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segunda-feira, 24 de maio de 2021

Descanse meu amigo Guerreiro

 

Certa vez em uma oficina de escrita criativa o Professor indagou os motivos de por que escrevemos.

 

Um colega meu de sala se saiu com esta:

 

“Escrevemos para viver”

 

Meu colega estava certo. Escrever é um ato de auto analise, elaboração e revisitas ao passado para aparar arestas.

 

Há algum tempo escrevi sobre meu amigo Humberto Guerreiro, um grande amigo que tive no meu período de estudos para concurso.

 

Eu sabia que a situação dele era muito difícil, um câncer agressivo, mas tinha esperanças de encontra-lo para uma despedida.

 

Não foi possível e Humberto Guerreiro faleceu hoje.

 

Quando estudei para concursos meu maior incentivador não foi um amigo,  muito menos um parente. Foi um rapaz magro e humilde com uma bonita história de vida e que fará muita falta aqui.





 

Vá em paz Guerreiro.

domingo, 2 de maio de 2021

um gaúcho

Mais um

botão gaucho

Muito antigo, desconheço o material.

Rio de Janeiro

No dia do trabalho uma cena triste que uma grande amigo me enviou ontem, o Centro do Rio de Janeiro sexta feiras, por volta das 17 horas. 

Em 2019 voltando do brasileiro de Juiz de Fora de dadinho me assustei com o Centro, uma decadência total, tudo bem que era um domingo, mas mesmo assim eu que trabalhei vários domingos quando fui operador de telemarketing sempre soube que era uma região esquisita nesse dia, mas não um cruzamento de filme de zumbis com Mad Max como presenciei.

A pandemia parece que foi o nocaute final de um processo de decadência que tem tempos. Por exemplo, quando eu trabalhei na Petrobras a empresa tinha uns 10 prédios no Centro por baixo e com aquele horário fordiano de almoço da empresa aquela manada de petroleiros empurravam a economia de restaurantes, cafés e outros comércios. Hoje sei que a empresa está num processo de esvaziamento de pessoal, é muito menor do que quando trabalhei lá e certo que isso contribuiu para o declínio. 

Uma pena, eu adorava o Centro, restaurantes, a Livraria Ciência Moderna que comprava livros de matemática que nunca entendi, o homem pulando por entre as facas na Carioca, enfim, toda uma atmosfera que creio não verei mais. 

A solução me parece simples, liberar para uso residencial, mas tudo no Brasil é complicado e demorado.  Claro que outras medidas teriam que vir juntas.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Pator alemão e botonistas

 Pastor alemão de trabalho e Futebol de Mesa

Este lindo cãozinho era o demônio. Lembro que com uns 3 meses ele dentro do meu carro atacou um baleiro que veio a minha janela oferecer seus produtos.
Eu sempre gostei de cães e comecei a gostar de adestramento mais velho, então escolhi um pastor alemão de trabalho. É meio complicado explicar as diferenças entre um pastor de trabalho e um de exposição, então não farei aqui. Já tinha feito alguns cursos de adestramento e lido muito, na teoria eu sabia mais ou menos o que fazer.
Mas com o tempo vi que não daria certo. Eu chegava perto do prato de ração dele e ele rosnava, tirar a guia dele era um suplício, ele me mordia, e eu comecei a morrer de medo dele. Tentei corrigir pelo reforço negativo, mas ele não tinha medo de mim não;
Procurei um adestrador, gastei uma grana alta e o cara só dizia que eu não levava jeito. Os outros que procurei sempre foram muito antipáticos, como se tivessem um Santo Graal do conhecimento;
Tentei, mas desisti, em um momento passei ele para um rapaz que tinha experiência com adestramento. Nunca mais soube do Rocky Balboa, o nome desse simpático Pastor.
Graças que minha experiência com o botonismo foi bem diferente. Na primeira vez que joguei a Regra Brasileira eu não sabia nem que tinha maluco que jogava de régua, que havia botão zagueiro que não levantava a bola, enfim, eu não sabia nada do Universo digamos profissional.
Levei esporros sim, mas o esporro para progredir, para jogar melhor. Muitos me deram dicas, durante o jogo ou mesmo durante o chopp depois dos campeonatos e fiz algum progresso com estes conselhos.
Pouquíssimas vezes fui menosprezado, lembro apenas de um famoso grito num já longínquo Centro Sul, mas isso faz parte do passado.
Dois meios bem distintos e com abordagens bem diferentes.




