O dia que fui demitido antes de ser contratado..... talvez pelo meu sobrenome
Quando fui demitido do hospício no qual trabalhava estava bem claro na minha cabeça que iria fazer concursos públicos.
Tinha começado a estudar já no final da minha experiência na Clínica, atravessava a Zona Sul do Rio da Rocinha até o Centro e estava começando a me acostumar com aquele universo que em breve acharia maravilhoso e desafiador.
Porém, logo depois da minha demissão surgiu um grilo falante pra me atormentar. Sei lá por que fui chamado para uma entrevista numa Clínica de Oncologia, na Tijuca.
Hesitei em ir, mas como tempo era o que me sobrava resolvi aceitar o convite.
Chegando lá fui bem recebido pelo dono da Clínica, um medico com nome de um ex presidente da CBF. Eu nunca me saí bem em entrevistas, mas havia uma afinidade entre nós, pois ambos havíamos estudado no Colégio Santo Inácio. A conversa fluiu e no final ele emendou que eu estava contratado.
Claro que fiquei surpreso, uma entrevista só e pronto, contratado por um cara que nunca ouvi falar na vida, e para uma área que não é o sonho de um hipocondríaco.
Pensei, minha temporada de concursos se encerrou, tudo bem, ainda estava na primeira marcha.
Ledo engano.
O meu ex futuro chefe me chamou para mais uma entrevista, eu supostamente empregado (sem formalizar) já seria apresentado ao trabalho. Lá fui eu ouvir todos os detalhes das minhas funções, como deveria me portar, os afazeres e tal. Nesta entrevista ele me passou o salário, quase o dobro do que eu ganhava, fiquei feliz e aguardando sacramentar nossa união felizes para sempre na CLT.
Houve, porém, uma terceira entrevista. Nesta estava o filho dele. Rapaz jovem, médico como o pai, cara de almofadinha, provavelmente lapidado pelo pai nos pensamentos e ambições. Seria mais um bate papo informal esta terceira entrevista, contudo acho, somente acho, que ocorreu um fato que mudou a minha trajetória de contratado pra demitido.
Papo vai, papo vem, o filho solta a pergunta com gosto de retórica.
- Então você é da família João Fortes né;
Explico: João Fortes é ou foi, já não sei mais, uma empresa muito tradicional no Rio no ramo de construção civil. Algumas vezes acharam que eu era da família quando na verdade não faço ideia de nada deles, a não ser que um deles foi Deputado Federal.
- Não, não, não tem nada a ver comigo.
Como disse não sei se esta resposta teve algum impacto. Sei que fui chamado ainda para uma quarta entrevista. Esta lembro bem, aqueles prédios de Copacabana de elevador apertado onde funcionava uma das filiais. Era um sábado ainda, eu de ressaca monstra me dirijo até lá pensando o que tanto querem me entrevistar.
Consultório cheio, chego por volta das 9 e fico no aguardo para minha última entrevista. Pego umas daquelas Revisas Caras deprimentes e folheio lentamente, esperando a chamada que nunca vem e nunca veio. Por volta das 11 a secretária me diz que o médico não me receberá, meu ex futuro chefe, já não gosto da palavra Doutor, quanto mais para este.
Pego o ônibus pra casa num dia ensolarado do Rio sabendo que o caminho me foi mostrado de forma indireta, com uma negativa sem palavras. Jamais soube se foi pelo meu sobrenome, se cometi alguma gafe em uma entrevista ou uma mera mudança de planos.
Simplesmente segui meu caminho depois, agora de forma definitiva.

































