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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

RECEBA

RECÊBA, do LIXO ao luxo, Macho Alpha e outras histórias
Escreverei por tópicos já que me disseram que textos longos são cansativos.
1 – Em termos de organização e salão foi um campeonato muito bom. O salão era excelente, grande, fácil de achar a bolinha no chão, você praticamente não batia em ninguém jogando como em salões menores e tinha bastante cadeira pra sentar e ver os jogos.
2 – As mesas achei boas. Maior parte boa, tinham 3 ou 4 que achei ruins, mas que não inviabilizavam o jogo como uma que apitei no Recife. Parece que o pessoal de Florianópolis andou fazendo mesa e ficaram muito boas.
3 – O ambiente do salão é completamente diferente nos dias. Sexta eu achei meio morno, faltava um tempero, estava um campeonato meio chuchu. Sábado é outro campeonato, vira uma feijoada, outro clima com a entrada dos grandes jogadores. Para quem gosta de NBA é como comparar a temporada regular com os playoffs.
4 – O grito mais legal que achei eu não ouvi. Explico, conversando com o botonista mais simpático do Brasil ele me disse que quando me enfrentar vai gritar.
- RECEBA COCÃO.
Achei sensacional, quero gritar sempre agora, pena que eu não faço gol, mas quem gritar contra mim terá meu respeito. Não esqueçam:
- RECEBA COCÃO.
5 – Escrevi outro dia sobre a piscina, que o botonista olha pra lá, pensa que vai cair, dar um tchibum maravilhoso e eis que quando se dá conta já está fazendo o check out. Eu não vi ninguém usar a piscina.
6 – Em algum momento do campeonato me falaram que tinham 11 gaúchos e 10 baianos, algo assim. No momento seguinte, na outra fase, quase todos os gaúchos foram eliminados. Conversamos muito sobre estilos de jogo e no próximo tópico o que eu apreendi.
7 – Eu reparei em Recife isso. As principais diferenças que vejo no estilo de jogo, vou colocar o Nordeste aqui no mesmo conjunto porque não vejo diferença entre os estados (posso estar errado), é o corte passando, a recuada como uma arma para contra-atacar e a cavada para ataque e não como salvação; É muita coisa, um estilo bem diferente de jogo. Entre os grandes todos sabem chutar e dar tapa, mas saber escolher entre tapear e recuar, ou cavar pra ferrar o outro em 5 jogadas, isso pouquíssimos sabem.
8 – A final nunca é o melhor jogo. Na verdade em poucos esportes é, basta lembrar das copas do mundo, por exemplo Brasil Holanda na semi em 98 e Brasil x França na final. A final foi boa claro, mas não tanto quanto o jogo que vi na semi, ou o que vi nas quartas.
9 – Dentro dessa linha que a final não é o melhor jogo parece que as semelhanças com o futebol não terminam por aí. Nas semi aparecem algumas surpresas, como Croácia em 2018, Turquia em 2002 e Bulgária em 1994. Claro que jogando muito bem, mas não deixa de ser uma surpresa.
10 – Senti falta de uma renovação. Vejo poucas pessoas novas jogando e muito poucas crianças e adolescentes. Vi outro dia um senhor falando em um FUT7, acho que era isso, e me pareceu uma porta de entrada mais apropriada para os mais novos. Acho que deveria existir uma escolha de lugares específicos para apoiar como em Santa Vitória do Palmar. Também penso em como vender o esporte. Creio não podemos vender exatamente como um futebol de botão, seria algo intermediário com o xadrez e o futebol de mesa.
11 – Talvez a falta de renovação tenha a ver com o preço. Foi um campeonato caro pra ir, com a falência da Avianca as passagens ficaram muito caras e o hotel foi caro, 259 a diária. Vou falar do hotel depois, por último, já que levei um pequeno chamado pela minha crítica.
12 – Não me segurei e vou fazer um pequeno comentário antes. Se uma espelunca como aquele hotel (em termos de serviços) consegue cobrar uma diária de 259 eu irei abrir uma pousada em Florianópolis e cobrarei 500 a diária quando me aposentar aos 83 anos de idade.
13 – No basquete existe o game winner, uma cesta no último segundo. O Rômulo Mendonça, narrador da Espn que é muito engraçado, grita macho alpha, lebron ladrão você roubou meu coração e outras frases mais que acho sensacionais. No futebol de mesa não nos damos conta mas existem vários desses games winners e não são necessariamente um gol no Final. Eu vi na semi e nas quartas. Fiquei com vontade de gritar como o Romulo Mendonça, gritar macho alpha etc, mas creio que não seria bem compreendido.
14 – Falando em macho alpha eu acho sensacional a jogada de unha. Fico impressionado como o jogador consegue lançar perfeitamente com a unha, milimetricamente. Eu de vez em quando tento imitar. Empino o corpo, encolho a barriga, coloco a unha e o disco não anda 2 centímetros. A minha unha é de almofadinha do Rio de Janeiro. Se eu fosse bater um penalty com a unha precisaria de 34 lances pra bola chegar ao gol.
15 – Qual a grande diferença que vi entre os jogadores? Diria que intensidade e coelho da cartola. Apitei um jogo entre 2 grandes jogadores no qual achei que os 2 jogaram muito bem. Mas, em algum momento deram chance pro outro que os grandes da final não dão. Parece muito com o jogo de tênis. Se você pegar uma partida do top 3 (Nadal, Federer e Djokovic) com jogadores dos top 30 vai ver que o jogo é equilibrado até um 4x4, aí o big 3 começa a tirar os coelhos da cartola, a intensidade aumenta e o erro aparece do outro lado.
16 – Em um post que apaguei falei que o hotel era um lixo. Depois refleti, levei um pequeno esporro e pensei, lixo é uma palavra pesada, então apaguei o post. O Bolsonaro pode apagar, eu posso também. Apesar de na quinta feira o hotel não ter presunto, queijo e a fila do café preto ser parecida com a do BANERJ nos anos 80 (os patetas colocaram uma máquina apenas para o café), apesar do hotel não ter cerveja, apesar de na sexta depois de umas 12 horas com a mesma roupa eu ter chegado no quarto e não ter água (nem minha avó aguentaria meu cheiro), apesar deles se recusarem a atender o telefone para explicar que estava faltando água e eu ficar como um alucinado mexendo nos registros, apesar de a recepção ter o pior atendimento que vi na vida, apesar do meu quarto não abrir com aquele cartão que me deram 12 vezes, eu não deveria ter usado a palavra lixo. Sim, porque eu sei que existe um regionalismo no qual as palavras tem mais força que em outros lugares e a semântica oral é diferente da escrita. Deveria ter utilizado um eufemismo, tipo, o campeonato está um luxo e o hotel um lixo
17 – Dito isso e contrapondo esse regionalismo linguístico que nos coloca em fria acho ridículo o uso da palavra amigo por algumas pessoas que convivo há anos e nem faço ideia da onde moram e muito menos ter tido alguma conversa desarmada de muros. Pode ser que seja uma mera interjeição, mas me soam falsos as orações:
- Ah, o amigo.
- que bom rever o amigo!
- Vamos nos divertir amigo.
Pode ser um regionalismo, mas sempre que o usam faço um olhar 43 de soslaio e penso.
“não somos amigos”
18 - Pelos chutes que vi no campeonato me pareceu que os graus estão baixando. Alguns disseram que a bola nova está maior e mais leve.
19 - Assisti alguns jogos do Dudinha o campeão e o que me chamou a atenção é que ele não erra. Claro, um lançamento mais curto, um corte que não fica na mesa, mas no máximo isso. Parabéns, tem muita mão e é um cara atencioso.
20 – Achei o campeonato fraco de negociações. Pouca coisa exposta e nada de espetacular.
21 – Negociar só atrapalha. Próxima vez só dois times e pronto, nada de perder tempo. No máximo uma olhadinha.
22 – De manhã não tinha café, salgado, nada para venda. Achei engraçada a explicação que teriam que por um funcionário de manhã e geraria custos. Mas não geraria receita também?
23 – Fui eliminado tanto no brasileiro de cavado quanto no de liso por um bonachão que me venceu por 3 x 0. Ele pediu para que eu colocasse aqui essa observação, parabéns para o bonachão e grande artesão.
24 – Encerro meu ano botonístico com esse campeonato. Para mim o liso é disparada a regra mais apaixonante. Disparada a mais difícil, em um primeiro momento acho a menos atrativa, diria que é a regra iceberg. Pode ser que em um primeiro momento você perceba apenas uma pequena ponta. Para realmente gostar tem que mergulhar fundo, insistir, aguentar a porrada e aí sim perceber que aquele ponta que enxergou na superfície é apenas uma pequena amostra do que o iceberg tem a te oferecer.
25 – Pelo que vi rapidamente os jogos foram transmitidos oficialmente. Isso é uma grande iniciativa da Federação.
26 - - RECEBA COCÃO.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