domingo, 25 de abril de 2021

A fogueteira





 


O que eu lembro, não necessariamente estou certo.
Em 1989 Brasil x Chile era um jogo importantíssimo para o Brasil, precisava ao menos empatar e o clima do jogo era terrível, pois várias confusões ocorreram em Santiago, inclusive um gol do Chile que a TV brasileira perdeu.
Em 1989 não havia TV a cabo, portanto ou você assistia ao jogo ao vivo ou torcia para a CBF liberar o jogo o que ela não fez. Na época, o Ricardo Teixeira alegou que era um desrespeito aos que foram comprar o ingresso e enfrentaram horas de fila.
Perto do final tivemos o famoso foguete da Rosemary, sinalizador parece, e em um primeiro momento o Rojas se jogou no chão e parecia realmente que tinha sido atingido.
Mas, quem fez um trabalho de cobertura completo e maravilhoso e começou a suscitar dúvidas sobre o ocorrido foi a TV Manchete, que passou várias horas ao vivo depois do ocorrido. Acho que o grupo debatendo era Márcio Guedes, Armando Marques, João Saldanha e não sei...
O caso foi a julgamento perante a FIFA e foi anunciado o resultado favorável ao Brasil durante um Grande Prêmio de Fórmula 1.
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Complementando com o livro Uma História das Copas do Mundo, de Airton de Farias, por sinal o melhor livro sobre Copa do Mundo que conheço.
Na verdade não foi no final, foi aos 24 minutos do segundo tempo.
O Goleiro Rojas e mais 3 membros da Seleção, delegação chilena que seja, foram eliminados do Futebol. Rojas tinha apenas 32 anos.
Rosemary posou na Playboy em novembro de 1989.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

