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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Ah, Há vida aos 40

Há vida aos 40

Os 40 são emblemáticos. Um ponto de inflexão que contemplamos quando temos nossos 15, 16, 21, 30.

Normalmente cremos que estaremos ricos. O sucesso financeiro é inevitável, basta caminhar até os 40. E além de ricos estaremos resolvidos, seja lá o que isso signifique.

Lembro que há muitos anos conversando com um colega do Santo Inácio, Gustavo Simões, manifestava meu inconformismo de faltarem incríveis dois anos para nos formarmos. A noção de tempo é algo que muda com a idade. Um ano letivo parecia uma eternidade nos meus tempos de colégio; hoje estamos em junho e eu penso que o ano novo foi ontem.

Não sei o quanto mudamos também. Outro dia numa dessas discussões de WhatsApp lembramos de um amigo tremendamente pão duro quando tinha seus 15 anos. Eu defendi a tese de que ele pode ter mudado, porém fui voto vencido. Meus amigos do grupo crêem que esta parte do caráter dele era irrevogável, estava formada e consolidada. Eu não acredito nisso. Evidente que não sei o quanto as pessoas mudam e isto é algo completamente pessoal, mas acredito em mudanças radicais para o bem e para o mal.

As vezes penso que pessoas tidas por mim como insuportáveis, enquanto mais novo, podem ser extremamente agradáveis hoje; sinceramente, não sei.

Este não sei é algo estranho também, meus 40 deveriam ter trazido uma sabedoria incontestável, pelo menos achava isto. E hoje vejo que minhas interrogações são maiores que antes. Não interrogações que perturbem meu sono, mas pequenas perguntas intermináveis cujas respostas sei que não acharei. Sou da linha que o Universo não é perfeito, não é uma equação matemática maravilhosa altamente complexa e interligada. Se o universo tem um milhão de acasos, eu também os tenho.

Acho engraçada a transição da idade. Em alguns lugares, taxi, uber, trabalho, começo a ser chamado de senhor. Olho para o espelho e me acho um jovem esplendoroso, mas o senhor está cada vez mais presente na minha vida. Senhor para cá, senhor para lá, e começo a me acostumar, não gosto, mas parece que os 40 trazem as marcas inexoráveis do tempo. Eu vejo cabelos brancos, uns kilos a mais, e um rosto de galã; parece que não.

Recordações, sim, já tenho muitas: Costumava perguntar para meu pai - como era na sua época, Pai? Assuntos diversos, futebol, colégio (estudamos no mesmo), Brasil, a cidade Rio de Janeiro, economia. Um dia, ele se virou para mim e disse.

- Minha época é agora.

Sim, ele deveria ser mais novo que eu quando eu fazia esta pergunta. E hoje, vejo que minha época é agora.

Não cabe colocar na vida pontos de inflexão, idades temerárias ou algo do tipo.

Vejam, não falo de um levar a vida de uma forma prosaica, excessivamente tranquila, sem planos, mas eis que estou quase no final de um texto que não planejei. Escrevi, sem pensar, refletindo apenas devagar e pondo palavras desajeitadas ao longo de um papel. Não tenho a menor ideia da onde quero chegar. Não planejei um final surpreendente, algo para chamar atenção, uma reviravolta súbita. Apenas escrevo como vivo, mais lentamente, sem planos de outrora de conquistar o mundo.

Tenho mais perguntas do que respostas, mas tenho ciência hoje que não existe um ponto definitivo, uma linha que separa o sucesso do fracasso.

Tenho 40, que venham os 50.

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