voltas e voltas




Voltas e voltas
Faltando uma semana para o campeonato ele já olha a previsão do tempo.
Florianópolis, chuva.
Não tem problema, pensa. Sair do hotel no máximo para um chopp. Lá a diversão é outra.
A trajetória até lá foi improvável. Um horário de almoço à toa, uma loja de botão com um velhinho simpático, a curiosidade de entrar e reviver a infância, o toque toque com pessoas bem diferentes e daí o Brasil, campeonatos afora e uma certa fissura talvez exagerada.
Saudável?
... Não sabe responder. ...
Certo é que ainda tem um pouco de vergonha de falar para amigos e afins...
- Estou viajando para um campeonato de botão...
Lembra da infância, quando as convenções são muito mais difíceis de serem quebradas. Da mochila da Company que todos do tradicional colégio usavam, da camisa da Company também e sabe se lá mais o quê que nos era imposto em convenções silenciosas e faladas.
- Dane as convenções;
Talvez a ojeriza pela padronização de comportamentos venha daí. Talvez sempre tenha sido assim, como alguns gostam de falar.
- Polêmico.
Nada. Tímido, prefere ficar na sua, olha de longe e observa. Só observa.
No começo tremia por jogar com jogadores famosos, bem melhores. Hoje gosta de jogar com os melhores, treme por ser cagão mesmo. Mas treme e vibra pela oportunidade de estar lá.
Repete constantemente a frase.
- A vida está passando....
E está. Novembro, parece que ontem foi Janeiro. Aquele ano interminável do colégio passa hoje em um sopro.
Teve alguns percalços. Um certo desânimo as vezes, joga mal, enlouquecido dizem alguns, muitas regras outros. Teve a famosa.
- Não sabe jogar, não pode apitar.
E teve mais uma, essa ele até achou engraçada.
- Não é um cara de equipe.
Pensou, que porra é ser um cara de equipe? Mas deixa pra lá.
O saldo, contudo, é altamente positivo. Não de vitórias, gols, nada disso. São as lembranças. Não é o gol, é o que vem antes, a preparação, o sentimento. A régua que treme demonstra que há paixão naquilo.
Hoje vai tentar voltar pro Jiu Jitsu. Há 20 dias deram como certo que iria operar. Pensa nas frases feitas que detesta e cita uma.
- O mundo dá voltas.
É rídicula, reflete. Mas, vamos para mais uma.
Que venha Florianópolis.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Campeonato Gaúcho



Depois de quase 9 anos morando no Rio Grande do Sul é natural ter alguma influência daqui. Minha visão sobre o futebol daqui era distante, acompanhava libertadores e brasileiros apenas, mas passei a gostar do Gauchão e da história dos times conforme os anos se passaram.
Claro que o futebol de mesa ajudou, reparei que tem muito Brasil de Pelotas, já vi Guarany de Bagé, São Paulo de Rio grande, Renner, enfim, cada vez que via um time diferente me atiçava a curiosidade.
Hoje dos clássicos brasileiros que mais gosto o Gre -Nal está entre os 3.
Ah, vocês sabem por que o nome Gre-Nal?
Foi uma criação do jornalista Ivo dos Santos Martins, que simplificou o nome dos times no Correio do Povo.
Copiei desse livro claro, que por enquanto estou achando fantástico.
Comprei na feira do livro de Porto Alegre, vamos prestigiar.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

botões gauchos

No sul os botões normalmente são escavados. Aqui também se valoriza o galalite, o verdadeiro.