De 1994 a 2002

 O portão da garagem me salvou na Copa de 2002

Minha maior alegria no Futebol foi ver o Brasil ser campeão em 1994. Mas a que mais comemorei disparado foi a vitória na Copa de 2002.
Em 1994 eu mais novo era bem mais tímido, estranhei aquela comemoração no Leblon repleta de bebedeiras e conclui rapidamente que àquele não era meu ambiente. Tomei o rumo de casa esperando encontrar paz e resenhas esportivas, porém o carro da minha mãe foi roubado naquele dia, logo depois da vitória do Brasil, um belo de um Tempra. Ela tinha que descontar em alguém e encheu meu saco até dizer chega dizendo que eu tinha bebido na comemoração quando naquela época a bebida que mais me fazia mal era Grapette. Enfim, foi uma alegria absurda aquela vitória, mas a comemoração deixou a desejar
Em 2002 fui à forra. Um grupo de amigos se reuniu lá em casa naqueles horários esquisitos daquela Copa do Mundo. Creio que era bem cedo, umas 8:30 da manhã eu chutaria. Aquele grupo de umas 20 pessoas foi ao êxtase com os gols de Ronaldo e uma atuação primorosa de Rivaldo depois de um primeiro tempo no qual minha lembrança precária diz que fomos dominados. Não faço ideia de quem assistiu lá em casa, lembro de umas 4, 5 pessoas. O que me recordo é que logo depois do jogo fomos à casa do Araujo, amigo meu famoso pelas histórias na noite carioca e por ter uma cobertura repleta de bebidas no Bairro Flamengo.
Naquela época eu não bebia por prazer. Por exemplo, hoje eu gosto de parar num bar num dia de sol, tomar um chopp gelado, conjecturar se o Universo é um equilíbrio perfeito ou fruto de um acaso maquiavélico no qual somos marionetes. Antigamente não, eu bebia pra ficar doidão e minhas conjecturas eram outras.
Dito isso, comecei a beber o que via pela frente na casa do Araujo. Vodka, Malibu, sei lá o quê bebi mais. Sei que novamente fui para o Leblon, no mesmo local no qual me senti de cueca numa festa a rigor em 1994.
Confesso que lembro muito pouco do que fiz no Leblon. Tenho flashes apenas, lembro daquela comemoração começando pelo final da manhã, de um amigo ou outro, de uma amiga ou outra, e eu lembro do Mingau.
Mingau é um amigo meu antigo do Colégio Santo Inácio. Branco, cabelo castanho tendendo para um loiro, tem um sorriso com dentes semicerrados constante. Uma cara de bobo, para os mais antigos ele parece ter saído do filme Pork´s. Creio que seu apelido de Mingau é pela cara de bobão, meio infantil mesmo depois dos 40, mas ele tem uma tese diferente que não vou desenrolar aqui.
Como disse, não me recordo de muita coisa naquele dia, mas o ocorrido principal, tirando a vitória do Brasil claro, está bem vivo na minha cabeça.
Lá pelas 18 horas já bem inebriado pela bebida eu começo a procurar umas meninas e me deparo com uma conhecida americana/mexicana, Edith.
Eu conhecia a Edith de festas, ela era amiga de uma grande amiga minha também americana. Bonita e interessante, contudo havia um detalhe; ela ficava com o Mingau e ele era louco por ela.
Cheio de cachaça nas ideias eu não liguei para isso e comecei a conversar, dar uma ideia como se dizia. Imagino que ela não estivesse na plenitude das condições também, afinal ela fazia parte de um grupo grande de americanas que estava fazendo um intercâmbio no Brasil e adoravam o país, torciam para o Brasil como se fossem sua pátria real.
