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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

É o que todos dizem

É O QUE TODOS DIZEM
Quando estudei administração de empresas havia a cadeira recursos humanos. Depois, com a mudança do mundo para o politicamente correto passou a ser chamada de gestão de pessoas.
Eu detestei a matéria, não importa se RH ou gestão de pessoas. Acho uma besteirada só e não posso me alongar sobre os motivos, pois patrulhas há aos montes mesmo entre meus cinco leitores.
Sempre achei mais fácil o convívio com um pastor malinois do que com outros, mas nas dinâmicas de grupo eu mentia, claro, e dizia que adorava o trabalho em equipe.
Em uma delas me pediram para dizer com qual herói eu me identificava. Claro que se eu fosse o dono daquela empresa eu demitiria na hora a pessoa que planejou aquele processo de seleção, porém, desempregado, eu disse que queria ser o homem aranha.
A "doutora" do rh quis se alongar, saber por quê, e eu não podia falar que queria ser o homem aranha porque eu tinha uns 500 gibis dele e me identificava com o personagem, Só que não pelas razões corretas, por ele ser herói etc, mas sim porque ele era todo errado, devia dinheiro, enrolado nos estudos e outras coisas mais.
Bem, eu não fui selecionado para a empresa, nunca fui, acabou que fui trabalhar num hospício e sei, você está pensando na piadinha boba que eu era paciente.
Não, trabalhei na parte administrativa, seis meses somente.
Mas há uma história curiosa sobre minha primeira semana na clínica.
Eu era corredor na época, corria mole uns 15 kilometros, e voltava correndo da Gávea, onde era a clínica, até o Flamengo, meu bairro.
Primeira semana de trabalho, troco de roupa, deixo os sapatos lá, coloco a calça social na mochila e com meu short rosa me dirijo ao portão. Uma camiseta de metaleiro, sei lá;
Não falo nada e o segurança se dirige a mim.
- Onde o senhor está indo?
- Estou indo embora, eu trabalho aqui!
- É o que todos dizem!
E assim, em minha primeira semana na Clínica da Gávea fui impedido de sair pois fui tido como louco. E quer saber, prefiro loucos e malinois.




quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O dois lances da vida

O dois lances da vida
Agenor tinha duas paixões na vida.
Futebol de mesa e mulheres.
Era um mulherengo inveterado. Já com seus quase 50 pensou que estava curado. Terceiro casamento, filhos pequenos, o chamado pai avô, tinha para si que agora mais experiente não faria as besteiras que destruíram os dois primeiros casamentos.
Com hábitos mais simples e sem as bebedeiras de longas noites de outrora, Agenor resolveu retomar sua paixão da infância e adolescência.
O futebol de mesa!
Não tardou e a habilidade do passado foi retomada. Sim, Agenor sempre foi craque. Jogava fácil, a régua uma extensão do corpo. Dizia que a tática do passado era a mesma do presente, bastava retomar “a mão” e a velha forma naturalmente iria aparecer.
Assim Foi! Agenor ganhava tudo e de todos, era completo, confiante, na categoria dele o maior do Brasil, dizia que era invencível. Quer dizer, havia um jogador que rivalizava com Agenor.
Modesto.
Modesto e Agenor eram opostos. Um falastrão, outro só falava quando respondia algo, um Lula, outro Bolsonaro. Agenor engraçado, daqueles que todas as mesas ouviam os berros, gritos de gols e sua fanfarronice, Modesto sempre quieto, fazia o gol e sua cara parecia transparecer um pedido de desculpas. Na verdade, seu rosto sempre tinha a mesma expressão, triste, podia levar 3 gols em um tempo e seu comportamento era o mesmo. Lembrava o Didi da copa de 58, pegava a bolinha e caminhava lentamente para dar a saída.
Conhecidos há mais de 30 anos nunca se cruzaram. Havia muitas histórias claro, botonistas são fofoqueiros, quase todos. Uns diziam que era mulher no passado, outros atribuíam às diferenças de temperamento e havia mais uma tese que remontava a um Brasileiro muito antigo no qual Modesto ganhou no último lance e gritou pela primeira e única vez.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
Dizem que era mentira, que ele jamais faria isso, mas é o que os mais antigos diziam.
Pouco importa. Essa rivalidade tem novo capítulo na Ilha do Boi, no brasileiro de 2017. Como esperado os dois fazem a final e o jogo é como todo jogo decisivo, truncado, meio nervoso, sem ninguém querendo expor muito.
Agenor joga pelo empate e sabe que Modesto não tem seu vasto repertório de jogadas, é só ficar tranquilo e comemorar.
O segundo tempo percorre como o primeiro, sem grandes emoções. Tapas, cavadas fáceis, Modesto só começa a apressar o jogo faltando 5 minutos. Numa dessas apressadas a régua escapa faltando um minuto e ele cede dois lances para Agenor.
Agenor pensa, pensa e fala baixo.
- Ora, vou fazer o óbvio, vou chutar para fora bem longe e que se foda.
Contudo, o ódio por Modesto falou mais alto.
- Eu nunca erro dois lances, vou humilhar esse filho da puta, gritar na cara, berrar é campeão bem alto.
O chute de corte sua especialidade. Régua firmada, envergada, só largar. Agenor só pensava no grito na cara de Modesto para encerrar em grande estilo o campeonato.
Solta o botão que bate na bola e ela por um golpe do destino bate no travessão e volta para o campo de Agenor. A partir daí, deste momento, Agenor não lembra de nada. Não lembra se arrumou o goleiro, não lembra do que fez.
Lembra apenas de um grito.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
O invencível agora é um homem em pé sem sentidos, sem chão e tem apenas um caminho a percorrer com aquele grito ecoando até seu último fio de cabelo.
- Vou beber!!
Agenor não se assusta com o preço da Heineken na ilha do boi. Dez reais uma long neck;
- Quero 10 em caráter de urgência!
E ele começa a beber no sofá perto do grande salão onde deveria ter acontecido sua glória maior. O espaço outrora recheado de jogadores, de negociantes e familiares de todo o Brasil assume um ar cada vez mais decadente. Só quem vivenciou os torneios sabe a tristeza que dá olhar para um salão vazio depois de uma tempestade de jogos e emoções.
Agenor, já bêbado, resolve terminar sua bebedeira no triângulo das bermudas. Rapidamente se arruma com uma prostituta e acorda no dia seguinte com uma tremenda ressaca e 39 ligações perdidas.
Depois de pegar o voo de volta pra casa num estado lastimável, as explicações pelo sumiço são urgentes.
Sua esposa o recebe furiosa e grita, esperneia, mas esperta que é pega o celular e vê a última corrida do UBER para o motel coelho feliz.
Não tem explicação e Agenor nem tem condições de dar. Um fiapo de homem.
Brigas, choros e finalmente a condição para o casamento continuar foi largar o futebol de mesa. Agenor aceitou, nem pensou na verdade, o quarto casamento seria demais.
Desde aquele fatídico brasileiro parado hoje ele acompanha os jogos pela internet, quando toda vez sente uma lágrima escorrer pelo olho. Nem se dá ao trabalho de limpar tamanha é a dor que sente em não mais jogar. Ela desce bem devagar, sorrateiramente, percorrendo uma estrada cheia de curvas no corpo cansado de Agenor e se aloja no peito dele, que só então a enxuga.
E todas as vezes ele repete.
- Meu Deus, o que foi que eu fiz?! O que foi que eu fiz?!




Como comecei a jogar

Como comecei
De vez em quando me perguntam onde eu jogava no Rio de Janeiro. Respondo, eu não jogava. Minha retomada com o futebol de botão foi completamente por acaso. Havia me separado há pouco tempo e procurava o que fazer. Aulas de piano, xadrez, oficinas de escrita e eis que um dia, caminhando pela Rua Fernando Machado no centro de Porto Alegre me deparo com o Bazar Mimo, uma loja de botão.
As lembranças foram inevitáveis. No rio havia uma loja que eu frequentava, a adidas no Flamengo , que não existe há muitos anos. Desconhecia que ainda poderia existir uma loja de botão em tempos de celulares e vídeo games tão modernos, mas havia um foco de resistência.
Bobo que sou fiquei todo feliz. Não fui dos que mais jogou na infância, tampouco era colecionador, mas gostei de reviver aquele elo com meus tempos de criança. Óbvio que comprei alguns botões, nada a ver com nada, bolas da regra brasileira, gaúcha, botões grandes, pequenos, cavadores, uma salada.
Também na loja havia um cartaz de um pessoal que jogava a toque toque. Fiz contato e comecei a jogar com eles, um grupo bem louco, brigas memoráveis, mas tinha cerveja, salgadinho, havia umas estatísticas que eu figurava em último pra variar, enfim, bem legal.
Comecei a me “profissionalizar”, descobri que existe uma confederação, que o pessoal joga várias regras, que botão não tem nada de criança e saem brigas homéricas, enfim, revivi os tempos de criança e ampliei para um novo mundo, um hobby que virou uma paixão.
Ainda por cima, sendo um eterno forasteiro no sul foi através do botão que fiz amigos em Porto Alegre. Um grupo pra lá de especial, brigões como eu, politicamente incorretos ao extremo, amantes do álcool e acima de tudo grandes amigos.
O botão nos dá isso, amizades, hobby, gastos, lazer e acima de tudo momentos que mesmo nos anos distantes guardaremos.