liverpool

time em ficha de poker feito pelo Fabio.

acho o mais bonito, ou um dos mais, que tenho.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Salgema

Arrumei um no rio. Meu amigo tinha mais 6, mas é daqueles apegados, que leva pro além. Inclusive ele sacramentou que o botao é por causa da Salgema. Seu pai trabalhava no bndes e ganhou da empresa como um brinde.



brasileiro de dadinho



Leve e vamos pra mais
Confesso que fui sem nenhuma expectativa para o brasileiro de dadinho por várias razões (na realidade eu não queria ficar em último). Nos últimos 3 meses joguei umas 8 vezes no máximo (difícil conciliar as regras), no brasileiro do ano passado fui um dos últimos e na quinta feira brincando de jiu jitsu num bar no Rio me machuquei feio e na sexta mal andava.
Então, o meu resultado (fui pro mata mata da prata e saí na primeira) foi motivo de singela comemoração interior e a certeza que dá pra ir um pouco mais longe. Joguei bem leve, sem preocupação e acho que isso ajudou.
Gostei muito do campeonato. Achei o local muito bom, apesar de algumas reclamações entre o espaço das mesas. Para quem joga a brasileira como regra principal achei bem tranquilo esta questão de espaço. Contudo, faltou café, todo campeonato tem que ter café no local. Pra mim o ponto negativo mais forte.
As mesas pra quem transita entre as regras como eu sabe que são sempre a mesma coisa. Elas vão ser díspares e pra mim faz parte do bom botonista se adaptar a elas. Eu, por exemplo, tive tremenda dificuldade nas novas, nas antigas joguei bem melhor.
A organização achei muito boa. Não tenho nada a reclamar (somente do café), elogios aos montes, quem se mete na organização sempre perde boas colocações nos torneios. É muito cansativo.
Uma cena que me chamou a atenção foi de um rapaz que tinha um último chute contra o João Carlos Da Silva Nunes. Achei a cena muito parecida com a que vi no brasileiro de cavado quando um menino teve um último chute contra outro menino. Em ambos eles perderam, mas sem dúvida a emoção depois do lance foi espetacular. Mudamos de endereços e regras, mas não de sentimentos.
Por falar em regra achei interessante os estilos de jogo. Tem o da jogada programada, tem o da reza (passou,rezou e chutou), tem os que realmente chutam bem de longe, enfim, uma infinidade.
Ainda acho falha a questão de não ter juiz nos mata mata (nada a ver com meu jogo) e acho a regra meio obscura em alguns pontos. Mas, opinião de um iniciante.
Algumas pessoas me conheciam pelo face, leem as besteiras que escrevo, e vieram me cumprimentar. Pelo botonismo vamos fazendo amizades e conhecendo cidades pelo Brasil.
Aparte, tive um primo que morou em Juiz de Fora durante uns 10 anos e nunca fui visitá-lo. Isso que eu morava no Rio. Agora que moro em Porto Alegre encarei avião e carro para um campeonato de futebol de mesa. Espero que ele não leia isto.
Algo que me chamou bastante a atenção, é empírico porque não tenho os resultados, é como a média de gols diminui conforme as fases avançam. Emocional conta muito.
Tive excelentes companhias na viagem. Três pessoas que não tinha contato quase e que foram divertidíssimas na viagem mesmo com a minha ressaca de sexta e as dores no joelho e o Gustavo, amigo meu e que digo que foi o principal cara para colocar a regra no Rio Grande do Sul. Gustavo, não precisa mais me chamar de Senhor Fortes, pode ser Cocão já.
Enfim, vamos por mais, caminhando contra o vento e a favor.
Ah, o tal do torresmo é muito bom mesmo.
O texto tá uma zona, mas escrevi conforme me lembrei.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A vida é um cadarço


Texto mais antigo. outro dia disseram que este blog é  uma zona, olha, é por aí mesmo. É um blog de memórias, de um administrador concurseiro que está cursando história, de um futuro antiquário e assim vamos.



A VIDA É UM CADARÇO        

Meu cadarço está invariavelmente desamarrado. Estou sempre abaixando para amarrá-lo e nesse curto intervalo de tempo em que dou o nó penso: minha vida é um cadarço desamarrado.

Por mais que eu tente, capriche, mude as técnicas, a postura, o jeito, ele vai desamarrar. Desamarrado ele me fará tropeçar; E assim caminho e tropeço, abaixo e penso, mas todo dia sei que terei de amarrar meu cadarço.

O cadarço é como a vida. Algumas pessoas, nas quais me incluo, estão sempre tentando dar o nó definitivo. Aquele que não desatará. Que não o fará mais abaixar, repensar e rememorar. 

Outras pessoas caminham longos períodos com os mesmos nós. Suas vidas são sem percalços, uma função linear com poucas curvaturas. Existem ainda as pessoas que nem cadarço tem. Não querem emoções, alegrias ou tristezas. Querem o óbvio. Não querem iguarias, surpresas ou imprevistos. Querem o gosto conhecido. Uma maneira de viver morrendo ou de morrer vivendo.

Olho para meu cadarço com rabo de olho. Feio, lambuzado, com marcas, nós mal dados e pedaços faltando. Estou sempre num abaixar e levantar. Até o dia em que não levantarei mais. Cansarei disso. Deixarei assim, como aquelas doenças que não tratamos. Um dia ela aumenta, evolui e nos mata. Farei assim, não mais o amarrarei. Chega de decepções e de tropeços. Meu nó nunca será perfeito, pois a vida é imperfeita demais. Se eu souber que está desamarrado, tudo será mais fácil. Acabarei com o imprevisível.

É ele que nos mata. Vou para a turma dos sem cadarço. Não mais me curvarei, pois abaixar pressupõe poder levantar.


Tomo essa decisão amarrando meu cadarço. Desvio meu olhar e meus olhos vão ao encontro de uma criança. Reparo em seus pequeninos tênis também desamarrados e no sorriso do seu rosto. Ela tenta amarrar de forma atabalhoada e sorri para mim. Eu retribuo, olho para o cadarço e penso. Ainda posso levantar mais vezes.