Sei que a abordagem estava bem clara para quem via aquela cena, mas eu não contava que uma certa pessoa estivesse vendo.
O Mingau!
Enumerei já algumas de suas características, mas esqueci da principal. Mingau é um possesso. Mingau é um possesso ao natural, não precisa de bebidas, de subterfúgios, de nada para se transformar, para suas bochechas brancas ficarem vermelhas, para gritar e promover grandes escândalos dignos de uma Heleninha Roitman.
Naquele momento meu amigo possesso vendo aquela cena chumbado pela bebida aflorando suas decisões sacramentou:
- Eu vou matar esse cabeçudo filho da puta!!!
Decidido, Mingau não queria uma morte simples para mim. Não seria uma facada simplória no Leblon, um tiro ou algo singelo desses. Ele resolveu me matar com um Tchaco. Não me perguntem por que alguém tem um Tchaco dentro de casa, estamos falando do Mingau, pessoa bem peculiar.
Do alto da sua juventude ele correu do Leblon à Gávea, sua casa, para pegar o Tchaco e consumar sua ira. Na corrida ele elaborou espertamente que não deveria me matar no Leblon, no meio da multidão, poderia ser preso.
“Farei de forma mais discreta”, Mingau pensou.
Calculou que dentro em breve eu estaria em casa e assim meu amigo resolveu ir até a minha residência no Flamengo gritar por mim, morador do quarto andar, rodando seu tchaco como Bruce Lee para eu descer; assim que eu pusesse minha cabeça avantajada do lado de fora me mataria manuseando sua arma como um legítimo ninja. Mais discreto impossível...
Eu, inocentemente, não fazia ideia dos planos do meu amigo. Mal sabia que sentiria saudades daquela comemoração da Copa de 94 na qual não comemorei como esperava, mas pelo menos vivi.
Porém, Deus estava do meu lado.
Como eu disse Mingau é um possesso. Entrou em casa como um furacão, pegou seu tchaco, as chaves do carro e aprontou tudo para sair. Cego pelo ódio e pela raiva, ou quem sabe numa intercessão divina por mim, ele bateu o carro na garagem manobrando, saindo, algo do tipo.
Não conseguiu sair um metro da garagem, arrebentou o portão e chamou a atenção do porteiro, do seu Pai e dos vizinhos.
Seu pai ao ouvir aquele barulho desceu rapidamente e conforme se aproximou viu uma cena que até hoje não entendeu.
O filho com aquele rosto de criança, o carro amassado, segurava as duas mãos no volante chorando copiosamente e balbuciando palavras que lhe pareceram desconexas até hoje, mas algumas ele conseguiu apreender.
Ele lembra apenas dessas:
- Eu quero matar aquele CABEÇUDO!!! Eu quero matar o Cocão!!!
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Quando eu era pequeno
Eu achava a vida chata
Como não devia ser
Os garotos da escola
Só a fim de jogar bola
E eu queria ir tocar guitarra na TV
Ai veio a adolescência
E pintou a diferença
Foi difícil de esquecer
A garota mais bonita
Também era a mais rica
Me fazia de escravo do seu belprazer
Quando eu sai de casa
Minha mãe me disse
Baby, você vai se arrepender
Pois o mundo lá fora
Num segundo te devora
Dito e feito
Mas eu não dei o braço a torcer
Hoje eu vendo sonhos
Ilusões de romance
Te toco, minha vida
Por um troco qualquer
É o que chamam de destino
E eu não vou lutar com isso
Que seja assim enquanto é