O fruto não cai longe da árvore

O fruto não cai longe da árvore
Já comentei que meu pai é um colecionador. Teve, hoje em muito menor número, carros e carrinhos (dinky toys), trens daqueles de colecionismo, relógios, até caixas de som de um tipo caro (não me recordo a marca) ele tinha umas 10. O que uma pessoa quer fazer com 10 caixas de som eu nunca entendi, mas alguns devem se perguntar por que eu tenho umas 9 mesas de botão. Lembro que eu comprei um som e muito orgulhoso mostrei para ele perguntando o que ele achava e ele de bate pronto.
- Que merda de som!
Um dos hábitos que peguei do meu pai foi visitar leilões, antiquários, etc. Claro que procuro por botões. É muito raro de encontrar, primeiro que muita gente faz isso, segundo que o território para achar os que me interessam é o Rio e terceiro é que botão é um negócio raro mesmo, a maior parte das pessoas joga fora.
Mas, há cerca de uns 6 meses apareceu um lote. Botões que chamo de lua cheia, com as cores do meu time (Fluminense) e com o lance inicial baixo. Pensei, vou pegar, coloco um lance automático e pronto já que não sou bom nessas vigílias e fazer lance por telefone acho muito démodé.
Desconfiava que os botões não eram suprassumo, mas pensei, estão valendo por um preço baixo.
Ocorre que me ferrei. No dia eu não acompanhei o leilão, mas quando fui ver vi eu tinha ganho, contudo por um preço muito maior do que tinha imaginado. 400 reais!!! Pensei de imediato, algum idiota ficou mandando lance e elevou o preço dessa merda. Me ferrei!!!
Coloquei um lance automático alto sei lá por quê, um que de compulsivo, e me ferrei.
Exclamei mais alguns palavrões e entubei.
Mas recentemente fiquei sabendo quem era meu adversário no lote.
Eu e meu pai ficamos estremecidos um certo tempo e quando retomamos o contato conversávamos sobre amenidades quando ele puxa o assunto futebol de botão.
- Rapaz, você não sabe o que ocorreu! Eu vi um leilão outro dia daqueles botões antigos que gosto que eram vendidos na Pequenina, sabe, aqueles botões bem redondos.
- Sei pai, aqueles que você comprava no Catete, eu chamo de lua cheia.
- Isso! Então, eu vi o leilão e pensei, porra, time de Fluminense, um monte deles de osso( para o meu pai todo botão é de osso) e mesmo nessa merda de bater palma que eu estou falei que ia ganhar essa merda. Só que você não imagina o que aconteceu!!!
- O que?
- Eu não sei usar essa merda de internet, então fiquei dando o lance por telefone. E aí foi a cem, duzentos, trezentos, e pensei, agora para, mas o filho da puta ainda deu um lance de 400 e aí eu desisti. Ficou demais para mim. Mas você não sabe da maior.
- Qual?
- Neste mesmo leilão eu ganhei um outro lote, umas revistas de trem, então fui pegar lá no Centro do rio, um calor senegalês, mas fui lá intrépido e com a curiosidade de olhar os botões, pareciam ser do kct. Cheguei lá, me atendeu uma mulher e perguntei; - Olha, por curiosidade, uns botões que vocês anunciaram, ainda tem eles aí?
- Tenho sim senhor, quer ver?
- Quero sim por favor.
Depois de uns 15 minutos naquele calor fudido do rio me vem uma caixinha muito bunda mole e logo falei.
- Não, são botões grandes, bonitos, não iam caber nessa caixinha.
- Não senhor, são estes mesmos, olha aqui.
- Rapaz, eu rasguei minhas cuecas. Eram uns botões de merda, do tamanho da unha de um anão, eu pensei, que merda que escapei, o otário que pegou essa porra vai fazer um Haraquiri na hora. Graças a deus escapei dessa.
- Amém pai.



