Todos concordam que Pelé foi um grande jogador. Existem discussões se foi o melhor, se no período em que atuou era mais fácil, e até o fato de ter jogado para sempre no Brasil (desconsidero o Cosmos) denigre parte de sua carreira.
OK, considero todas as discussões válidas. Mas Pelé para mim significa muito mais que isso. Significa um projeto de nação.
Nasci em 1976. Começo a ter memórias do futebol em 82 como escrevi em outro texto, mas 86 é o marco em que começo a acompanhar a seleção. Um time de ressaca é como defino àquele escrete, ressaca de 82. Um bom time, muito melhor do que vários que tivemos, mas parece que era uma geração fadada à derrota. Pois bem, eu com meus dez anos começo a perguntar ao meu pai a cada bom jogador que surge:
- Pai, é o novo Pelé?
Lembro de um campeonato de aspirantes que a TV bandeirantes transmitia. A cada jogada mais elaborada, gol bonito, eu repetia a pergunta.
- Pai, é o novo Pelé?
E lembro de um jogo em que Elivélton, aquele atacante que caía pela esquerda no São Paulo e jogou muito bem um amistoso na seleção me fez vir com o questionamento de Juquinha de novo.
- Pai, é o novo Pelé?
Pois bem, agora, bem mais velho, surge a pergunta. O que eu queria dizer com isso?
Era apenas um jogador excepcional que eu queria ver surgindo novamente nos gramados brasileiros e que eu não tive a oportunidade de ver?
Não, claro que não.
Pelé pra mim é o que poderíamos ser e não somos. É o Brasil que deu certo. Ora, façam-me o favor os mimimi de plantão que já invocam manchas do passado, filhas não reconhecidas ou filho traficantes, casos amplamente divulgados pela mídia. Não trato disso aqui. Trato do que ele representou para o país. Uma nação vira lata em 50 passa a Rottweiler em 58. Um menino, sim, um menino de 17 anos mostra o caminho do sucesso. Suas vitórias, a raça, os gols nas duas finais que participou, o soco no ar, o revide da porrada (Uruguai 70), tudo isso transcende aquelas 4 linhas do gramado. É muito mais que isso.
Pelé surgiu na época em que este país crescia. Brasília, milagre econômico, saiu da faculdade tinha emprego. Por alguma razão naquela simplicidade de quando se é juvenil associei Pelé ao Brasil, ao crescimento, a uma nova era. Sim, pois se estou me delimitando no tempo aos anos 80 estamos tratando aqui da década perdida, do plano cruzado que fracassou (alguém lembra dos fiscais do Sarney? ). Estou falando do crescimento da violência e claro das copas perdidas de 82, 86 e 90.
Nos meus questionamentos da imaturidade o surgimento de um novo rei mataria as duas equações. Meus pensamentos estavam errados, mas não de todo. Um novo Pelé não irá automaticamente nos mostrar o caminho como nação. Mas, tenho certeza, sua excelência, sua gana pela vitória serão para sempre um balizador de como devemos ser nos mergulhos profissionais e pessoais que fazemos na vida.
Recentemente ele apareceu na TV. De cadeira de rodas, em nada lembra aquele que dava o soco no ar. O tempo é implacável para todos, mesmo para quem vai existir sem mais viver aqui.
Eu te agradeço em vida
“Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”, Nelson Rodrigues.

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