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Me bate Cocão, me bate

 Me bate Cocão, me Bate

Marcelo iria levar duas meninas para a minha casa para fazermos um “aquece” antes de irmos ao Rock in Rio Café, famosa boate dos anos 90, 2000 do Rio de Janeiro. Uma delas me interessava bastante, a Vivian. Vivian não era uma modelo, mas eu somente via beleza e charme nela. Nunca tinha tido a coragem ou oportunidade de abordá-la, mas àquele dia seria O DIA D.
Ansioso por recebê-la na minha casa, eu fiz tudo certo. Comprei algumas comidas básicas, batata rufles, amendoim, alguns queijos, salame, essas coisas. O principal, claro, eram as bebidas. Uma pequena discussão se deu entre mim e o Marcelo sobre qual a mais apropriada. Ele manda de forma educada.
- Compra batida do Oswaldo porra!!
Eu sempre fui duro e a batida do Oswaldo não era baratinha. Além de tudo era longe pra caramba, Flamengo minha casa, Barra Tijuca as batidas. Marcelo, incisivo, me convence.
- Quer impressionar ou não cabeção?
No dia combinado tudo estava perfeito. Meu apartamento, enorme, fruto do tempo passado de bonança do meu pai era um bom cartão de visitas. A comida não impressionava, mas não comprometia. Somente para forrar. O principal eram as bebidas e as batidas estavam lá, aos montes. Todos se embebedando naquele Rio de Janeiro irresponsável dos anos 90, inclusive eu. Ocorre que cometi um engano, na verdade dois.
A batida do Oswaldo era uma bebida demoníaca. Muito doce, o açúcar em excesso mascarava o teor alcóolico exacerbado. Experientes caminhariam devagar, como se estivessem num pântano cheio de areia movediça.
Eu não era experiente e me atirei.
Em casa já fiquei muito louco, mas procurava disfarçar. Porém, havia um terceiro elemento para se aproveitar da minha bebedeira.
Araujo é um dos meus melhores amigos. Bom papo, inteligente, parecia o Pagliuca da seleção italiana de Futebol. Se ele abre a boca ele domina o ambiente, e ele sempre abre. Eu cansei de avisar que o negócio estava armado, que eu brilharia com ela, e o Marcelo com a outra menina que não me recordo o nome.
- Tá certo Cocão, você acha que vou furar seu olho?
Depois de um aquece no qual eu fui o mais prejudicado, fomos para o Rock in Rio Café. Chegando lá emendei com outra bebida satânica, era uma mistura de Malibu com sei lá o quê; O que lembro é que na minha cabeça juvenil seria o gole de coragem para eu consumar meu casamento.
Naquele teor alcóolico em que eu poderia ser um dos protagonistas do filme “Se beber, não case” resolvo chegar na Vivian.
Eu já a imaginava cantando para mim na Boate:
Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério
Uh eu quero você
Como eu quero
Uh eu quero você
Como eu quero
Evidente que naquele pileque absurdo minha imaginação não se consumou e ela me deu um toco fenomenal. Que toco meus senhores, que toco. Com os sentimentos aflorados pela bebida ouvindo o sino tocar e o nocaute consumado, me recolho a um dos belos sofás do Rock in Rio Café para me recuperar de tamanha decepção.
Depois de algumas horas resolvo levantar, soldado bom não se esconde na trincheira; se não foi a Vivian outras irão querer o bom Cocão. Dirijo-me do segundo andar para o primeiro onde está a pista de dança, ambiente de batalha, e aí vejo a cena que encerra a minha triste noite.
“Como é que uma coisa assim machuca tanto
E toma conta de todo o meu ser
É uma saudade imensa que partiu meu coração
É a dor mais funda que a pessoa pode ter”
Araujo e Vivian se beijam como dois apaixonados, como uma novela das 8 dos saudosos anos 80. Beijos apaixonados, melados, abraços, afagos, que dor, que dor.
Um escuro deserto do céu se transforma a minha mente. Lágrimas descem e eu me sinto no final de o Último Americano Virgem. Não há mais nada a fazer; Pago minha conta, pego um táxi que sairá uma fortuna e pela madrugada adentro faço o trajeto Barra da Tijuca – Flamengo com lágrimas teimosas presas nas minhas sardas. Nunca mais falarei com aquele canalha do Araújo.
Aí eu me afogo num copo de cerveja
Que nela esteja minha solução
Então eu chego em casa todo dia embriagado
Vou enfrentar o quarto e dormir com a solidão
O nunca mais durou duas semanas. Fomos ao Rock in Rio Café novamente como era praxe no nosso grupo de amigos, mas eu não dirigi a palavra a ele. Ele insistia, tentava, se justificava e de fato estava certo. Eu cheguei muito mal, levei toco e ele foi naquela de amigo bonachão, um canalha, mas fazia parte do jogo.
Mesmo que no meu íntimo eu concordasse com ele, não daria o braço a torcer. Foi muito orgulho ferido, muita dor e muitas expectativas frustradas.
A lua inteira agora é um manto negro, ô-ô
O fim das vozes no meu rádio, ô-ô
