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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Me bate Cocão, me bate

 Me bate Cocão, me Bate

Marcelo iria levar duas meninas para a minha casa para fazermos um “aquece” antes de irmos ao Rock in Rio Café, famosa boate dos anos 90, 2000 do Rio de Janeiro. Uma delas me interessava bastante, a Vivian. Vivian não era uma modelo, mas eu somente via beleza e charme nela. Nunca tinha tido a coragem ou oportunidade de abordá-la, mas àquele dia seria O DIA D.
Ansioso por recebê-la na minha casa, eu fiz tudo certo. Comprei algumas comidas básicas, batata rufles, amendoim, alguns queijos, salame, essas coisas. O principal, claro, eram as bebidas. Uma pequena discussão se deu entre mim e o Marcelo sobre qual a mais apropriada. Ele manda de forma educada.
- Compra batida do Oswaldo porra!!
Eu sempre fui duro e a batida do Oswaldo não era baratinha. Além de tudo era longe pra caramba, Flamengo minha casa, Barra Tijuca as batidas. Marcelo, incisivo, me convence.
- Quer impressionar ou não cabeção?
No dia combinado tudo estava perfeito. Meu apartamento, enorme, fruto do tempo passado de bonança do meu pai era um bom cartão de visitas. A comida não impressionava, mas não comprometia. Somente para forrar. O principal eram as bebidas e as batidas estavam lá, aos montes. Todos se embebedando naquele Rio de Janeiro irresponsável dos anos 90, inclusive eu. Ocorre que cometi um engano, na verdade dois.
A batida do Oswaldo era uma bebida demoníaca. Muito doce, o açúcar em excesso mascarava o teor alcóolico exacerbado. Experientes caminhariam devagar, como se estivessem num pântano cheio de areia movediça.
Eu não era experiente e me atirei.
Em casa já fiquei muito louco, mas procurava disfarçar. Porém, havia um terceiro elemento para se aproveitar da minha bebedeira.
Araujo é um dos meus melhores amigos. Bom papo, inteligente, parecia o Pagliuca da seleção italiana de Futebol. Se ele abre a boca ele domina o ambiente, e ele sempre abre. Eu cansei de avisar que o negócio estava armado, que eu brilharia com ela, e o Marcelo com a outra menina que não me recordo o nome.
- Tá certo Cocão, você acha que vou furar seu olho?
Depois de um aquece no qual eu fui o mais prejudicado, fomos para o Rock in Rio Café. Chegando lá emendei com outra bebida satânica, era uma mistura de Malibu com sei lá o quê; O que lembro é que na minha cabeça juvenil seria o gole de coragem para eu consumar meu casamento.
Naquele teor alcóolico em que eu poderia ser um dos protagonistas do filme “Se beber, não case” resolvo chegar na Vivian.
Eu já a imaginava cantando para mim na Boate:
Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério
Uh eu quero você
Como eu quero
Uh eu quero você
Como eu quero
Evidente que naquele pileque absurdo minha imaginação não se consumou e ela me deu um toco fenomenal. Que toco meus senhores, que toco. Com os sentimentos aflorados pela bebida ouvindo o sino tocar e o nocaute consumado, me recolho a um dos belos sofás do Rock in Rio Café para me recuperar de tamanha decepção.
Depois de algumas horas resolvo levantar, soldado bom não se esconde na trincheira; se não foi a Vivian outras irão querer o bom Cocão. Dirijo-me do segundo andar para o primeiro onde está a pista de dança, ambiente de batalha, e aí vejo a cena que encerra a minha triste noite.
“Como é que uma coisa assim machuca tanto
E toma conta de todo o meu ser
É uma saudade imensa que partiu meu coração
É a dor mais funda que a pessoa pode ter”
Araujo e Vivian se beijam como dois apaixonados, como uma novela das 8 dos saudosos anos 80. Beijos apaixonados, melados, abraços, afagos, que dor, que dor.
Um escuro deserto do céu se transforma a minha mente. Lágrimas descem e eu me sinto no final de o Último Americano Virgem. Não há mais nada a fazer; Pago minha conta, pego um táxi que sairá uma fortuna e pela madrugada adentro faço o trajeto Barra da Tijuca – Flamengo com lágrimas teimosas presas nas minhas sardas. Nunca mais falarei com aquele canalha do Araújo.
Aí eu me afogo num copo de cerveja
Que nela esteja minha solução
Então eu chego em casa todo dia embriagado
Vou enfrentar o quarto e dormir com a solidão
O nunca mais durou duas semanas. Fomos ao Rock in Rio Café novamente como era praxe no nosso grupo de amigos, mas eu não dirigi a palavra a ele. Ele insistia, tentava, se justificava e de fato estava certo. Eu cheguei muito mal, levei toco e ele foi naquela de amigo bonachão, um canalha, mas fazia parte do jogo.
Mesmo que no meu íntimo eu concordasse com ele, não daria o braço a torcer. Foi muito orgulho ferido, muita dor e muitas expectativas frustradas.
