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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O dois lances da vida

O dois lances da vida
Agenor tinha duas paixões na vida.
Futebol de mesa e mulheres.
Era um mulherengo inveterado. Já com seus quase 50 pensou que estava curado. Terceiro casamento, filhos pequenos, o chamado pai avô, tinha para si que agora mais experiente não faria as besteiras que destruíram os dois primeiros casamentos.
Com hábitos mais simples e sem as bebedeiras de longas noites de outrora, Agenor resolveu retomar sua paixão da infância e adolescência.
O futebol de mesa!
Não tardou e a habilidade do passado foi retomada. Sim, Agenor sempre foi craque. Jogava fácil, a régua uma extensão do corpo. Dizia que a tática do passado era a mesma do presente, bastava retomar “a mão” e a velha forma naturalmente iria aparecer.
Assim Foi! Agenor ganhava tudo e de todos, era completo, confiante, na categoria dele o maior do Brasil, dizia que era invencível. Quer dizer, havia um jogador que rivalizava com Agenor.
Modesto.
Modesto e Agenor eram opostos. Um falastrão, outro só falava quando respondia algo, um Lula, outro Bolsonaro. Agenor engraçado, daqueles que todas as mesas ouviam os berros, gritos de gols e sua fanfarronice, Modesto sempre quieto, fazia o gol e sua cara parecia transparecer um pedido de desculpas. Na verdade, seu rosto sempre tinha a mesma expressão, triste, podia levar 3 gols em um tempo e seu comportamento era o mesmo. Lembrava o Didi da copa de 58, pegava a bolinha e caminhava lentamente para dar a saída.
Conhecidos há mais de 30 anos nunca se cruzaram. Havia muitas histórias claro, botonistas são fofoqueiros, quase todos. Uns diziam que era mulher no passado, outros atribuíam às diferenças de temperamento e havia mais uma tese que remontava a um Brasileiro muito antigo no qual Modesto ganhou no último lance e gritou pela primeira e única vez.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
Dizem que era mentira, que ele jamais faria isso, mas é o que os mais antigos diziam.
Pouco importa. Essa rivalidade tem novo capítulo na Ilha do Boi, no brasileiro de 2017. Como esperado os dois fazem a final e o jogo é como todo jogo decisivo, truncado, meio nervoso, sem ninguém querendo expor muito.
Agenor joga pelo empate e sabe que Modesto não tem seu vasto repertório de jogadas, é só ficar tranquilo e comemorar.
O segundo tempo percorre como o primeiro, sem grandes emoções. Tapas, cavadas fáceis, Modesto só começa a apressar o jogo faltando 5 minutos. Numa dessas apressadas a régua escapa faltando um minuto e ele cede dois lances para Agenor.
Agenor pensa, pensa e fala baixo.
- Ora, vou fazer o óbvio, vou chutar para fora bem longe e que se foda.
Contudo, o ódio por Modesto falou mais alto.
- Eu nunca erro dois lances, vou humilhar esse filho da puta, gritar na cara, berrar é campeão bem alto.
O chute de corte sua especialidade. Régua firmada, envergada, só largar. Agenor só pensava no grito na cara de Modesto para encerrar em grande estilo o campeonato.
Solta o botão que bate na bola e ela por um golpe do destino bate no travessão e volta para o campo de Agenor. A partir daí, deste momento, Agenor não lembra de nada. Não lembra se arrumou o goleiro, não lembra do que fez.
Lembra apenas de um grito.
- CHUPA PORRA!!!!!!!!!!!!
O invencível agora é um homem em pé sem sentidos, sem chão e tem apenas um caminho a percorrer com aquele grito ecoando até seu último fio de cabelo.
- Vou beber!!
Agenor não se assusta com o preço da Heineken na ilha do boi. Dez reais uma long neck;
- Quero 10 em caráter de urgência!
E ele começa a beber no sofá perto do grande salão onde deveria ter acontecido sua glória maior. O espaço outrora recheado de jogadores, de negociantes e familiares de todo o Brasil assume um ar cada vez mais decadente. Só quem vivenciou os torneios sabe a tristeza que dá olhar para um salão vazio depois de uma tempestade de jogos e emoções.
Agenor, já bêbado, resolve terminar sua bebedeira no triângulo das bermudas. Rapidamente se arruma com uma prostituta e acorda no dia seguinte com uma tremenda ressaca e 39 ligações perdidas.
Depois de pegar o voo de volta pra casa num estado lastimável, as explicações pelo sumiço são urgentes.
Sua esposa o recebe furiosa e grita, esperneia, mas esperta que é pega o celular e vê a última corrida do UBER para o motel coelho feliz.
Não tem explicação e Agenor nem tem condições de dar. Um fiapo de homem.
Brigas, choros e finalmente a condição para o casamento continuar foi largar o futebol de mesa. Agenor aceitou, nem pensou na verdade, o quarto casamento seria demais.
Desde aquele fatídico brasileiro parado hoje ele acompanha os jogos pela internet, quando toda vez sente uma lágrima escorrer pelo olho. Nem se dá ao trabalho de limpar tamanha é a dor que sente em não mais jogar. Ela desce bem devagar, sorrateiramente, percorrendo uma estrada cheia de curvas no corpo cansado de Agenor e se aloja no peito dele, que só então a enxuga.
E todas as vezes ele repete.
- Meu Deus, o que foi que eu fiz?! O que foi que eu fiz?!




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