Amigos




Amigos que vamos cultivando ao longo da vida. Foto de Teresópolis,  há uns 15 anos. O saudoso pernil, confia em mim, não está mais entre nós.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

times que tive



Ah, Há vida aos 40

Há vida aos 40

Os 40 são emblemáticos. Um ponto de inflexão que contemplamos quando temos nossos 15, 16, 21, 30.

Normalmente cremos que estaremos ricos. O sucesso financeiro é inevitável, basta caminhar até os 40. E além de ricos estaremos resolvidos, seja lá o que isso signifique.

Lembro que há muitos anos conversando com um colega do Santo Inácio, Gustavo Simões, manifestava meu inconformismo de faltarem incríveis dois anos para nos formarmos. A noção de tempo é algo que muda com a idade. Um ano letivo parecia uma eternidade nos meus tempos de colégio; hoje estamos em junho e eu penso que o ano novo foi ontem.

Não sei o quanto mudamos também. Outro dia numa dessas discussões de WhatsApp lembramos de um amigo tremendamente pão duro quando tinha seus 15 anos. Eu defendi a tese de que ele pode ter mudado, porém fui voto vencido. Meus amigos do grupo crêem que esta parte do caráter dele era irrevogável, estava formada e consolidada. Eu não acredito nisso. Evidente que não sei o quanto as pessoas mudam e isto é algo completamente pessoal, mas acredito em mudanças radicais para o bem e para o mal.

As vezes penso que pessoas tidas por mim como insuportáveis, enquanto mais novo, podem ser extremamente agradáveis hoje; sinceramente, não sei.

Este não sei é algo estranho também, meus 40 deveriam ter trazido uma sabedoria incontestável, pelo menos achava isto. E hoje vejo que minhas interrogações são maiores que antes. Não interrogações que perturbem meu sono, mas pequenas perguntas intermináveis cujas respostas sei que não acharei. Sou da linha que o Universo não é perfeito, não é uma equação matemática maravilhosa altamente complexa e interligada. Se o universo tem um milhão de acasos, eu também os tenho.

Acho engraçada a transição da idade. Em alguns lugares, taxi, uber, trabalho, começo a ser chamado de senhor. Olho para o espelho e me acho um jovem esplendoroso, mas o senhor está cada vez mais presente na minha vida. Senhor para cá, senhor para lá, e começo a me acostumar, não gosto, mas parece que os 40 trazem as marcas inexoráveis do tempo. Eu vejo cabelos brancos, uns kilos a mais, e um rosto de galã; parece que não.

Recordações, sim, já tenho muitas: Costumava perguntar para meu pai - como era na sua época, Pai? Assuntos diversos, futebol, colégio (estudamos no mesmo), Brasil, a cidade Rio de Janeiro, economia. Um dia, ele se virou para mim e disse.

- Minha época é agora.

Sim, ele deveria ser mais novo que eu quando eu fazia esta pergunta. E hoje, vejo que minha época é agora.

Não cabe colocar na vida pontos de inflexão, idades temerárias ou algo do tipo.

Vejam, não falo de um levar a vida de uma forma prosaica, excessivamente tranquila, sem planos, mas eis que estou quase no final de um texto que não planejei. Escrevi, sem pensar, refletindo apenas devagar e pondo palavras desajeitadas ao longo de um papel. Não tenho a menor ideia da onde quero chegar. Não planejei um final surpreendente, algo para chamar atenção, uma reviravolta súbita. Apenas escrevo como vivo, mais lentamente, sem planos de outrora de conquistar o mundo.

Tenho mais perguntas do que respostas, mas tenho ciência hoje que não existe um ponto definitivo, uma linha que separa o sucesso do fracasso.

Tenho 40, que venham os 50.

Meu afilhado

 Meu afilhado jogando futebol de botão. Algo cada vez mais raro nas novas gerações.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Pai, é o novo Pelé?

Todos concordam que Pelé foi um grande jogador. Existem discussões se foi o melhor, se no período em que atuou era mais fácil, e até o fato de ter jogado para sempre no Brasil (desconsidero o Cosmos) denigre parte de sua carreira. 
OK, considero todas as discussões válidas. Mas Pelé para mim significa muito mais que isso. Significa um projeto de nação. 

Nasci em 1976. Começo a ter memórias do futebol em 82 como escrevi em outro texto, mas 86 é o marco em que começo a acompanhar a seleção. Um time de ressaca é como defino àquele escrete, ressaca de 82. Um bom time, muito melhor do que vários que tivemos, mas parece que era uma geração fadada à derrota. Pois bem, eu com meus dez anos começo a perguntar ao meu pai a cada bom jogador que surge:

- Pai, é o novo Pelé?

Lembro de um campeonato de aspirantes que a TV bandeirantes transmitia. A cada jogada mais elaborada, gol bonito, eu repetia a pergunta.

- Pai, é o novo Pelé?

E lembro de um jogo em que Elivélton, aquele atacante que caía pela esquerda no São Paulo e jogou muito bem um amistoso na seleção me fez vir com o questionamento de Juquinha de novo.

- Pai, é o novo Pelé?

Pois bem, agora, bem mais velho, surge a pergunta. O que eu queria dizer com isso?
Era apenas um jogador excepcional que eu queria ver surgindo novamente nos gramados brasileiros e que eu não tive a oportunidade de ver?
Não, claro que não.

Pelé pra mim é o que poderíamos ser e não somos. É o Brasil que deu certo. Ora, façam-me o favor os mimimi de plantão que já invocam manchas do passado, filhas não reconhecidas ou filho traficantes, casos amplamente divulgados pela mídia. Não trato disso aqui. Trato do que ele representou para o país. Uma nação vira lata em 50 passa a Rottweiler em 58. Um menino, sim, um menino de 17 anos mostra o caminho do sucesso. Suas vitórias, a raça, os gols nas duas finais que participou, o soco no ar, o revide da porrada (Uruguai 70), tudo isso transcende aquelas 4 linhas do gramado. É muito mais que isso.
Pelé surgiu na época em que este país crescia. Brasília, milagre econômico, saiu da faculdade tinha emprego. Por alguma razão naquela simplicidade de quando se é juvenil associei Pelé ao Brasil, ao crescimento, a uma nova era. Sim, pois se estou me delimitando no tempo aos anos 80 estamos tratando aqui da década perdida, do plano cruzado que fracassou (alguém lembra dos fiscais do Sarney? ). Estou falando do crescimento da violência e claro das copas perdidas de 82, 86 e 90.