São quatro ciclos no escuro deserto do céu
Na volta de um Rock In Rio bem diferente do que estávamos acostumados a larica da bebida me retorce o estômago. Começo a entoar o grito de guerra que fazíamos para o Marcelo, que sempre dirigia pois era o único que não bebia.
- OLIVEIRAAAAAAAAAAAAA!!!!OLIVEIRAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!
Oliveira era um famoso cachorro quente que ficava em frente ao Ballroom, outra boate dos anos 90 do Rio. Marcelo me deixa lá e Araujo salta também.
- Sai fora Araujo, não vou falar contigo nunca mais. Deixa eu comer sozinho!
Ele insiste, argumenta, mas rapidamente é absorvido pelo cachorro quente e lambuza o rosto com aquela maionese verde de orelha a orelha.
Depois daquele cachorro quente maravilhoso pego o primeiro táxi que encontro, mas como numa cena de filme sou seguido pelo Araujo. Salto na aristocrática Avenida Rui Barbosa, minha casa, e ele não desiste.
- Porra Cocão. Você vai matar a nossa amizade por uma menina? Nossa amizade de tantos anos? Tantas guerras?
- Quem matou foi você Araujo!!! Sai fora, vou pra casa dormir.
Acuado, sem convencer pelas palavras, inebriado por mais um porre dentre tantos Araujo dá sua última cartada. Os primeiros raios solares atravessam as árvores daquela Avenida cheia de ricos que não estão acostumados a gritos, esbórnia ou agitação. Os raios iluminam aquela figura folclórica e parecem lhe dar uma ideia, louca é verdade, mas uma última cartada, um blefe talvez.
- Tá bom Cocão. Você pediu!
Araujo caminha para o meio da Avenida que comporta tranquilamente 3 carros lado a lado. Penso que ele vai para a loja de conveniência do posto nos bons tempos que ele era 24 horas. Mas não, no meio da Avenida ele se deita e começa a gritar.
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu vejo aquela cena estupefato. Seria apenas bebida, um blefe juvenil, ou aquela amizade valia mesmo a linha tênue entre a vida e a morte? Até que ponto vamos por um amigo?
Os gritos chamam a atenção dos porteiros daquela avenida e alguns deles abandonam seus postos para conferir o que está acontecendo. Um deles, o Joel, amigo meu, me faz a inevitável pergunta.
- É seu amigo?
- Nunca vi na vida!!
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Vem um carro afastado, mas eu não pago para ver. Arrasto o Araujo para a calçada.
- Você me perdoa Cocão?
- Claro que não, vai pra casa porra!!!! Para de passar vergonha!!!
Chora, não vou ligar
Não vou ligar
Chegou a hora, vais me pagar
Pode chorar, pode chorar
Mas chora!
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Você pagou com traição
A quem sempre lhe deu a mão
Mas chora
Araujo retorna para a o meio da Avenida, mas eu penso, já fomos longe demais. Um pequeno grupo se forma, já com os primeiros moradores acordados, nos olham com desdém como se dissessem, quem são esses?
- EU VOU ME MATARRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!EU VOU ME MATAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu o arrasto dessa vez de forma definitiva, dou lhe um belo de um esporro e grito.
- Chega Araujo! Acabou! Vamos para nossas casas dormir.
- Você me perdoou então? Somos amigos novamente?
Eu sempre gostei de me fazer de difícil e disse que não. Na verdade era só charme, a bebedeira descendo ainda, a anestesia do acontecido, o sol da manhã tomando força na Avenida Rui Barbosa. Araujo lança mão de um último artifício.
- Tá bom Cocão. Toma então, me bate porra. Me bate!!!!!!!!!!
Ele me entrega o cinto e fico sem saber o que fazer. As figuras que acordaram cedo para caminhar no Aterro do Flamengo nos olham de soslaio. Joel, o meu amigo porteiro, ri escandalosamente. Uma certa expectativa é criada, aquela tensão de brigas de colégio que são repletas de juras de morte e pouca ação. Não posso me furtar....penso. Ergo o braço e consumo:
- Toma FDP, aprende a não roubar a mulher dos outros. Toma canalha!!!!
Foram poucas as chicotadas, mas foram como uma chuva de verão que refresca e limpa a cidade depois de um calor de 40 graus. Ao fim nos abraçamos chorando e finalmente tomamos o rumo de nossas casas. Eu, do lado da minha, caminho lentamente exaurido pela noite de idas e vindas e paro para observar a figura do meu amigo. O Araújo, mais longe da sua casa, caminha ainda mais pausadamente e se afasta de mim aos poucos. Quase na esquina olha para trás e se despede com aquele sorriso discreto e um aceno. Eu aceno de volta sabendo que retomei umas das coisas mais importantes das nossas vidas.
Que morram todos os meus amores, mas enlouquecerei se morrerem os meus amigos, pois não há nada mais precioso do que uma amizade verdadeira.
Vinicius de Moraes