A lua inteira agora é um manto negro, ô-ô
O fim das vozes no meu rádio, ô-ô
São quatro ciclos no escuro deserto do céu
Na volta de um Rock In Rio bem diferente do que estávamos acostumados a larica da bebida me retorce o estômago. Começo a entoar o grito de guerra que fazíamos para o Marcelo, que sempre dirigia pois era o único que não bebia.
- OLIVEIRAAAAAAAAAAAAA!!!!OLIVEIRAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!
Oliveira era um famoso cachorro quente que ficava em frente ao Ballroom, outra boate dos anos 90 do Rio. Marcelo me deixa lá e Araujo salta também.
- Sai fora Araujo, não vou falar contigo nunca mais. Deixa eu comer sozinho!
Ele insiste, argumenta, mas rapidamente é absorvido pelo cachorro quente e lambuza o rosto com aquela maionese verde de orelha a orelha.
Depois daquele cachorro quente maravilhoso pego o primeiro táxi que encontro, mas como numa cena de filme sou seguido pelo Araujo. Salto na aristocrática Avenida Rui Barbosa, minha casa, e ele não desiste.
- Porra Cocão. Você vai matar a nossa amizade por uma menina? Nossa amizade de tantos anos? Tantas guerras?
- Quem matou foi você Araujo!!! Sai fora, vou pra casa dormir.
Acuado, sem convencer pelas palavras, inebriado por mais um porre dentre tantos Araujo dá sua última cartada. Os primeiros raios solares atravessam as árvores daquela Avenida cheia de ricos que não estão acostumados a gritos, esbórnia ou agitação. Os raios iluminam aquela figura folclórica e parecem lhe dar uma ideia, louca é verdade, mas uma última cartada, um blefe talvez.
- Tá bom Cocão. Você pediu!
Araujo caminha para o meio da Avenida que comporta tranquilamente 3 carros lado a lado. Penso que ele vai para a loja de conveniência do posto nos bons tempos que ele era 24 horas. Mas não, no meio da Avenida ele se deita e começa a gritar.
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu vejo aquela cena estupefato. Seria apenas bebida, um blefe juvenil, ou aquela amizade valia mesmo a linha tênue entre a vida e a morte? Até que ponto vamos por um amigo?
Os gritos chamam a atenção dos porteiros daquela avenida e alguns deles abandonam seus postos para conferir o que está acontecendo. Um deles, o Joel, amigo meu, me faz a inevitável pergunta.
- É seu amigo?
- Nunca vi na vida!!
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Vem um carro afastado, mas eu não pago para ver. Arrasto o Araujo para a calçada.
- Você me perdoa Cocão?
- Claro que não, vai pra casa porra!!!! Para de passar vergonha!!!
Chora, não vou ligar
Não vou ligar
Chegou a hora, vais me pagar
Pode chorar, pode chorar
Mas chora!
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Mas chora
Araujo retorna para a o meio da Avenida, mas eu penso, já fomos longe demais. Um pequeno grupo se forma, já com os primeiros moradores acordados, nos olham com desdém como se dissessem, quem são esses?
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu o arrasto dessa vez de forma definitiva, dou lhe um belo de um esporro e grito.
- Chega Araujo! Acabou! Vamos para nossas casas dormir.
- Você me perdoou então? Somos amigos novamente?
Eu sempre gostei de me fazer de difícil e disse que não. Na verdade era só charme, a bebedeira descendo ainda, a anestesia do acontecido, o sol da manhã tomando força na Avenida Rui Barbosa. Araujo lança mão de um último artifício.
- Tá bom Cocão. Toma então, me bate porra. Me bate!!!!!!!!!!
Ele me entrega o cinto e fico sem saber o que fazer. As figuras que acordaram cedo para caminhar no Aterro do Flamengo nos olham de soslaio. Joel, o meu amigo porteiro, ri escandalosamente. Uma certa expectativa é criada, aquela tensão de brigas de colégio que são repletas de juras de morte e pouca ação. Não posso me furtar....penso. Ergo o braço e consumo:
- Toma FDP, aprende a não roubar a mulher dos outros. Toma canalha!!!!
Foram poucas as chicotadas, mas foram como uma chuva de verão que refresca e limpa a cidade depois de um calor de 40 graus. Ao fim nos abraçamos chorando e finalmente tomamos o rumo de nossas casas. Eu, do lado da minha, caminho lentamente exaurido pela noite de idas e vindas e paro para observar a figura do meu amigo. O Araújo, mais longe da sua casa, caminha ainda mais pausadamente e se afasta de mim aos poucos. Quase na esquina olha para trás e se despede com aquele sorriso discreto e um aceno. Eu aceno de volta sabendo que retomei umas das coisas mais importantes das nossas vidas.
Que morram todos os meus amores, mas enlouquecerei se morrerem os meus amigos, pois não há nada mais precioso do que uma amizade verdadeira.
Vinicius de Moraes