Nos meus questionamentos da imaturidade o surgimento de um novo rei mataria as duas equações. Meus pensamentos estavam errados, mas não de todo. Um novo Pelé não irá automaticamente nos mostrar o caminho como nação. Mas, tenho certeza, sua excelência, sua gana pela vitória serão para sempre um balizador de como devemos ser nos mergulhos profissionais e pessoais que fazemos na vida.
Recentemente ele apareceu na TV. De cadeira de rodas, em nada lembra aquele que dava o soco no ar. O tempo é implacável para todos, mesmo para quem vai existir sem mais viver aqui.
Eu te agradeço em vida

“Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”, Nelson Rodrigues.




Praça XV

PRAÇA XV

Hoje me ofereceram um relógio em troca de um time de botão. Ora, eu não uso relógio há uns 10 anos. Claro, a pessoa não sabe disso. Foi educada, ofereceu, eu recusei, beleza. Uma tentativa rápida de escambo permitida pelas redes sociais, já que encontros não mais são necessários. 
Porém, existem os chatos. Tem um que sempre diz que tem uma proposta irrecusável. Ora, se fosse irrecusável já teria negociado com alguém. Cara chatíssimo, esse se eu tiver que jogar um dia dou o WO. Não tem como jogar com uma figura dessas. Bloqueado nos dois perfis me achou no whats. Amaldiçoo quem deu meu contato.

O escambo antigamente era ao vivo. Muito mais interessante eu acho. Gosto de conversar, quando a pessoa tem conteúdo. Quando não tem eu mudo o assunto, e depois vou embora. Dizem que tenho déficit de atenção; Pode ser.

Meu pai costumava ir a Praça XV e me levava. Se eu soubesse que iria gostar tanto de botão ia chorar que nem um doido pra ele comprar naquela época. Eu achava um porre a Praça; Um calor senegalês e só coisa velha. Mas tinha preciosidades. Hoje, pelo que sei, a praça é cara, o calor continua, e está muito maior.

Meu pai gosta de escrever, como eu.

Neste pequeno texto abaixo ele conta sobre os achados na Praça XV. Quando havia algo lá para achar.

CELSO LARA BARBERIS

Comparecer nos sábados à feira de antiguidades da Praça XV qualifica o visitante a disputar o troféu "Cocar de Ouro". Programa de índio da mais alta categoria. A feira perdeu qualidade, tornou-se gigantesca no tamanho e proibitiva nos preços. Foi-se o tempo em que os membros da ACCCDPBS(Associação dos Compradores Compulsivos de Coisas Desprezadas pelas Pessoas de Bom Senso) para lá acorriam na expectativa de encontrar raridades irresistíveis, a preços convidativos. Ninguém mais faz referência à lenda urbana, propagada em tempos remotos, de que ali alguém teria comprado um belíssimo quadro de Di Cavalcanti pelo preço de um Eski-Bon.

Durante muito tempo integrei a associação dos compradores compulsivos, mesmo ciente de que estava perdendo tempo e contrariando a lógica. Achava que iria encontrar mais uma Parker 51, estalando de nova. Possivelmente na cor verde musgo, difícil de encontrar. Ou um punhado de Dinky Toys novos em folha, acondicionados em caixas originais. Uma coleção completa e encadernada da "Revista de Automóveis"...Tudo barato. Muito barato.

Pessoas com juízo sabem que nada mais disso acontece. Nos bons tempos, em que um número menor de barracas sofisticadas ficavam dispostas em volta do restaurante Albamar, fui agraciado com algumas compras realmente interessantes. A começar por um programa oficial do Circuito da Gávea de 1954, último realizado, vencido pelo Barão de Graffenried. Novinho. Um achado.

Destaque, também, para um Rolex Submariner. Alguém imagina encontrar hoje uma preciosidade dessas na Praça XV ? Pois eu encontrei. Na barraca de um senhor muito simpático e a um preço convidativo. Tomei coragem e perguntei se poderia pagar em três parcelas. O vendedor disse que sim. Me dei conta, no entanto, que só um maluco entregaria um Rolex em troca de três cheques assinados por um sujeito desconhecido.

Me antecipei às preocupações do vendedor e sugeri que levasse o relógio na segunda-feira seguinte ao meu trabalho, na Rua do Ouvidor. Isso foi feito. No dia aprazado, um terno azul marinho e uma porção de Gumex conferiram-me a devida credibilidade para concretizar o negócio.

Bem depois, descobri que a compra do relógio havia sido um negócio ainda mais proveitoso do que eu havia suposto. Meu Rolex era um "Red Submariner". Alguns dizeres que constam do seu mostrador estão gravados em letras vermelhas, ao invés das brancas usuais. Trata-se de uma raríssima variação, que mexe com a libido dos apreciadores da marca.

O ponto alto de minhas incursões à Praça XV ainda estava por acontecer. Anos mais tarde, num sábado nublado, estávamos eu e minha mulher empenhados em nossa pesquisa quando ela se aproximou de uma barraca a ser, a meu juízo, solenemente ignorada. Dezenas de xicrinhas, perinhas de prata, tacinhas de cristal, e por aí vai. "Coisa de viado...", diriam certamente meus amigos. Indócil para afastar a Beth daquele valhacouto de inutilidades, deparei-me com um prato bonitão, de prata, com algo incrustado no meio da peça.

O "algo dourado" era uma baratinha dos anos 50, semelhante a uma Maserati 250 F. Uma beleza.

Nervoso, peguei o prato e li o que estava nele gravado: "III 500 Quilômetros de Interlagos. Patrocínio da Metal Leve e Folha de São Paulo. 7 de setembro de 1960. Campeão".