Palermo




Atualmente na terceira divisão, mas um time que eu gosto e vejo bastante nas mesas pelo Brasil.

Foi feito pelo Ítalo esse.

Ficou lá atrás

FICOU LÁ ATRÁS

Preciso me certificar que minha foto está lá, no quadro de formandos. Todo aluno que se forma no Santo Inácio tem sua foto num quadro, local em que digamos se imortaliza na alma da instituição. Eu tenho certeza que não, que minha foto nunca esteve. Há semanas sonho que não consegui me formar, algo ficou para trás, uma vida que é um engodo.  Não poderia ter feito faculdade, não poderia ter feito concurso para a Petrobras, não poderia ter feito concurso para a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul. Já começo a fazer contas de quanto devo, pelo menos 11 anos de salários. Se estou negativo hoje, como pagarei 11 anos de salários? Minhas mãos tremem, suo frio, como se fosse pegar uma nota de física do Professor Zarur.

A suspeita na minha cabeça já é certeza conforme os sonhos acumulam. Pego o primeiro avião que consigo para o Rio de Janeiro para visitar meu antigo colégio, Santo Inácio, Santo Inácio de Loiolaaaa...Vem um ritmo de música na cabeça, a letra não. O que lembro, o que esqueci?  Nunca me formei em 1994, ano em que o Senna morreu, ano do Plano Real, ano da Copa do Mundo. Quero apenas me certificar de que a mentira que vivo é verdade. Quantas mentiras mais tenho?
De fora parece o mesmo colégio. Entrada discreta, grades as mesmas. Um novo baleiro sem a cara simpática do falecido Madura.
 - Você vende uvinha?
 - Uvinha? O que é isso?
 - Deixa pra lá;

Entrar no colégio é surpreendentemente fácil. Um paletó azul marinho me dá um ar professoral, livros diversos nas mãos são um álibi óbvio e eficiente. Cabelo grisalho e ninguém me interrompe. Entro pelo metrô, como chamavam na minha época. Já chamo tempos passados de minha época. Não sei por que se chama metrô, não acho parecido. Antigamente as notas eram pregadas aqui, parece que foi ontem que fiquei de recuperação em física e catei meu nome como um doido para ver se eu tinha passado. Será que as notas são por whatsapp hoje em dia? Se minha foto não está no quadro em que matéria repeti? Alguma de exatas com certeza. Sempre fui uma besta matemática. Amigos riam das minhas dificuldades, da falta de talento em desenho  geométrico…Mediatriz? Nunca consegui fazer uma.

Caminho pensando como farei para pagar a matéria que devo. Um homem de 40 anos sentado ao lado de meninos de 17. Será que os padres aceitam suborno? Há padres ainda?
Não sei por onde começar a procurar. Na frente do colégio ficam os quadros mais recentes, era assim antigamente. Percorro os andares nervoso, a sensação de desconforto de um adolescente tímido volta com mais força. Olho para o banheiro onde me escondia, mas agora não quero mais me esconder. Quero achar uma vida, talvez a que não devesse estar vivendo.

Lá está ele, o quadro. Brega como imaginava que era. Uma cor que não sei precisar, salmão acho. Minhas pernas tremem mais ainda, como antigamente. O quadro está alto, já não enxergo tão bem, cacete, cadê minha foto?
Vejo professores que já morreram, amigos que nunca mais vi, adolescentes populares, adolescentes tímidos loucos por sexo, uma playboy que fosse. Ah Luciana Vendramini!!!  Mas não me vejo. Cadê minha foto? Meu olhar percorre o quadro salmão brega na maior velocidade que consigo. Não está na ordem isso, Bernardo Langoni, Bruno Wong, , Eduardo...?

 - Bom dia, tudo bem contigo? Posso te ajudar?
Um professor, padre, não sei como se vestem hoje em dia, fala comigo com olhar desconfiado. Me dou conta que estou suado, tremendo todo, não sei o que responder sem despertar suspeitas.
 - Procuro uma fraude.
Ele me olha meio assustado, mas não se alonga. Segue seu rumo, qualquer que seja.