domingo, 7 de fevereiro de 2021

Coaching e verdades

 Coaching, o melhor conselho que recebi na vida e meu amigo Humberto Guerreiro

Novembro de 2003, primeiro dia de aula no curso Gabarito, Rio de Janeiro. Eu, bem metido. entro numa sala lotada, mais de 100 alunos, para assistir Direito Constitucional com a Cristina Luna, famosa professora na época. Penso, será breve. Estudei no Colégio Santo Inácio, um dos melhores do Rio, tenho uma boa base, meus adversários não irão me acompanhar. Foi meu primeiro período de estudos.
.....
Março de 2007, meu retorno ao Curso Gabarito. Eu, bem metido, entro numa sala com 40 pessoas no máximo. Os cursos começam a sofrer a concorrência dos cursos on-line e a frequência despenca. Penso, será breve. Estudei muito durante dois anos, não passei na Receita Federal por uma questão, já estou num bom emprego e rapidamente lembrarei do que estudei. O sucesso é uma questão de tempo, curto claro. Foi meu segundo período de estudos.
.....
Onde eu aprendi a gostar de estudar foi no Curso Gabarito. Não foi um processo natural, estudar para vagabundo não é uma chave de ligar um carro. Fiz um bom Colégio que percebi inúmeras deficiências depois. Faculdade eu fiz Administração, sempre me alertaram que era um curso fraquíssimo, eu só acreditei depois. Não serve para nada!! Desculpas dadas, eu fui num crescente, tive o maior incentivo que uma pessoa poderia ter para estudar. Falta de grana. Duro como uma pedra alternava meus estudos na Biblioteca da PUC do Rio onde conseguia me concentrar e o curso Gabarito. Eu amava aquele curso. Amava porque sentia o objetivo claramente, sentia que aprendia, aprendi muito mais em dois anos que na Faculdade inteira. Gostava do estilo dos professores, xingamentos, palavrões aos montes, informalidade com conteúdo. Amava até o café preto que era horrível, o pior da minha vida, era um doping maravilhoso para quem precisava estudar. Até hoje tenho gastrite por causa daquele café.
O melhor do Gabarito, porém, não eram os professores, o café ou alguma metodologia de ensino maravilhosa. Era o Humberto.
Se hoje temos um Coaching em cada esquina, no Gabarito já existia o melhor coaching de todos os tempos. Humberto, ou Guerreiro para os íntimos. O dono do Curso.
Humberto tinha uma sala que o dia inteiro havia movimento.
Muitas reuniões, encontros com os professores, mas o principal era receber os alunos para conselhos, dicas ou coisas semelhantes.
Concurseiros são candidatos enormes a uma boa psicanálise. Não sei onde Humberto aprendeu, mas ele tem o dom. Educado, aquele moreno bem moreno magrinho, de camisa invariavelmente branca e sorriso largo dizia poucas palavras, mas precisas. Antes de cada palavra ele mexia em uns cristais na sua mesa, parecia que formulava o que ia dizer. Não eram dicas, caminhos para passar, era um algo a mais que não sei cravar, mas se fosse arriscar diria que Humberto falava da vida, usava metáforas, apontava caminhos a trilhar sem dizer exatamente como, mas deixava a entender numa frase não dita:
- O caminho está lá Guerreiro, quer percorrer?
Bom tempo depois descobri por que ele chamava a todos de Guerreiro. Como o curso tinha muito movimento, muita gente diferente, para não parecer mal educado por ter esquecido o nome de algum aluno ele chamava a todos por Guerreiro. Não, não sei como ele chamava as meninas. Sei que aconteceu o inverso e muitos alunos como eu passaram a chamá-lo de Guerreiro também.
Eu só “usei” o Humberto na minha segunda passagem pelo Curso. Na primeira não sei, acho que bem metido, mais que na segunda, eu achava que não precisava. Na segunda vez me rendi, preciso de ajuda.
Ele me conhecia obviamente, mesmo que de vista, eu fazia muito curso lá, mas a conversa só fluiu quando descobrimos que amávamos tênis e éramos fãs do Roger Federer. Daí foi um passo para jogar tênis que ele sempre ganhava e da mutação ao meu olhar de dono do meu curso favorito para meu amigo.
Com a amizade vieram as conversas mais longas. Conselhos, enigmas, algo Mestre dos Magos. Ele raramente me falava diretamente o que eu queria saber, mas deixava no ar.
Contudo, um dia ele foi bem direto. Eu fazia muitas aulas à noite, já trabalhava, e saía um pouco antes do término da aula para aproveitar a carona do ônibus do condomínio dele. Eu morava no Recreio, ele na Barra. Estamos lá naquele trânsito colossal do Rio de Janeiro e eu reclamando na altura de São Conrado.
- Pois é Guerreiro, eu poderia ter passado na Receita Federal e encerrado já esse capítulo da minha vida. Não tive apoio, não tinha grana, vivia nervoso. Até na Biblioteca da Puc eu desmaiei. Enumerei um monte de culpados e concluí...
- Eu achando que tinha virado uma pagina da minha vida e na verdade o livro está no começo. Se eu tivesse tido ajuda...
Humberto dá uma pausa que me lembra a velocidade do ônibus, bem devagar, um suspiro um pouco maior. Parece procurar as palavras, não há os cristais para ajuda-lo, mas ele não precisa. De forma educada, mas incisiva, ele fala.
- Guerreiro! Foi você quem não passou na prova. Não foi mais ninguém.
O ônibus continua a “viagem” e eu e o Humberto entramos num silêncio profundo. A lentidão do trânsito me incomoda mais, a poltrona grande do ônibus de turismo subitamente me parece desconfortável e minha mão parece molhada, mesmo com aquele ar gelado.
Foi a última lição que o Guerreiro me deu, e foi a melhor de todas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Este texto não saiu como eu queria e na verdade nunca sairá. É impossível colocar em palavras o quanto sou agradecido ao Humberto pelas palavras, pela amizade e pela companhia mesmo que num pequeno período da minha vida. Se hoje acho uma besteira a cabeça que tinha na época, um endeusamento de concursos públicos, achar que quem passa é um gênio etc, tenho pra mim que me tornei melhor nesta caminhada e boa parte foi pelos conselhos e amizade do Guerreiro.
Em breve te darei um abraço meu amigo e agradecerei pessoalmente.





quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eu estou aqui

 Eu estou aqui

Há muitos anos fui numa festa de um ex namorado da minha irmã. Mesmo já tendo acabado com ela fez questão de me chamar e mais alguns amigos meus, gostava de mim ou queria um revival, não sei.
Ele era bem rico e resolveu fazer um festão numa casa no Joá. Comida e bebida da melhor qualidade liberadas, DJ, Blitz era a banda, casa espetacular e centenas de convidados. De fato eu me diverti, bebi bem, mas não o suficiente para não reparar que o aniversariante e atração principal do evento parecia deslocado na sua própria festa. Várias vezes dirigi meus olhos a ele e reparei que ele caminhava sozinho, sorriso amarelado, imagino que mais da metade dos “amigos” dele naquele evento ele não deveria ter nenhum contato. Claro, foi uma impressão, mas me deu pena, achei a solidão na multidão que todos nós já sentimos.
Esta solidão me lembrou de uma história que me avô contava. Seu sobrinho, meu primo de segundo grau, não passava no Vestibular. Rapaz inteligente, estudou em um dos melhores colégios do Rio, provavelmente o melhor. Estava mais do que preparado, mas quando indagado sobre as razões de não passar ele respondeu;
- Eu me sinto só na prova.
Sim, uma alegação muito pouco convencional. A prova era feita no Maracanã quando o estádio não era esse pigmeu que o transformaram. Era um estádio para 200 mil pessoas, para multidões e claro que se no Vestibular o número era muito menor por razões óbvias ainda assim era muita gente.
- Sim, eu sei que tem muita gente, mas não conheço ninguém, não adianta. Eu me sinto só.
Paulo Fortes, meu avô, pensou:
“Preciso ajudá-lo. Sobrinho e também afilhado, algo preciso fazer, mas o quê?”
A ideia foi pouco convencional, mas era uma bela tentativa. Meu avô tinha como um dos seus grandes amigos Joacir Ribeiro, um dos responsáveis pelo som do Maracanã. Não hesitou.
- Joacir, preciso de um grande favor seu. Meio esquisito, mas é pra minha família, por família fazemos tudo.
- Não sei o que é Paulinho, mas se é pedido seu já tá feito.
Joacir estranhou claro quando soube, não era tão trivial, mas deu seu jeito. Existem amizades que fazemos qualquer coisa um pelo outro.
Foi a primeira vez que meu avô pisou no gramado. Ele que assistiu a final da copa de 50 e chorou, que viu seu América tantas vezes fazê-lo sofrer agora ia ao estádio não na condição de torcedor, jogador ou algo ligado ao Futebol.
Do alto dos seus 140 kilos, mas ainda jovem, caminha lentamente para o centro do gramado. As lembranças são inevitáveis. O gol de Ghiggia na final, os feitos de Pelé e seu preferido Garrincha. O palco sem dúvida é propício para uma ária, nunca cantou para tanta gente. A multidão absorta em suas provas e sonhos estranha aquela figura, mas tempo é algo que eles não tem naquele Vestibular tão difícil e retomam rápido para suas questões e problemas.
Meu avó ciente do que foi fazer apenas levanta o braço naquele corpo avantajado que o estádio enorme torna pequeno. Na voz mais baixa que já saiu daquele vozeirão ele fala:
- Eu estou aqui!
- Eu estou aqui!
“Haverá além da noite silenciosa, um dia eterno? Será sua morte uma porta que leva à luz? Isso nós jamais saberemos”.





