho, não me recordo bem, sei que num belo dia me chamaram e disseram algo sobre insuficiência de desempenho etc. Junto comigo umas 40 pessoas foram mandadas embora.
Alguns anos depois fui demitido do hospício que trabalhei, a Clinica da Gávea. Aqui de fato tive uma parcela considerável de culpa. Eu realmente não gostava de trabalhar no local. Andava perto dos pacientes com um certo receio, havia um senhor que ficava o dia inteiro falando sobre a terceira guerra mundial, uma outra pedia cigarros o dia inteiro e ficava agressiva se não desse, um ambiente estranho.
Claro que havia os pacientes legais, mais calmos, um deles era o Sérgio xxxx. Sérgio era dos mais antigos lá, ele era liberado para andar por todos os locais. Todo dia ele ia na Administração da Clínica e pedia que eu fizesse um crachá para ele com seu nome e escrito - paciente -; Eu atendia o pedido do Sérgio, fazia o crachá, mas sabia o que aconteceria no dia seguinte.
No outro dia vinha o Sérgio bem cedo com o crachá rasgado, pois durante a noite ele refletia que pacientes não podiam ter chachá e ele o rasgava como um leão raivoso. A culpa do Sérgio não durava muito, lá pelo fim do expediente ele pedia que eu fizesse o bendito crachá novamente e eu nunca neguei, não sei se agi corretamente ou não.
Depois de algum tempo comecei a estudar para concursos, atravessava a cidade ( a Clínica era na Rocinha e meu curso, Gabarito, no Centro do Rio) e assim minha dedicação ao trabalho começou a decair cada vez mais.
Claro que um dia deu problema, meu chefe me chamou perto do Natal e eu apesar de achar que ele não seria "mau" ao ponto de me demitir às vésperas da festa natalina sentia que algo estranho estava no ar. Não deu outra, o anúncio foi rápido, eu senti um rápido desconforto e encerrei minha participação na Clínica.
Sei que em algum desses momentos entre um emprego e outro tive uma conversa daquelas profundas que somente dois bêbados fazem. Estávamos em frente a Prelude, uma boate famosa no Rio, e eu completamente embriagado reclamava dos meus fracassos, de ser um fracasso, e da falta de perspectivas na minha idade avançada de 25, 26 anos.
Foi aí que meu amigo Alexandre Araujo parou de fumar, pousou o copo de whisky em cima de algum carro (bebíamos em frente a boate para economizar) e disse com todas as letras como ele gosta de frisar.
- Cocão, meu amigo Cocão!!! Você somente será um fracasso se deixarem que o convençam que é um fracasso!!
Choramos é claro, bebemos mais e provavelmente zeramos na Prelude que era um antro de Patricinhas no Rio de Janeiro.
Mas, eu nunca mais achei que era um fracasso.