Definitivamente tenso, dei-me conta de que havia encontrado, em plena Praça XV, o troféu ganho pelo vencedor da mais importante prova automobilística disputada no Brasil no ano de 1960. Quem seria ele? Camilo Christófaro? Chico Landi? Roberto Galucci? Celso Lara Barberis? Ciro Cayres? Caí na real e concluí que aquela era uma dúvida a ser esclarecida em casa. Importante, naquele momento, era comprar o troféu. O que faria se o dono da barraca me pedisse um preço absurdo, sabedor da preciosidade que tinha em mãos? "Quanto? 250 reais? Tô achando o preço um pouco pesado. Não dá para fazer por 150? 200? O.K., eu fico com ele". Negócio fechado, prato embrulhado, só aí me dei conta do olhar de impaciência da Beth, ávida por encontrar mais xicrinhas.

Cheguei em casa exultante. Procura daqui, pesquisa dali, mato a charada no excelente livro "Chico Landi de ponta a ponta", do meu amigo Paulo Scali. No capítulo que trata das proezas do grande Chico Landi no ano de 1960 consta: "Vice-campeão dos 500 Km de Interlagos"

O vencedor? Celso Lara Barberis.

Dúvida esclarecida, dediquei-me a pesquisar a carreira de Barberis. Recorri à "Revista Brasileira de Automóveis" e à Internet, especialmente o site do Jan Balder.

Celso nasceu em São Manuel, nas proximidades de Botucatu, em 28 de fevereiro de 1916. Filho do médico e fazendeiro de café Joaquim Orestes Barberis, italiano que chegou ao Brasil em 1914, e de Dona Maria Augusta Lara. Grande desportista, nadou e remou no Clube de Regatas Tietê e no Floresta. Campeão brasileiro no single skiff, foi convocado para representar o país nos jogos olímpicos de 1936. Uma intoxicação levou-o ao hospital e ele não pôde viajar.

Foi, também, um destemido lutador de boxe. Em 1949, julgando-se "velho" para remar, iniciou suas atividades automobilísticas. Primeiro, com um Alfa Romeo Sport. Depois, com um Cisitalia 1300, que comprou para disputar o campeonato paulista de 1952. Com esse carro venceu o Circuito da Quinta da Boa Vista na categoria "Sport-Adaptados até 1500 cc".

Destacou-se numa série de provas em Interlagos, guiando inicialmente uma Ferrari de 2 litros e, posteriormente, uma de 3000 cc. Venceu as "Duas Horas de Velocidade de São Paulo", chegando em segundo lugar na prova que comemorou o IV Centenário da cidade. Em 1957, disputou o "Triângulo Sul Americano", enfrentando de igual para igual adversários do porte de José Froilan Gonzalez. Participou em três ocasiões dos "1000 Kilômetros de Buenos Aires". Seu melhor resultado aconteceu em 1960. Um quarto lugar, conduzindo uma Maserati 300 S em dupla com Christian Heins. Vale registrar a concorrência: a prova foi vencida por Phil Hill e Cliff Allison. Em segundo lugar, chegaram Richie Ginther e Wolfgang von Trips. Em terceiro, Jo Bonnier e Graham Hill. Nada mal, não é mesmo?

Em 1957 o Automóvel Club de São Paulo resolveu comemorar os primeiros passos da indústria automobilística nacional e ao mesmo tempo saudar o 7 de setembro. Para isso promoveu os "500 Kilômetros de Interlagos", disputados nos 3.460 metros do anel externo do antigo e saudoso autódromo. Celso Lara Barberis venceu esta primeira edição, com Maserati - Corvette, depois da quebra de Ciro Cayres. Voltou a vencer os "500 Kilômetros" em 1960 e 1961, com Maserati 300 S e Maserati - Corvette, respectivamente.

Em 1963, seu projeto era correr essa prova em dupla com Chico Landi. O carro era um monoposto construído por Toni Bianco e Landi, equipado com motor JK 2000. A confiança na vitória era grande. Tanto assim que chegaram a combinar que Barberis daria a largada e Landi, possivelmente como vencedor, receberia a bandeira quadriculada.

Mas ainda na primeira volta, Barberis foi abalroado pela Maserati- Corvette de Amaral Junior, na curva que antecede o retão de Interlagos. Seu carro foi de encontro a um barranco, capotando várias vezes. O piloto foi projetado à distância, teve fratura de crânio e esmagamento de tórax. Ninguém teve dúvidas sobre a culpa de Amaral Junior no episódio. Ele nunca mais foi visto sequer nas proximidades de uma pista de corridas.



Estou sempre limpando e dando polimento no troféu do grande campeão. Faço mil conjecturas, mas não consigo imaginar de que maneira ele veio parar no Rio de Janeiro, na feira de antiguidades da Praça XV. Mariozinho de Oliveira, grande amigo de Barberis, vibrou com a minha aquisição. mas não teve como colaborar para a elucidação desse mistério.




terça-feira, 8 de outubro de 2019



Acho que o botão mais legal que tive. vendi meio na moleza, tava sem grana.

Esse perolado acho sensacional, não sei fabricante, tampouco ano de fabricação.

Álbum de figurinhas






Pra venda....

Ou troca por futebol de botão

várias marcas do tempo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Cosmos







Botões feitos em galalite, apenas os de pin, e outros de acrílico normal.




Um flamengo amarelo é estranho, mas foi o primeiro uniforme do time, contudo sem ser  usado em jogos oficiais. Apena reproduzo o que li.

Time feito em paladon, o artesão foi o Gabriel, uma pessoa bastante querida no meio aqui no Rio Grande do Sul além de grande artesão.