verdade e mentira

 Verdades e Mentiras

O melhor capítulo da história das novelas é o do Beato Salu ressuscitando em Roque Santeiro. Em rapidíssima síntese, Padre Albano resolve revelar que Roque Santeiro nunca foi santo e que ele está vivo - a população de Asa Branca acredita que ele está morto há 17 anos.
Mas, Beato Salu ressuscita, a população enlouquece e Padre Albano percebe que a mentira é maior que a verdade. O capitulo termina com a Viúva Porcina perguntando para Roque?
- Tem coragem de dizer a verdade pra eles (a população); Diga homem, tem coragem?
- Não, não tenho, responde Roque e a música fantástica de Sá e Guarabyra entra em cena. Sem dúvidas o melhor capítulo de todos os tempos.
Esta pequena introdução é para mostrar que toda história tem dois lados. O óbvio, mas esquecido constantemente.
Recentemente fiquei sabendo de uma história no Futebol de Mesa nacional e pensei, que absurdo!!!! Que lástima!!! Que atraso!!!
Porém, meus cabelos brancos me permitem não tomar conclusões apressadas. Pensei, tem algo errado aí.
De imediato procuro não me envolver, deixa pra lá, não é contigo.
Ocorre que o assunto está lá, do seu lado, sussurrando, te chamando. Até que cedo a tentação e procuro saber o outro lado da história de uma das poucas pessoas que considero amigo no Futebol de Mesa.
Não dá outra. A música de Sá e Guarabyra retoma na minha mente:
Às vezes é sua inimiga a verdade
Às vezes é sua aliada a mentira
Aquilo que a vida nos dá e nos tira
Não anda de braços com a sinceridade
Por onde será que é mais curto o caminho
Qual deles mais sobe
Qual deles mais desce
Eu teria feito a mesma coisa. Quase me desculpo ao final da ligação por tê-lo julgado, nem que tenha sido por um átimo de segundo. Mas não, não o faço. Apenas penso, como são as coisas, como somos julgados, como há maquiavelismo no mundo.
Outro dia fui chamado de psicopata no Facebook. Pensei, que maravilhoso psicopata sou eu. Doei mais de dez times para um rapaz com filho doente, mandei times para crianças carentes na Paraíba, fiz doações em dinheiro para um menino que nasceu com algumas limitações indicado por um amigo meu, mas querem saber!? Serei sempre julgado pelos meus erros, pelo que deixei de fazer.
Serei julgado como esse meu amigo que nesse imbróglio do Futebol de Mesa se aborreceu em dois meses mais que em 2, 3 anos. Sua situação me lembra uma fala famosa dos quadrinhos de um personagem que só percebe a roubada que se meteu depois de vários desdobramentos. Ele repete para si ao final da história.
- Meu Deus, o que eu fiz! O que eu fiz!
E assim meu amigo deve ter percebido o passo em falso que fez em acreditar em algumas pessoas que havia intenções boas. Repete a frase todo dia ao amanhecer, fazendo sua barba.
- Meu Deus, o que eu fiz! O que eu fiz!
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Fiquei sabendo que sou odiado por um determinado grupo de pessoas no Futebol de Mesa.
Completamente inebriado de tamanha emoção primeiramente quero agradecer ao meu pai e a minha mãe por terem me gerado. Ao meu colégio que me ensinou a escrever e a não ficar postando somente textos com duas palavras no Instagram. A barriga trincada realmente não consigo postar, mas mesmo que a tivesse não postaria por ser patético.
Os que me criticam são incapazes de escrever duas linhas.
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Tenho certeza que de Jaguarão a Porto Alegre serei aceito em qualquer Associação. Jamais receberei uma bola preta, um não dito seco e com voz maquiavélica. Cara afável, joga mal, negocia muito e bebe bem. O sonho de qualquer Associação. Bola preta me lembra o clube de golfe do Rio, deve ser dada somente para pouquíssimas pessoas que realmente são muito problemáticas.
Ok, tem umas duas Associações que não me aceitam, mas jamais vão ganhar nem par ou ímpar.
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A pessoa que devemos ter mais cuidado é com o afável. O afável tem sorriso branco de propaganda da Colgate. Ele te dá dois tapas no ombro, fala mansa, comedido, parece mediador de debates políticos da eleição de 1989. Ele é um crápula; Cuidado.
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Feliz Ano Novo!!! Gratidão!!!




domingo, 3 de janeiro de 2021

Copa de 1986

 Um time da Brianezi que me lembra a primeira Copa que vi, a de 1986. 


Lembro bem dos jogos e eu chorando quando o Brasil perdeu nos penalties. 


É, tem tempo. 





Mais gaúchos

 Estes botões acredito que foram feitos pelo Paulo Villanova, artesão de Guaíba, uma cidade ao lado de Porto Alegre. 


Parece galalite, mas acho que temos os dois materiais neles, com exceção do Corinthians que é todo acrílico. 






sábado, 2 de janeiro de 2021

olhões

Bonitos e com material que não encontramos mais por aí. 


Um parece que é do encantado, outro bertisa, mas sinceramente até hoje não sei reconhecer bem. 




segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

CCCP

 Uma União Soviética para jogar a minha regra favorita, a brasileira liso. Feita pelo Walter da Bahia, artesão fantástico. 







sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Burrices

 As Grandes burrices, besteiras etc que já passaram pela minha linha do tempo sobre futebol

- Ronaldinho Gaúcho maior que Pelé;
Essa eu considero imbatível, me parece uma relação Capitu e Bentinho ou daquele filme, O último americano virgem. Alguns, pouquíssimos, entenderão;
Qualquer pessoa que acompanha a seleção sabe que até o Mauro Silva jogou mais que o Ronaldinho na seleção. Os defensores do Ronaldinho irão falar do jogo com a Inglaterra, só lembram desse claro.
- Messi maior que Maradona
Essa eu teria um trabalho pra comentar, falar de lei Bosman etc, mas na realidade eu me recuso, é o ápice do analfabetismo no futebol
Tem várias outras que aos poucos eu vou soltando, precisamos combater estes iconoclastas agora antes que as futuras gerações acreditem.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Os micro

 

Eu não curto estes botões, sempre acho que vou deixar cair no chão e eles vão se arrebentar, mas valem como moeda de troca. 