Mais nervoso ainda, procuro a bendita foto, a prova de que existo na sociedade. Minhas mãos geladas prenunciam que irei ter um troço se não achá-la, mas a encontro.
Como as notas de antigamente nas provas de matemática olho uma, duas vezes, três para ter certeza que passei. Passei de ano. E agora, passei do quê?

Um cabelo escorrido, lambido, sorriso forçado, discreto. Ela está lá. Fabio Fortes, sim, meu nome. Cabelo castanho, hoje grisalho. Está lá.  Das mentiras que sou e carrego, esta não faz parte. Olho mais uma, duas, dez vezes. Mais relaxado, vejo os colegas, muitos dos quais não lembrava. São lembranças, boas ou indiferentes. A idade te ensina a não guardar mágoas.

Mais calmo desço as escadas e reparo como elas continuam afundadas nas pontas.  Bebo a água do bebedouro mais forte, o da ponta e, como antigamente, ele esguicha forte no meu rosto me molhando todo. Continua gelada, penso. Na cantina com o apelo clean da modernidade peço um cheeseburger. O queijo não vem derretido e escorrido como antigamente. Sento na arquibancada para ver o jogo e reparo que poucos prestam atenção. Entretidos com seus celulares postam felicidades virtuais sem viver o presente. Terão lembranças como eu?  O campo de futebol me parece ainda menor do que da última vez que estive no colégio. Cabiam 20 times quando criança achava, hoje mal cabem 2.
Minha foto está lá, mas continuo achando que algo ficou para trás.





Eu quero o Joãozinho

Eu quero o Joãozinho
Marcelo era um dos maiores colecionadores do Brasil. Tinha 5, 6, talvez 7 mil botões, dos mais comuns até os raríssimos. Um valor considerável em dinheiro.
Apenas um botão faltava em sua coleção: O Joãozinho.
Joãozinho pertence ao irmão dele, Rodolfo. Botão comum, olhinho, 3,5, mas o terror de sua infância. Nos embates com o irmão sempre era o Joãozinho que marcava o gol da vitória.
Sempre!
Joãozinho avançava pela esquerda, caía pelo meio e já pedia o chute.
Marcelo sentia o suor nas mãos trêmulas, as pernas bambeando, a ajeitada no goleiro era mera protocolo antevendo o grito inevitável que tanto o irritava.
Golllllllllllll!!!!!!!GOLAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E assim foi durante anos. Campeonatos, amistosos, sempre Joãozinho acabava com os sonhos do Marcelo e o grito estridente do irmão, um grito de insulto, uma provocação aos ouvidos de Marcelo ecoava pela casa.