domingo, 7 de fevereiro de 2021

Coaching e verdades

 Coaching, o melhor conselho que recebi na vida e meu amigo Humberto Guerreiro

Novembro de 2003, primeiro dia de aula no curso Gabarito, Rio de Janeiro. Eu, bem metido. entro numa sala lotada, mais de 100 alunos, para assistir Direito Constitucional com a Cristina Luna, famosa professora na época. Penso, será breve. Estudei no Colégio Santo Inácio, um dos melhores do Rio, tenho uma boa base, meus adversários não irão me acompanhar. Foi meu primeiro período de estudos.
.....
Março de 2007, meu retorno ao Curso Gabarito. Eu, bem metido, entro numa sala com 40 pessoas no máximo. Os cursos começam a sofrer a concorrência dos cursos on-line e a frequência despenca. Penso, será breve. Estudei muito durante dois anos, não passei na Receita Federal por uma questão, já estou num bom emprego e rapidamente lembrarei do que estudei. O sucesso é uma questão de tempo, curto claro. Foi meu segundo período de estudos.
.....
Onde eu aprendi a gostar de estudar foi no Curso Gabarito. Não foi um processo natural, estudar para vagabundo não é uma chave de ligar um carro. Fiz um bom Colégio que percebi inúmeras deficiências depois. Faculdade eu fiz Administração, sempre me alertaram que era um curso fraquíssimo, eu só acreditei depois. Não serve para nada!! Desculpas dadas, eu fui num crescente, tive o maior incentivo que uma pessoa poderia ter para estudar. Falta de grana. Duro como uma pedra alternava meus estudos na Biblioteca da PUC do Rio onde conseguia me concentrar e o curso Gabarito. Eu amava aquele curso. Amava porque sentia o objetivo claramente, sentia que aprendia, aprendi muito mais em dois anos que na Faculdade inteira. Gostava do estilo dos professores, xingamentos, palavrões aos montes, informalidade com conteúdo. Amava até o café preto que era horrível, o pior da minha vida, era um doping maravilhoso para quem precisava estudar. Até hoje tenho gastrite por causa daquele café.
O melhor do Gabarito, porém, não eram os professores, o café ou alguma metodologia de ensino maravilhosa. Era o Humberto.
Se hoje temos um Coaching em cada esquina, no Gabarito já existia o melhor coaching de todos os tempos. Humberto, ou Guerreiro para os íntimos. O dono do Curso.
Humberto tinha uma sala que o dia inteiro havia movimento.
Muitas reuniões, encontros com os professores, mas o principal era receber os alunos para conselhos, dicas ou coisas semelhantes.
Concurseiros são candidatos enormes a uma boa psicanálise. Não sei onde Humberto aprendeu, mas ele tem o dom. Educado, aquele moreno bem moreno magrinho, de camisa invariavelmente branca e sorriso largo dizia poucas palavras, mas precisas. Antes de cada palavra ele mexia em uns cristais na sua mesa, parecia que formulava o que ia dizer. Não eram dicas, caminhos para passar, era um algo a mais que não sei cravar, mas se fosse arriscar diria que Humberto falava da vida, usava metáforas, apontava caminhos a trilhar sem dizer exatamente como, mas deixava a entender numa frase não dita:
- O caminho está lá Guerreiro, quer percorrer?
Bom tempo depois descobri por que ele chamava a todos de Guerreiro. Como o curso tinha muito movimento, muita gente diferente, para não parecer mal educado por ter esquecido o nome de algum aluno ele chamava a todos por Guerreiro. Não, não sei como ele chamava as meninas. Sei que aconteceu o inverso e muitos alunos como eu passaram a chamá-lo de Guerreiro também.
Eu só “usei” o Humberto na minha segunda passagem pelo Curso. Na primeira não sei, acho que bem metido, mais que na segunda, eu achava que não precisava. Na segunda vez me rendi, preciso de ajuda.
Ele me conhecia obviamente, mesmo que de vista, eu fazia muito curso lá, mas a conversa só fluiu quando descobrimos que amávamos tênis e éramos fãs do Roger Federer. Daí foi um passo para jogar tênis que ele sempre ganhava e da mutação ao meu olhar de dono do meu curso favorito para meu amigo.
Com a amizade vieram as conversas mais longas. Conselhos, enigmas, algo Mestre dos Magos. Ele raramente me falava diretamente o que eu queria saber, mas deixava no ar.
Contudo, um dia ele foi bem direto. Eu fazia muitas aulas à noite, já trabalhava, e saía um pouco antes do término da aula para aproveitar a carona do ônibus do condomínio dele. Eu morava no Recreio, ele na Barra. Estamos lá naquele trânsito colossal do Rio de Janeiro e eu reclamando na altura de São Conrado.
- Pois é Guerreiro, eu poderia ter passado na Receita Federal e encerrado já esse capítulo da minha vida. Não tive apoio, não tinha grana, vivia nervoso. Até na Biblioteca da Puc eu desmaiei. Enumerei um monte de culpados e concluí...
- Eu achando que tinha virado uma pagina da minha vida e na verdade o livro está no começo. Se eu tivesse tido ajuda...
Humberto dá uma pausa que me lembra a velocidade do ônibus, bem devagar, um suspiro um pouco maior. Parece procurar as palavras, não há os cristais para ajuda-lo, mas ele não precisa. De forma educada, mas incisiva, ele fala.
- Guerreiro! Foi você quem não passou na prova. Não foi mais ninguém.
O ônibus continua a “viagem” e eu e o Humberto entramos num silêncio profundo. A lentidão do trânsito me incomoda mais, a poltrona grande do ônibus de turismo subitamente me parece desconfortável e minha mão parece molhada, mesmo com aquele ar gelado.
Foi a última lição que o Guerreiro me deu, e foi a melhor de todas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Este texto não saiu como eu queria e na verdade nunca sairá. É impossível colocar em palavras o quanto sou agradecido ao Humberto pelas palavras, pela amizade e pela companhia mesmo que num pequeno período da minha vida. Se hoje acho uma besteira a cabeça que tinha na época, um endeusamento de concursos públicos, achar que quem passa é um gênio etc, tenho pra mim que me tornei melhor nesta caminhada e boa parte foi pelos conselhos e amizade do Guerreiro.
Em breve te darei um abraço meu amigo e agradecerei pessoalmente.





quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eu estou aqui

 Eu estou aqui

Há muitos anos fui numa festa de um ex namorado da minha irmã. Mesmo já tendo acabado com ela fez questão de me chamar e mais alguns amigos meus, gostava de mim ou queria um revival, não sei.
Ele era bem rico e resolveu fazer um festão numa casa no Joá. Comida e bebida da melhor qualidade liberadas, DJ, Blitz era a banda, casa espetacular e centenas de convidados. De fato eu me diverti, bebi bem, mas não o suficiente para não reparar que o aniversariante e atração principal do evento parecia deslocado na sua própria festa. Várias vezes dirigi meus olhos a ele e reparei que ele caminhava sozinho, sorriso amarelado, imagino que mais da metade dos “amigos” dele naquele evento ele não deveria ter nenhum contato. Claro, foi uma impressão, mas me deu pena, achei a solidão na multidão que todos nós já sentimos.
Esta solidão me lembrou de uma história que me avô contava. Seu sobrinho, meu primo de segundo grau, não passava no Vestibular. Rapaz inteligente, estudou em um dos melhores colégios do Rio, provavelmente o melhor. Estava mais do que preparado, mas quando indagado sobre as razões de não passar ele respondeu;
- Eu me sinto só na prova.
Sim, uma alegação muito pouco convencional. A prova era feita no Maracanã quando o estádio não era esse pigmeu que o transformaram. Era um estádio para 200 mil pessoas, para multidões e claro que se no Vestibular o número era muito menor por razões óbvias ainda assim era muita gente.
- Sim, eu sei que tem muita gente, mas não conheço ninguém, não adianta. Eu me sinto só.
Paulo Fortes, meu avô, pensou:
“Preciso ajudá-lo. Sobrinho e também afilhado, algo preciso fazer, mas o quê?”
A ideia foi pouco convencional, mas era uma bela tentativa. Meu avô tinha como um dos seus grandes amigos Joacir Ribeiro, um dos responsáveis pelo som do Maracanã. Não hesitou.
- Joacir, preciso de um grande favor seu. Meio esquisito, mas é pra minha família, por família fazemos tudo.
- Não sei o que é Paulinho, mas se é pedido seu já tá feito.
Joacir estranhou claro quando soube, não era tão trivial, mas deu seu jeito. Existem amizades que fazemos qualquer coisa um pelo outro.
Foi a primeira vez que meu avô pisou no gramado. Ele que assistiu a final da copa de 50 e chorou, que viu seu América tantas vezes fazê-lo sofrer agora ia ao estádio não na condição de torcedor, jogador ou algo ligado ao Futebol.
Do alto dos seus 140 kilos, mas ainda jovem, caminha lentamente para o centro do gramado. As lembranças são inevitáveis. O gol de Ghiggia na final, os feitos de Pelé e seu preferido Garrincha. O palco sem dúvida é propício para uma ária, nunca cantou para tanta gente. A multidão absorta em suas provas e sonhos estranha aquela figura, mas tempo é algo que eles não tem naquele Vestibular tão difícil e retomam rápido para suas questões e problemas.
Meu avó ciente do que foi fazer apenas levanta o braço naquele corpo avantajado que o estádio enorme torna pequeno. Na voz mais baixa que já saiu daquele vozeirão ele fala:
- Eu estou aqui!
- Eu estou aqui!
“Haverá além da noite silenciosa, um dia eterno? Será sua morte uma porta que leva à luz? Isso nós jamais saberemos”.