Paraguai Brianezi


 A foto tá bem ruim, mas o time é lindo. A lembrança é sempre o Paraguai entregando os jogos. 

Homem Aranha

 O dia no qual fui o Homem Aranha

- E você Fabio, com qual herói se identifica?
Perto de me formar eu tinha um razoável problema pela frente:
Estava desempregado.
Escolhas erradas, um certo comodismo, não tão novo para estágios e trainees. Um somatório disso com alguma crise econômica e pronto, estava sem nada.
A linha temporal de um jovem antes dos 30 é diferente. Eu me sentia desesperado por estar sem fazer porra nenhuma, meu horizonte de tempo era 6 meses. Preciso arrumar algo, pensava.
Antigamente, não sei como é hoje, enviávamos Currículos em Word, preenchimento de sites e coisas do tipo.
O que aparecia eu caía dentro. Marketing? Sou um gênio! Finanças? Warren Buffet tupiniquim ao seu dispor. Logística? Não sei do que se trata, mas todos mentem em CV.
E pronto, mandava para as empresas, preenchia os sites e era chamado. Sim, meu currículo não era dos piores, colégio bom, faculdade razoável, inglês de curso que eu mentia colocando avançado. Informática eu sempre fui uma besta, mas quase não havia testes. Intermediário, gratidão.
Fiz muitos testes. Muitos. Quem já fez conhece o roteiro. Raciocínio lógico, dinâmica de grupo, entrevista, gollllllllllllll!!!
Eu era eliminado nas dinâmicas. Ok, como um ex colega me disse, eu entro nos campeonatos mudo e saio calado. Claro que não sou abestado e sei que devo falar numa dinâmica. Sei que devo estufar o peito, fazer voz de barítono, mostrar companheirismo, dar boas ideias, me vestir bem. Ora, quase impossível para mim.
Mas, um dia surgiu a oportunidade. Para variar eu tinha passado nos testes de Raciocínio e agora era uma dinâmica de grupo no Hotel Guanabara no Rio de Janeiro. A empresa, Votorantim.
Na dinâmica de grupo para variar fiquei mais quieto, perdi pontos como um calouro desajeitado do Silvio Santos. Acho que não tinha o “time” para falar, mas beleza, naquele dia teria uma segunda chance.
As “brilhantes” funcionárias do RH da Votorantim montam um quadro negro, branco na verdade, e colocam várias fotos de super heróis.
Uma delas diz.
- Você deve arrancar a foto do personagem que se identifica e dizer os motivos.
Perfeito. Meu lado nerd de quadrinhos iria brilhar.
- Posso começar?
- Claro Fabio. Com qual herói você se identifica?
Eu escolho o Homem Aranha por algumas razões. Ele é o anti-herói. Jamais terá a onipotência de um Super Homem ou a sabedoria de um Thor. Homem Aranha é o frágil “herói” que por uma omissão matou seu tio. É aquele que vive na eterna dicotomia, estudos ou trabalho? Casar ou manter uma identidade secreta? Sua vida é cercada por uma sombra, a da mentira, pois mente para sua Tia May com quem mora sua identidade. Homem Aranha é cada um de nós, humanos, uma grande projeto repleto de ideais, mas nunca plenamente certos que nossos passos caminham para a terra sagrada. Um herói, um engodo, alguém que necessita de
um abraço
e que reconstrói seus passos todos os dias.
Pausa grande.... Eu, orgulhoso, quase excitado.
Todos me olham com profunda admiração. Tanta poesia, tanta verdade, que comparação maravilhosa. Eu me senti o Homem Aranha e já me via lançando minhas teias para a Votorantim, em algum lugar do Brasil como Trainee.
Nunca fui chamado.