Golllllllllllll!!!!!!!GOLAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A idade porém fez com que os campeonatos naquela sala ampla na Tijuca fossem rareando, o diário para semanal, e daí para mensal até que não jogaram mais.
Rodolfo, mais velho, começou a estudar na UERJ, a frequentar os bares das redondezas e descobriu os prazeres do sexo descompromissado com as beldades da faculdade.
Marcelo, no entanto, sempre foi mais tímido, introvertido. Mesmo quando também passou para a UERJ alguns anos depois sua vida mudou pouco. Seus amigos eram os botões e sua coleção cada vez maior agora que não dependia mais da mesada modesta do pai e sim de um salário cada vez maior numa empresa de auditoria e consultoria.
O que unia os dois irmãos, a única afinidade na verdade, eram os botões e sem este elo o afastamento quase definitivo era uma questão de tempo.
Não tardou e aconteceu;
Rodolfo viveu bem a faculdade com mais alguns anos de farra depois dela, mas conheceu uma americana e enveredou pela área acadêmica, indo morar em Irvine, Califórnia. Levou o básico, incluindo sua caixinha de 20 botões, entre eles o Joãozinho.
Marcelo não, sempre focado, dedicou-se aos estudos, galgou cada vez mais posições na empresa e conseguiu o cargo de presidente. Casou e foi morar em São Paulo carregando seus 7 mil botões cuidadosamente embalados.
Os encontros entre eles eram apenas no natal, na ampla sala do apartamento de seus pais, palco das lembranças da infância.
Nestes encontros escassos e com uma convivência cada vez mais distante na qual as palavras saem desajeitadas Marcelo ainda tentava.
- Rodolfo, você não joga há anos, não me venderia o Joãozinho?
- De jeito nenhum, a resposta era automática, incisiva e com um olhar cortante.
Foram feitas mais algumas tentativas, sempre no natal, até que os pais faleceram e os encontros anuais acabaram.
Nem amigos no Facebook eram.
Perto dos 50 o destino não foi generoso com Marcelo. Numa consulta de rotina descobre um câncer terminal, 2 meses de vida.
Avisa aos amigos, alguns parentes próximos e faz um último pedido para esposa.
Rodolfo fica sabendo por terceiros, reluta em vir, há anos não o vejo diz para a esposa, mas o sangue do meu sangue fala mais alto e o avião pousa num domingo de sol em São Paulo.
Seu irmão já muito fraco, magro, longe dos seus mais de cem kilos que manteve por anos o vê entrando pela porta do quarto do hospital.
Um sorriso discreto, mas sincero permeia o ambiente e emociona a todos.
Primeiro falam amenidades, relembram os bons tempos naquela sala feliz na Tijuca, dias de sol, sem preocupação, apenas jogos de botão, coca cola e a fantasia da infância.
Marcelo percebe o irmão desarmado, naquele quarto de hospital em um estado terminal ele sente um calor que o envolve, como um abraço materno. Sente que é momento.
- Rodolfo, eu vou deixar a minha esposa Valéria e nossos filhos muito bem. Ganhei um bom dinheiro, nada de preocupações eles terão, inclusive fiz um pedido a ela. Meus botões, eu tenho um elo com eles, algo como se fossem uma família. Eles serão enterrados comigo, fiz este pedido a ela. Sim, sei que é estranho, mas ao meu lado sinto que eles estarão me abraçando em meu descanso. Porém, Rodolfo, falta um, somente um pro meu descanso ser completo. O Joãozinho. Você me daria o Joãozinho pra eu finalmente descansar em paz?
Rodolfo olha pro irmão, vê as olheiras, a cara de quem chegou ao final da luta. Pensa como poderiam ter sido mais unidos, como o tempo passou rápido, como dos 20 pros 40 foi um pulo. O que parecia eterno foi um sopro, um sopro de vida. Lágrimas começam a cair, pega na mão do seu irmão, olha bem fundo nos seus olhos e diz.,
- Não Marcelo. O Joãozinho não!!!



Caixas de fósforo

Caixas que tenho e que desejo trocar por futebol de botão.




Holanda




Time usado pelo campeão brasileiro em 2006, Zezeka. Sempre gostei da Holanda, particularmente a de 74 e a de 88. Time liso, da regra brasileira.

A Droga da Carnaúba

A Droga da Carnaúba
Botonista famoso e simpático, mas com cara de poucos amigos, deixa sua Associação por volta das 22:30 numa noite fria de Porto Alegre. Em 8 minutos está em casa, mora perto. Ávido por um banho revigorante e uma janta sem limites que ele parece já sentir o cheiro acelera firme, contudo em 2 esquinas ouve o barulho da sirene.
- Encosta aí!!!
A voz firme não o amedronta, está limpo, apenas o peso de duas derrotas foi a chateação da noite, vão me liberar e pronto, ele pensa; - Preciso comer - , sua barriga já faz aquelas contorções para dentro e o ronco é tamanho que ele se pergunta se os policiais não ouviram.
- Salta do carro e encosta as mãos no teto.
Ele faz, rápido e silencioso como manda o figurino, mas ele sente que querem encrenca. O tom da voz desnecessário o alerta, mas como não tem nada que possam o acusar a janta ainda estará quente quando chegar.
Vasculham bem o carro já antigo, não acham nada, apenas uma caixa inocente de botões. Vão lembrar da infância e vamos todos dar boas gargalhadas nosso amigo reflete.
- Que pedra é essa aí?
- Ops, carnaúba. Eu uso pra limpar os botões
- Sei...
A carnaúba não lembra nenhuma droga, talvez crack, mas a grande quantidade faz com que os policiais desconfiem. Nosso amigo é acusado de traficante, mas na verdade a quantidade é apenas porque ele revende para um jogo inocente e não como um comparsa do PCC.
As perguntas se multiplicam, o tratamento fica cada vez mais agressivo e as pedras inocentes não mais suscitam dúvidas aos policiais, são drogas.
- Entra aí rápido!!
A fresta no carro permite ver a janela de casa ao longe. Uma luz acesa, ele imagina a mesa posta, um bife á milanesa com maionese de batata sua comida preferida, o cheiro parece que o toca. Mas o que lhe resta naquela noite é a delegacia e o frio que entra pela fresta do carro.