Há um Rocky Balboa dentro de nós

Há um Rocky Balboa dentro de nós
Antes de ver o filme pensei, devo escrever algo sobre ele.
Planejei, comecei a escrever e nada. A grande verdade é que não saiu nada. Gostei do filme, retomei o passado, me lembrei de meus 6 anos de idade rebobinando a fita de vídeo cassete para ouvir a Adrian dizendo win Rocky, win, mas realmente não consegui escrever nada sobre o filme, pelo menos de imediato.
Hoje, depois de refletir um pouco, saiu algo, simples, mas digamos que sincero.
Rocky para mim foi um marco na infância. Claro que minhas concepções do filme mudaram com o tempo. Se antes eu via a luta como o principal, os treinos, a música, hoje vejo que a história de um homem querendo uma chance, lutando para se levantar mais uma vez e tendo dúvida sobre suas condições, seu potencial e seu lugar no mundo me soam muito mais familiares.
Rocky e suas inúmeras sequencias, e agora com o spin off Creed, é a história do se levantar. Sim, a vida de facebook todos nós sabemos que não existe, ou pelo menos deveríamos saber. Viagens, restaurantes, sorrisos constantes, isto é parte da nossa história, mas não somente. Inúmeras vezes a vida nos apunhala, dá reviravoltas e por vezes pensamos o que devemos fazer.
Aí entra a grande lição do filme.
One more round, disse o personagem no Rocky V.
A lição do filme, óbvia e linda, é essa. Mais um round. Lutar enquanto podemos, enquanto temos força, e continuar a caminhada mesmo que por vezes o caminho pareça extremamente nebuloso e sem sentido, injusto até.
Hoje mesmo tenho um amigo meu, daqueles quase irmão, que está passando por uma situação daquelas literalmente de nos deixar na lona. Um dia liguei para ele e pensei, não vou chorar, vou apenas dar força e dizer que estou ao lado dele mesmo que há 1.500 km.
Chorei.
Num outro dia, eu mais calmo, liguei para ele e foi ele que chorou. Cada um estava à sua maneira e guardadas as proporções na lona naquele dia. Ouvindo a contagem e ela se aproximando perigosamente do 10.
Mas, nós dois sabíamos que era passageiro e temos que nos levantar.
Em Creed 2 Rocky pergunta ao seu pupilo;
- Por que você luta?
Ele não sabe. Acha que sabe, mas não;
E aqui está, talvez, a grande lição desse filme. Saber as razões pelas quais caminhamos, tentamos e por que lutamos é tão importante quanto lutar.
Uma vez eu disse para uma tia minha, estou deixando a vida me levar.
Ela respondeu, ok, mas não deixa muito. E vejam, claro que não temos controle sobre muitas coisas que nos acontecem, e muitas coisas nos fazem totalmente perder a fé, mas esta passividade do deixa a vida me levar é das maiores idiotices que existem. Mesmo que muitas coisas estejam foram do nosso alcance sempre há um resquício que está, e aí devemos lutar como aquele lutador da Filadélfia que em algum momento teve a grande chance da vida dele. Temeu, treinou, duvidou e lutou.


E aproveitou.
One more round, Rocky.








sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Fluminense

Alguns dos botões que fui comprando ao longo dos anos. Fluminense é fácil de achar, então tenho muitos.

87 passos

                         87 PASSOS       

Era uma criança daquelas silenciosas, mais introspectiva, sem tantos amigos. Porém, tinha uma alegria que supria qualquer lacuna sentimental.

Acordava e escovava os dentes correndo, já pensando nos passos. Eram 87, contados todos os dias, até a banca inscrição modelo B, número 45, quarta inspetoria, ou simplesmente a banca do seu Hugo. Um caminho feliz, com cumprimentos aos porteiros e abelhas verdes a minha volta.
Seu Hugo era um senhor baixo e de sorriso largo. Não tirava aquele sorriso do rosto. Sua banca, simples como ele, era o sustento de sua família. Não dava muito dinheiro, imagino, pois ficava numa rua de ricos e ricos não andam a pé. Acho que ricos nem gostam de banca e as assinaturas começavam a crescer.
Eu era rico, mas amava aquela banca. Meu primeiro contato com a leitura, hoje uma obsessão, foi com os quadrinhos. E o seu Hugo, longe de ser um entusiasta, sabia tudo que eu gostava, quais revistas saíram e os lançamentos que poderiam me interessar. Comecei com os quadrinhos chamados infantis. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tio Patinhas. Cresci e fui para os heróis. Homem Aranha e seus problemas existenciais, Batman, Super Homem e a solidão característica do ser diferente. E havia a conversa com meu amigo. Falávamos muito de futebol e política. Duas paixões em comum, numa época em que o Brasil se abria politicamente e não ganhava uma Copa há tempos. Aquela banca foi meu primeiro emprego também, durava meia hora no máximo, é verdade, mas era eu quem cuidava dela quando seu Hugo ia ao banheiro.
Com o tempo comecei a desviar os olhos dos quadrinhos para as mulheres peladas, mas faltava-me coragem para pedir pelas “revistas proibidas”. Seu Hugo, contudo, não era bobo.
- Coisa boa, né – mostrando a capa da revista.
- Sim – respondi completamente sem graça.
- Pode levar se quiser.
- Tem minha mãe...
- Compra o jornal e faz assim, oh...
Mostrou-me o óbvio. Colocar a Playboy dentro do jornal. E assim o fiz. Levei a Mara Maravilha para casa e me acabei. Ainda posei de garoto intelectualmente precoce, comprando o Jornal do Brasil, um jornal mais intelectual do que O Globo.
E assim os anos passaram. Eu nunca deixei de fazer os 87 passos. A frequência não era mais a mesma, é verdade, a caminhada ao encontro do meu amigo e das minhas fantasias deixou de ser diária, virou semanal, às vezes nem isso. Os estudos aumentaram, fiz amigos, ampliei meu mundo. Os passos aumentaram e começaram a ir para outras direções. O hábito diminuiu, contudo não morreu, até uma manhã de 1994.
Um dia cheguei à banca e ele não estava lá. Sua esposa o substituía, algo que acontecia com alguma frequência, mas acontecia, então não me preocupei. Uma semana depois, ao voltar à banca, a vi fechada. Isso nunca tinha acontecido e me preocupou. Voltei ao passado e o trajeto de novo virou minha rotina diária. Os 87 passos. Dessa vez de forma rápida, preocupada, não para comprar revistas, mas para ter notícias do meu amigo, meu primeiro amigo. Todos os dias esperava ver a banca reaberta e conversar com seu Hugo, como antes, sem pressa. Dar detalhes da minha vida e saber detalhes da dele.
Esse dia nunca chegou. A notícia, que de certa forma esperava, veio. Seu Hugo morreu. Um protagonista da minha vida, um amigo se foi. Nunca me despedi. Nunca disse um tchau. Nunca o agradeci pelas conversas e jamais disse que ele foi importante para mim. Nunca soube da vida dele na verdade, dos sonhos, tristezas e alegrias.
A banca ficou fechada por uns dois meses e reabriu. Com a mesma cara, mas sem aquele sorriso largo. Minhas idas diminuíram cada vez mais. Passei a assinar muita coisa, comecei a trabalhar, namorar e ter amigos. Cresci, casei e mudei. Minha mãe, contudo, nunca saiu da rua dos 87 passos.
Em um desses almoços familiares, resolvi visitar a banca, depois de muitos anos. O trajeto familiar, os porteiros alguns os mesmos, as abelhas verdes não mais. De longe já vejo a mudança. Lataria maior, a inscrição não mais existe, uma propaganda gigante ocupa a parte de trás da banca. Chego e vejo uma variedade de revistas enorme, geladeira, cigarros, balas. Os quadrinhos em um canto, escondidos. Entro constrangido, como que procurando seu Hugo, para uma última conversa. Quero contar a minha vida, quanto as coisas mudaram e como acabamos sempre no mesmo lugar. Como a criança não nos deixa. Pensamentos me dominam e meu olhar perdido dentro da banca talvez incomode o dono. Com um sotaque italiano me pergunta:
- O senhor está procurando alguma coisa?
- Sim, procuro, mas não está mais aqui.




