Há vida aos 40
Os 40 são emblemáticos. Um ponto de inflexão que contemplamos quando temos nossos 15, 16, 21, 30.
Normalmente cremos que estaremos ricos. O sucesso financeiro é inevitável, basta caminhar até os 40. E além de ricos estaremos resolvidos, seja lá o que isso signifique.
Lembro que há muitos anos conversando com um colega do Santo Inácio, Gustavo Simões, manifestava meu inconformismo de faltarem incríveis dois anos para nos formarmos. A noção de tempo é algo que muda com a idade. Um ano letivo parecia uma eternidade nos meus tempos de colégio; hoje estamos em junho e eu penso que o ano novo foi ontem.
Não sei o quanto mudamos também. Outro dia numa dessas discussões de WhatsApp lembramos de um amigo tremendamente pão duro quando tinha seus 15 anos. Eu defendi a tese de que ele pode ter mudado, porém fui voto vencido. Meus amigos do grupo crêem que esta parte do caráter dele era irrevogável, estava formada e consolidada. Eu não acredito nisso. Evidente que não sei o quanto as pessoas mudam e isto é algo completamente pessoal, mas acredito em mudanças radicais para o bem e para o mal.
As vezes penso que pessoas tidas por mim como insuportáveis, enquanto mais novo, podem ser extremamente agradáveis hoje; sinceramente, não sei.
Este não sei é algo estranho também, meus 40 deveriam ter trazido uma sabedoria incontestável, pelo menos achava isto. E hoje vejo que minhas interrogações são maiores que antes. Não interrogações que perturbem meu sono, mas pequenas perguntas intermináveis cujas respostas sei que não acharei. Sou da linha que o Universo não é perfeito, não é uma equação matemática maravilhosa altamente complexa e interligada. Se o universo tem um milhão de acasos, eu também os tenho.
Acho engraçada a transição da idade. Em alguns lugares, taxi, uber, trabalho, começo a ser chamado de senhor. Olho para o espelho e me acho um jovem esplendoroso, mas o senhor está cada vez mais presente na minha vida. Senhor para cá, senhor para lá, e começo a me acostumar, não gosto, mas parece que os 40 trazem as marcas inexoráveis do tempo. Eu vejo cabelos brancos, uns kilos a mais, e um rosto de galã; parece que não.
Recordações, sim, já tenho muitas: Costumava perguntar para meu pai - como era na sua época, Pai? Assuntos diversos, futebol, colégio (estudamos no mesmo), Brasil, a cidade Rio de Janeiro, economia. Um dia, ele se virou para mim e disse.
- Minha época é agora.
Sim, ele deveria ser mais novo que eu quando eu fazia esta pergunta. E hoje, vejo que minha época é agora.
Não cabe colocar na vida pontos de inflexão, idades temerárias ou algo do tipo.
Vejam, não falo de um levar a vida de uma forma prosaica, excessivamente tranquila, sem planos, mas eis que estou quase no final de um texto que não planejei. Escrevi, sem pensar, refletindo apenas devagar e pondo palavras desajeitadas ao longo de um papel. Não tenho a menor ideia da onde quero chegar. Não planejei um final surpreendente, algo para chamar atenção, uma reviravolta súbita. Apenas escrevo como vivo, mais lentamente, sem planos de outrora de conquistar o mundo.
Tenho mais perguntas do que respostas, mas tenho ciência hoje que não existe um ponto definitivo, uma linha que separa o sucesso do fracasso.
Tenho 40, que venham os 50.
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