Vai que cola.

Vai que cola
2002 – 2003
Resolvi fazer concurso depois de ser demitido do hospício onde trabalhava. Ainda soa meio estranho ser demitido de um hospício, mas foi o que ocorreu. Logo depois parecia que eu tinha arrumado um emprego, numa clínica de oncologia. Fiz uma entrevista e o dono disse que eu estava contratado, mas ainda iríamos apurar umas arestas. Fiz mais uma entrevista, depois mais uma, até que na quarta entrevista, num sábado pela manhã, ele não me recebeu. Fiquei lá esperando umas duas horas, fui dispensado pela secretária e depois nunca mais ele entrou em contato comigo.
Nunca soube o que aconteceu.
Depois da decepção a ideia de fazer concurso que já estava bem amadurecida foi enraizada de vez. Resolvi, vou fazer e não importa o que acontecer só paro quando passar.
Eu era bem metido. Estudei num colégio bom e fiz uma faculdade fraca, de administração. Quem estuda administração sabe que você vê tudo e não aprende nada. Foi assim comigo.
Mas, eu lia bastante e achei que isso era suficiente. Com dois meses de estudo no curso gabarito do Rio tendo visto algo de direito constitucional, administrativo e outras matérias fui fazer concurso pra CGU, Controladoria Geral da União.
- Pensei, vai que cola.
Era um sábado de sol daqueles terríveis do Rio de Janeiro - eu tinha um churrasco no mesmo dia me tentando -, contudo realmente acreditava que tinha chances no certame e meu "esforço" seria coroado. Sentei minha bunda naquela carteira apertada de estudantes de 12 anos de idade e abri a prova.
Não sabia fazer nenhuma questão. Nenhuma. Não sabia começar nenhuma questão. Eu lia chinês na minha frente.
Naquele dia a minha casa caiu e parte da minha empáfia sumiu, vi que teria que fazer diferente para ter sucesso.
Não digo que foi um processo natural, não comecei a estudar 10 horas no dia seguinte. Fui aos poucos adquirindo uma mentalidade de um tarado, de um possesso, de um sanguinário pelos estudos.
A adversidade é a melhor amiga nestas horas. Lembro que tinha conta no Unibanco e toda vez que ligava para o banco minha pressão subia, minha mão palpitava, suores escorriam e eu ouvia do outro lado da linha aquela voz metálica com uma dose de contento expressar as palavras:
- Seu saldo é mil reais negativo.
Fiquei dois anos nessa. Minha vida era acordar, tomar café e ir para a biblioteca estudar. Virei um tremendo de um chato, só falava de concurso, só queria saber de concursos, fiz mais de cem na vida. Brinco que sou o pior concurseiro da história, dado meu baixo aproveitamento. Não ligo para isso. Na verdade, até me orgulho, porque nunca desisti e depois de muitos insucessos consegui um, dois, mais uns dois ou três e vim parar onde estou.
2018
Cerca de 15 anos depois no mesmo dia do brasileiro de Caxias aparece uma prova de um dos únicos concursos que me interessa ainda. Não estudo mais, mas penso, nunca deixei de dar uma olhada na matéria, sei mais português, mais matemática e se eu der uma olhada na matéria...
- Vai que cola.
Em Caxias, véspera da prova, joguei, bebi, conversei, e os livros que havia levado na mochila permaneceram lá, na mochila. Na sexta pela manhã tomei o rumo de Criciúma para fazer o que era minha rotina há uns 15 anos, concurso.
Pois, meu avô já dizia, burro é o que faz a mesma merda duas vezes. Não digo que não sabia fazer nada da prova, fiquei em 372, mas sabia que o vai que cola não existe.
Não existe em nenhuma área, em nenhum trabalho, em nenhum concurso e em nenhum esporte.
Desconfio de forma extremamente forte dos que dizem que não treinam no futebol de mesa. Sim, finalmente cheguei aonde meus 6 leitores querem ler. Existem vários por aí com a ladainha, eu não treino, estou há seis meses sem jogar, vim para participar, e de repente estão lá, nas finais.
Quando vejo estes nas finais penso, será que tudo que aprendi ao longo destes anos é mentira então?
Creio que não!
Pode ser que existam atalhos e talvez muitos de nós queremos nos reconhecer nestes atalhos, pois acreditamos que somos diferentes, melhores, iluminados. Eu não sou, em nenhum deles, nem nas provas, nem no futebol de mesa.
Caminhemos, portanto.